segunda-feira, dezembro 07, 2009

The ground beneath her feet


Só há um escritor vivo a quem eu não me importaria de servir de mulher-a-dias esfregar umas escadas ou coser umas meias, e esse é o Salman Rushdie. Sim, é verdade, adoro o Saramago, admiro a técnica do Lobo Antunes (apesar do seu recente deixai vir as mim as criancinhas e os duendes felizes me custar a engolir), apesar de ter um grande fraquinho pelo Zafon... só o Rushdie está num patamar em que eu lhe faria tarefas domésticas de boa vontade. Não é o perfeito, não será tecnicamente o melhor, apesar de isso ser um pouco dependente das opiniões, mas é o único que escreve livros que eu consigo amar como pessoas, de verdade. Por exemplo, amo os livros do Saramago sem conflitos, complicações ou discussões, como uma filha pequena a um pai, mas amo os livros do Rushdie como se amam as pessoas, com mal-entendidosde parte a parte, irritações e ternuras inexplicáveis. E este Chão que ela pisa é, certamente, o meu livro preferido dele, aquele que mais me toca.
Como lidamos nós com a adoração, com o amor ao nosso lado e do qual não fazemos parte? O que fazemos com todos aqueles sentimentos que não têm nome ou dono, que surgem nos nossos peitos como ervas daninhas e sem os quais somos metade, menos de metade?
Levamos anos, décadas a fazer as pazes connosco próprios por aquilo que não conseguimos ser, por aquilo que não conseguimos ter, o amor não se pede, dá-se. E no entanto passaremos sempre pelos momentos onde olhamos para trás com raiva, ou com mágoa, ou com tristeza de todas as coisas que perdemos, de todas as coisas que poderiam ter sido. Não é que o amor seja diferente de homens para mulheres, é que ele é uma coisa de pele e de instinto, é que há nele vencedores e perdedores, aqueles que controlam e os que se deixam ir, seguindo o rasto de pés descalços pelas ruas da cidade, adorando o chão que quem amamos pisa...

quarta-feira, novembro 04, 2009

O 4-4-2

Aos vinte levamo-nos demasiado a sério, com a mania que somos adultos, sérios e responsáveis, aos trinta somos putos de catorze anos que por acaso trabalham e têm carreiras e percursos académicos e assim. As pessoas sérias estão em casa com os filhos pequenos a discutir as prestações e a conta do pediatra, com o coração intacto de quem foi feliz à primeira, sem ossinhos nem espinhas nenhumas. Não têm- não podem ter- a nossa capacidade de resistência, ou de nos rirmos de nós próprios.
Somos, aos trinta, gatos arranhados e com marcas de batalha, duros e manhosos, a olhar para o mundo com um certo desdém desconfiado: tudo, mas tudo, sabemos, pode acontecer. Não se acabam em penas e batalhas amargas por mobílias e filhos os votos de casamento? Não são os amores perfeitos miragens, ilhas, pontes quebradas, desfeitas algures no passado e na distância? Não chegámos ao presente sem marcas, nem nunca mais seremos os mesmos. Que o amor não nos engana, como diz o poeta, com a sua brandura.
Somos, como aos catorze anos, complicados, revoltados, aborrecidos. Ninguém diria, no nosso dia adulto de fatos e saltos e gravatas e reuniões importantes, de laptops e documentos os putos vulneráveis que somos na nossa noite. Choramos na casa de banho, bebemos demais, dissolvemo-nos em raivas, em risos, na música, no fumo de mais um cigarro. Discutíamos testes e notas, músicas e batons aos catorze. Nada mudou excepto talvez as conversas serem um pouco mais subtis, um pouco mais cultas, de resto somos os mesmos.
Funcionamos em grupo, também como antes, meninos para um lado, meninas para o outro. Há sempre um jogo, um esquema entre as vodkas pretas, a nossa vida emocional mede-se pelo número de SMS que recebemos e combinamos. Haverá, ou não, ao fim da noite, um táxi para voltar a casa, uma cama estranha, os momentos de náusea e solidão da manhã que nasce e nos traz para um novo dia quase intactos, quase como éramos antes.
Comemos, com a vodka ou os shots, as iguarias que servimos, que deixamos que nos sirvam: os douradinhos do amor a fazer de conta que é sexo, os rissóis do sexo a fingir que é amor, ou pelo menos qualquer tipo de emoção forte ou significativa. Jogamos o jogo, atiramos a linha, contamos, no 4-4-2 com as amigas e a determinação e as botas da moda e trinta e seis ou trinta e sete SMS que não temos coragem para apagar porque são um guia, um diário, uma testemunha para aquilo que não tem nome nem existe. Se nos tocam escuridão e na noite o toque existe? É verdade?
Não há, na noite, preocupações com a condição feminina, não nos damos a esse luxo. Estamos, demasiado para lá dessas considerações. Aquelas que sabem emergir do jogo sem demasiadas cicatrizes insistem nele, as outras somos as flores do papel de parede a ver o ângulo e tantos, milhares de esquemas que redundarão em lágrimas na casa-de-banho ou toques furtivos na noite, ou passagens rituais, como os xamanes, por camas de brasas ardentes. Não dói, dizem, é mais uma questão de mentalização, de fortalecer o coração e os pés e avançar pelas escuras sendas da noite e do desejo. E amanhã, como diz a Scarlett, amanhã é outro dia.

domingo, outubro 18, 2009

I should have met you in the eighties



Fomos informados de quem seria o DJ da noite pelo seu filho de catorze anos, o que nos fez sentir incrivelmente velhos. Os DJ não têm filhos de catorze nos que por acaso até são nossos alunos, nem a música que nós ouvíamos aos catorze anos pode ser já usada para uma festa temática, pois não? Parece que sim.
A casa estava cheia, mas eram as miúdas adolescentes que mais estavam à anos oitenta, ainda não têm a capacidade de auto-ironia da gente; e resto já demos pra todos aqueles peditórios: botins de camurça com franjas, check, camisolona larga com ilustrações do Patrick Nagel, check, calças justinhas com All Stars, check, demasiado lápis preto e argolas enormes, vinte e três pulseiras com tachas de metal, check, check and check. Deus, como o tempo passa.
Para os miúdos que estavam lá, gente nascida nos finais dos oitenta e os noventa, ver-nos na discoteca era uma experiência entre o maravilhamento e o terror. Ver adultos, modelos de conformismo contra quem se rebelar, aliás, a dançar e cantar, perdidos nas músicas deve ter sido uma experiência estranhíssima, o mundo ao contrário. Depois, a nossa maneira de viver a música era completamente diferente, a músicas inteiras, com letras de rebeldia que gritar em vez da batida primitiva dos bocados das samples que agora ouvem e para as quais, sinceramente, estamos muito velhos e não temos pachorra nenhuma.
Deus, como éramos rebeldes, rebeldes contra tudo, de manhã com os riscos pretos e as calças dobradas ao fundo (duas dobras, fininhas, impensável sair de casa sem elas) mordíamos as rebeldias, rebeldes com os professores e as vidas e as expectativas e todas as autoridades. Agora, aburguesámo-nos, acomodámo-nos, demasiado sábios ou demasiado cansados pela vida para gritarmos como aos catorze anos, batermos com a porta, fazer uma fita, acreditar que podemos ser exactamente aquilo que queremos. Temos agora filhos e responsabilidades e empregos e alianças convenientes, rotinas estabelecidas, amores oficiais. Aqueles de nós que não os têm, por vontade ou capricho dos anos e da vida, amam muito mais cuidadosamente, nunca com o peito aberto que tínhamos antes: "I'll stop the worl and melt with you", gritavam os Modern English, "to die by your side, well the pleasure, the privilege is mine", respondem os Smith, Just like heaven, suspiram os Cure.
Envelhecemos, melhor, crescemos, para longe e para fora do que esperavam de nós, do que nós esperávamos. Temos agora esta consciência inevitável, com a maturidade, das nossas falhas, dos nossos erros, de todo o tempo perdido entre a nossa rebeldia dos catorze anos e a maturidade dos (meus) quase trinta e quatro. A consciência de saber que nunca mais seremos assim, como éramos nos oitenta. E não conseguir decidir se isso é uma coisa boa, se uma coisa má.


quinta-feira, outubro 15, 2009

Here's Michaaaaaaaaaaaaaaaaaaaael

Meninas, o mocinho está de volta e agora os senhores da Warner Brothers fazem parte dos meus amigos próximos, digo íntimos. É tão giro quando não bloqueiam os videos oficiais no Youtube...
Here's Michael for your enjoyment, so enjoy.

quarta-feira, outubro 07, 2009

A super teoria de praticamente tudo

Apesar do tema eminentemente erudito, a verdade é que a inspiração para este texto emanou direitinha de uma música dos Gogol Bordello. Toda a gente sabe, aliás, que a minha cultura científica é a modos que limitada, se a coisa sair das ciências humanas. De qualquer maneira vamos lá a ver se me consigo explicar sem dizer muitas asneiras. Falava de uma super teoria, por isso vamos lá.
A tendência científica durante muito tempo foi para a especialização, saindo de uma ciência tipo sopa da pedra com um bocado de tudo, como a alquimia, e arrumando tudo direitinho em disciplinas cientificas e sub-secções específicas de estudo. Claro que depois perceberam que não era bem assim, por exemplo que a origem da vida na terra e o desenvolvimento das espécies não era estanque nem explicável apenas por coisas como a antropologia, também coisas como a geologia tiveram um papel fulcral neste processo. Daí a chegar à ideia de uma super teoria que explicasse basicamente tudo foi um passinho. Ainda não se encontrou, mas procura-se com afinco. E ouvi aqui há uns tempos um físico dizer que será, provavelmente, linda na sua simplicidade, como a teoria da relatividade, uma catedral no seu e= mc2.
Se os cientistas andam a procurar uma resposta apenas para todas as questões do universo, dei por mim a pensar se não haveria também uma super teoria para estas coisas da vida e do coração que aqui trato, não do sentido da vida, que toda a gente sabe que é o chocolate preto com uns travozinhos de menta, mas das emoções.
Sou, como vocês sabem, uma observadora da natureza humana. Como os narradores do E.M.Forster passo a vida a observar toda a gente a apaixonar-se e a desapaixonar-se, a amarfanhar-se e esgadanhar-se sem participar directamente. Isto dá-me, este distanciamento, uma espécie de abordagem científica à coisa. Por isso dei por mim em busca desta super teoria que explicasse estas coisas, todo este amor e corações partidos, todas estas batalhas em que se sai mais amachucado que outra coisa.
Como diz o Alain de Boton no seu Status Anxiety, todos procuramos a validação, a atenção e o reconhecimento incondicional dos nossos feitos como tínhamos quando éramos pequeninos. Ele aplica a ansiedade ao status e á forma como somos percebidos social e profissionalmente. Eu pensei (não muito originalmente, confesso) em aplicar isto ás relações homem-mulher, pois disso falo há três aninhos aqui no blog. Será verdade que a super teoria de quase tudo é que todos queremos atenção? É capaz.
Se problematizarmos, no entanto, esta teoria, ou melhor, deixem-me ser cientificamente correcta e chamar-lhe modelo científico, vemos que explica muita coisa, mas que é uma coisa simplista. Explica, por exemplo, a nossa monogamia em série, de um amor para outro e depois para outro, mas não tem em linha de conta, por exemplo, o equilíbrio precário de poder entre os dois sexos, ou uma série de constrangimentos culturais e morais. Quem acha que o amor é entre duas pessoas e não elas, eles e a soma das circunstâncias de ambos está muitíssimo enganado. Não há, a não ser nos romances do Saramago, e benza-o deus por isso, amantes perfeitos sem ansiedades nem fios nem complicações. Haverá sempre ânsias e desejos inconfessáveis e sentimentos de posse, porque somos imperfeitos. Haverá, sempre, entre homens e mulheres aquilo que fica por dizer e por perceber, que não se lê e não se diz , como se fossem didascálias. Mas sim, se quisermos ser simplistas pensaremos que a super teoria de quase tudo é a necessidade de validação, ou aceitação de quem somos e do que fazemos. E nisto os Beatles estavam, não errados, mas incompletos: não precisamos só de amor mas sim de nos sentirmos válidos, valorizados E esta é a verdadeira super teoria de praticamente tudo. Pelo menos segundo aquilo que conheço do mundo.

quinta-feira, outubro 01, 2009

Are you strong enough to be my man?



Confesso que um dos momentos mais divertidos dos meus dias ultimamente acontece cada vez que um dos meus colegas novinhos, acabadinhos de colocar, tem de visitar o meu escritório (e ultimamente tem de lá ir muitas vezes). E não é que esteja especialmente interessada no moço, a falar verdade é um pouco novinho para o meu gosto, mas acreditem, a expressão de terror abjecto e os olhos vidrados do moço cada vez que tem de lidar comigo é impagável. Encolhe-se no seu metro e noventa e nos seus prováveis noventa kg e fica com a expressão vítrea de um veado em frente aos faróis de um carro, de língua atada. E pronto, já foi mais uma vítima.

Como ando a intimidar homens há décadas, confesso que a reacção do rapazinho me diverte. Sei que estou a ser mazinha e que podia perfeitamente ser menos descarada e mais acessível, mais meiguinha, que podia tranquilizá-lo que não mordo. Mas conhecendo bem o meu próprio espírito retorcido sei perfeitamente que lhe diria que não mordia... e depois acrescentar logo a seguir: muito... e só quando me pedem... e pronto, voltava o sorriso fixo e o olhar aterrorizado, pelo que não iria adiantar muito... É que, de acordo com a minha experiência, ou achamos piada ou choramos que nem umas madalenas com o facto de intimidar a maioria do género masculino. Eu como acho que chorar me arruína a cútis costumo rir.

A maioria (esmagadora) dos homens sente-se intimidado e ameaçado por mulheres fortes. E não, não estou a usar fortes como eufemismo para gordas, o que deixem que lhes diga é do mais irritante, mas sim para fortes, pesem o que pesem. Uma mulher com ideias e opiniões e sem medo nenhum de as expressar costuma inspirar nos homens as reacções giras que o meu colega tem e tanto me divertem. Ou então fogem. É que para quem é tão o sexo forte, têm tantas ou mais fraquezas e neuroses que nós em termos de quem são. E uma mulher mais moldável, mais cordata, mais frágil que eles faz-lhes maravilhas ao ego.

Contrariamente ao que possa parecer, tenho relações cordiais e mesmo amizades duradouras com membros de ambos os sexos, isto para já não dizer do apreciadora que sou do género masculino, pelo que os conheço bem. Os homens irritam-me, divertem-me e atraem-me na mesma medida, e como estudiosa do género posso dizer com um certo conhecimento de causa que são, como nós, seres frágeis e muito poucas vezes corajosos (cobardes é uma palavra um pouco forte). E isso não tem nada de mal, acreditem. Só é desapontante.

Um homem que reage a uma mulher como o meu colega, ou seja, como se estivesse prestes a ser submetido a um pelotão de fuzilamento, dá cabo da auto estima de uma mulher. Pode ser uma reacção inconsciente, como acredito que seja, mas bom, o mal está feito. São precisas décadas, como as que eu já tenho, de experiência em intimidação para podermos achar nem que seja um módico de piada ao facto de sermos vistas como um destino pior que a morte. Mas a alternativa é inviável, o deixarmo-nos afectar. Acho que o que está mal no universo feminino passa muito pelo facto de as mulheres viverem mal com quem e como são, escondendo-se só porque os homens as tratam mal, ou as ignoram ou whatever. E não estou a falar de corpo, mas do todo, das opiniões e força de carácter, mau feitio e força de convicções. Sejam o que forem, honestamente, sem subterfúgios, a fraqueza alheia não pode servir como causa da nossa infelicidade.

Eu consigo divertir-me com a reacção do puto, coitadito, e vocês, riem-se com as tragédias masculinas que por aí andam? É que se não o fazem, deviam. A alternativa é muito pior.

quarta-feira, setembro 30, 2009

segunda-feira, setembro 28, 2009

Os padroeiros da vida



As coisas vulgares que há na vida não deixam saudades, já a Mariza diz na Chuva, só as lembranças que doem, ou fazem sorrir. Assim vamos pela vida com uma data de bagagem emocional, sacos de desesperos e esperanças, daqueles momentos em que a emoção nos aperta o estômago como um punho cerrado, daqueles momentos em que fomos muito felizes ou muito desgraçados. E vamos também pela vida carregados de pessoas, quer elas queiram vir connosco ou não. Umas mas olvidáveis que outras. No extremo que vulgarmente ocupam as inolvidáveis estão aquelas que eu costumo chamar de santos padroeiros.
Ora, os santos padroeiros têm aquelas características próprias da santidade, irritantemente dados à perfeição e a milagres e assim, insuperáveis nos seus sorrisos pintados e nas graças que espalham. Daqueles que não nos esquecemos porque acreditamos não haver melhor, não haver mais perfeito no conhecimento do nosso coração e da nossa alma, daqueles que nos prometem o céu só se tivermos um pouco mais de esperança, um pouco mais de paciência para as recompensas espirituais. E não me digam que sou a única a ter um padroeiro, porque eles são muito comuns. São os inultrapassáveis, os instransponíveis, aqueles que nos fazem olhar para trás com mágoa e pensar se ao menos as coisas tivessem sido diferentes, se ao menos pudesse ter sido seria perfeito. Aqueles que nos impedem de prosseguir porque não há, não pode haver melhor.
O chato dos santos padroeiros é o facto e nos impedirem de viver a vida, pois enquanto acreditarmos que não há melhor, que não pode haver, não damos passos nenhuns para os substituirmos por gente de carne e osso. Têm pés de barro, é verdade, não são, provavelmente perfeitos na sua humanidade, mas a sua presença na nossa vida é a desculpa perfeita para nos fecharmos no nosso cantinho.
Não há nada, mas nada mais fácil que um amor impossível. Para um amor impossível, para uma recordação intransponível não precisamos de nos esforçar nada, nem de comunicar, nem de pôr de pé contactos humanos. Bastamo-nos nas nossas bolhas de saudades, recordações e esperanças remotas. Uma coisa real é diferente. Aquela que de facto nos obriga a lidarmos com outros, a olhar para dentro e modificarmos os nossos hábitos para acomodarmos outras formas de estar e de ver... Sair de nós exige força e coragem, mas sobretudo a sabedoria de quebrar os padroeiros e seguirmos a vida sem os rumos da dor e do desgosto, em frente e sem memórias.

terça-feira, setembro 22, 2009

O sentido da vida

Porque não há para as crises existencialistas banda sonora melhor que o melhor metal sinfónico escandinavo, deixo-vos a música preferida do meu grupo do momento. Epica para repensar caminhos. Não, não neguem uma ciência que desconhecem à partida. Ponham o som no máximo e curtam. A não ser que estejam no trabalho, pelo que se calhar é melhor ideia esperar até chegar a casa...

sexta-feira, setembro 18, 2009

De famílias, tidas e achadas

Contavam-me há dias histórias dos encontros perfeitos, dos cenários perfeitos de sedução: a música ideal, o filme ideal, o restaurante ideal, aquela sequência de coisas que normalmente fazemos nas primeiras fases, entre a expectativa e o terror abjecto, da sedução. Dei cromos pra a troca. Tempos houve em que as referências certas, as ideias certas, a música x ou o filme y faziam um clique imediato de intimidade partilhada. Tempos houve em que tinha botões desses, e que funcionavam.
Somos condicionadas para a sedução de uma forma quase pavloviana. Os lugares-comuns do romance por alguma coisa são lugares-comuns.O ponto está em perceber quais os nossos botões que funcionam connosco. E guardá-los bem guardadinhos.
A sedução, o encantamento são muitas vezes coisas efémeras, muito difíceis de destrinçar da realidade, esses bocados de sonho. Precisamos de perspectiva, e essa perspectiva é a família que dá.
A família é a antítese da sedução. A família sabe todos os nossos botões, às vezes os bons, de nos encherem a alma de canja e simpatia, às vezes os maus, de nos irritarem. São, se quiserem, o controlo numa experiência, permanecem inalterados, para o bem e para o mal. Na família não há cenários perfeitos, amam-nos com a mesma frequência com que nos irritam, envergonham, enfurecem, enternecem. Chamam-nos à terra, mesmo em circunstâncias onde não são tidos, nem achados.
Cheguei à conclusão, nos últimos tempos, que o que vale ter na vida é a nossa família, da tida e da achada, dos que são nossos porque nascemos naquela família, dos que passaram a ser nossos porque lhes abrimos a amizade e o coração. Que nos aturam as cabrices, as birras e infantilidades, que nos dão cabrices, birras e infantilidades a aturar, que ficam porque são família. O resto,bom, são cenários e botões, encantadores, interessantes. Mas não são a verdade.
Obrigada, mana Su. Vou pela autoestrada, tu sabes o que quero dizer.

quinta-feira, setembro 17, 2009

segunda-feira, setembro 07, 2009

Do relativismo moral



Foi a conversa parar, na sexta-feira, casualmente ao tema da traição. Como este é um tema sob o qual tenho ideias firmes (na verdade tenho ideias firmes para quase tudo, é um vício meu), disse logo que era uma coisa com a qual não concordava nada; se já não se ama, resolve-se a relação antes de começar uma nova. Claro que parecia que tinha ali caído uma bomba, tal foi o espanto do resto dos comensais. Aparentemente, e na sua óptica, o assunto está cheio de gradações.
Se bem que costumo encontrar e tentar perceber diversas gradações da realidade, neste assunto confesso que não as encontro. Seja qual for a razão que me apresentem para a traição, continuo a achar moralmente errado envolver-se (física ou emocionalmente) com alguém já numa relação séria, e para isto ter ou não ter o papel e a aliança é completamente irrelevante. Até porque acho isso uma treta: quem frequentar um chat qualquer na net percebe que, pobres coitadois, o mundo está cheio de casados com mulheres que não os compreendem. Qual é a probabilidade estatística disso? Calculo que as mulheres digam a mesma coisa, que isto de gravidade no comportamento, tal são uns como outras, não há diferença nenhuma.
Tive uma educação católica e conservadora, tipicamente pequeno-burguesa. Fui educada com uma data de tabus, uns que questionei, outros que não. Este, confesso, é um dos que não consigo ultrapassar. Será tacanho da minha parte não aceitar que a coisa possa simplesmente "acontecer"? Será tacanho não aceitar esse relativismo moral que permite às pessoas fazerem aquilo que querem? Porque em análise última as pessoas fazem o que querem. Tirando imponderáveis sob os quais não temos qualquer tipo de controlo, acredito que a escolha é sempre nossa: estamos onde queremos e com quem queremos, nada, nenhum impedimento ou tabu consegue impedir-nos de fazer o que queremos. Se temos esse poder, podemos também escolher o que não queremos, dizer muito obrigada, mas não e amigos na mesma. Temos sempre um momento em que permitimos ou não que a coisa "aconteça", é essa escolha que nos torna adultos responsáveis em vez de garotos inconsequentes.
Como contei já era a única num grupo bastante heterogéneo de sensibilidades e formações a pensar assim. Não cheguei a decidir se o facto de pensar assim e não como eles faz de mim iluminada ou extraordinariamente obtusa, ou simplesmente se isso faz de mim uma idealista ternurenta sem ideia nenhuma do que é a vida real. Se querem que lhes diga, não interessa, num mundo de relativismo moral onde cada um traça os seus limites este é um dos meus. E conhecendo-me como me conheço, lamento, mas não me parece que vá mudar nunca.

terça-feira, setembro 01, 2009

Se os conselhos valessem de alguma coisa...

... não se davam, vendiam-se. Isto pensei eu no fim-de-semana ao tentar aconselhar a L. E aconselhava-a porque, tal como muitas de nós estiveram, estão e estarão, que a vida é assim mesmo, mal de amores. Os sintomas são os habituais: que gosto de ti mas não estou preparado para uma relação, que vamos ser amigos e logo se vê porque não te quero magoar, que és especial mas apaixonado nem por isso, que não és exactamente o meu tipo mas enfim... Ou seja, no grande banquete da vida, que é o amor, somos equiparadas a um pacote de batatas fritas gordurosas que servem para matar a fome momentânea e estão à mão mas não servem, balhamedeus, para refeição completa.
Toda a gente sabe que estas criaturas do mal de amores nunca fazem bem a ninguém. Se não gostam o suficiente, nunca gostarão, e tal como as ditas batatas fritas somos consumidas porque estamos á mão, mas até com um certo asco porque não somos, e nunca, mas nunca, nunca, nunca seremos, o caviar que acham que merecem. É insultuoso e acaba-nos com a auto estima ; voltando às batatas fritas (e quem havia de dizer que um snack carregado de calorias e colesterol dava uma metáfora tão versátil), se nos tratam como uma coisa reles e sem valor, mas à mão, nós próprias acabaremos por nos sentir assim. É uma profecia das auto cumpridas: se quem amamos acha que não valemos o suficiente nós achamo-lo também, esperando sempre ser (mal) tratadas da mesma forma por todos os homens que nos passam pela vida. E isto acaba mesmo por acontecer. Mais que isso, é muito fácil passar anos e anos segura a um homem destes, porque pois realmente é a cenoura perfeita para as burrinhas de serviço: não ama agora mas pode vir a amar, e é sempre um dia destes até percebermos, anos e ralações mais tarde que pois realmente não, nunca seremos nada mais que bordões convenientes para os egos frágeis destes homens cobardes. Ou até levarmos um belo chuto no rabo porque bem, o caviar chegou.
Os conselhos tão amigos que dei, frutos do saber emanado da experiência ,caíram, como está bom de ver, em saco roto. Mas isso já eu estava mais ou menos à espera, ou julgam que já nasci esperta? Pois não. Antes de me cair a ficha que estava a ser, como dizê-lo de forma elegante, estúpida como uma maçaneta de porta, também as minhas amigas a quem tinha acontecido o mesmo ficaram carecas de me avisar, mas eu dei ouvidos, dei? É que nem pensar...
É engraçado, temos os sentidos apurados para evitar o que faz mal, ou a dor. Não precisamos de nos cortar para saber que um corte dói, ou de comer sabão para saber que não sabe bem. Mesmo sem a experiência directa conseguimos evitar o perigo. No amor isto nunca acontece: ficamos cegos, surdos e estúpidos, esquecemos ou ignoramos os conselhos e saltamos alegremente para a frente do comboio de mercadorias em alta velocidade. Vai doer, à pois vai, mas é inevitável.
De modo que, leitoras, mais me valia ter poupado o fôlego e ir ver o Giannechini nos anúncios da TMN, em amor os conselhos não se dão. Porque se servissem para alguma coisa, e fossem a pagar, a vossa yours truly, com três anos e tal de blog, era uma excêntrica estrelicada ao sol nas ilhas das Caraíbas e não uma desgraçada funcionária pública no primeiro dia depois das férias. É que estava milionária...

sexta-feira, agosto 07, 2009

Monstros & Companhia



Só quando dei por mim a ver uma coisa, pela madrugada fora, chamada beauty and the geek é que me apercebi o quão diferentes são as mensagens extraídas das histórias de fadas por homens e por mulheres.
Por princípio não tenho objecções às histórias de fadas para crianças, transmitem valores importantes e, no geral, procuram criar uma nova geração pura e nobre (isto se esquecermos o fomentar lamentável do amor pelas tarefas domésticas na Branca de Neve, que obviamente sofria de comportamentos obsessivos - compulsivos, mas seja). Mas as coisas vistas ao pormenor não são bem assim, como é o caso desta bela e monstro.
Não sei bem se a culpa é da história, mas vejam bem se percebem as minhas objecções: uma mulher lê /vê/ouve a história da bela e do monstro e deduz que bom, mesmo as criaturas mais fisicamente repulsivas são dignas de amor; um homem lê/vê/ouve a história da bela e do monstro e deduz que até o homem mais feio tem o direito de ser amado por uma bela. E uma e outra mensagens não são, de todo, equivalentes. Enquanto a primeira é inclusiva, incluindo nas categorias passíveis de se amar não só príncipes mas também sapos e outros monstros avulsos a segunda é exclusiva, excluindo, bom, as feias. O que, diga-se de passagem, é extremamente irritante.
Os problemas dos contos de fadas com as mulheres feias é bastante extenso: as irmãs da gata borralheira têm um tratamento péssimo e as bruxas, no geral são mulheres feias e velhas (dois pecados capitais). Mas nenhum levas as coisas tão longe como esta bela e monstro. A malta compreende um bocado a simbologia primária, tipo o bem é bonito e o mal feio, mas era escusado complicarem as coisas à m alta, escusadinho mesmo. Os homens não precisavam de mais desculpas para serem superficiais no amor e para terem expectativas irrealistas em relação ao tipo de mulheres que vão encontrar.

segunda-feira, agosto 03, 2009

Eye Candy


Chris Vance
(Não tem o sarcasmo do House mas em compensação tem um sotaque... oh well. Mental, na FOX)

domingo, julho 26, 2009

Queridas leitoras e um ou outro leitor avulso que por aqui pare:

Com o calor, as noites longas e a preguiça típica de férias, a tia Passionária preocupou-se em lhes arranjar actividades lúdicas para entreter os vagares na figura de um jogo de bingo. Jogar é fácil, imprimem o cartão, e uma lê em voz alta. Ganha, obviamente, aquela que preencher primeiro o cartão. Prémios adequados para este bingo andam na onda de bebidas espirituosas com sombrinhas e palhinhas à escolha da vencedora e umas boas risadas à falta de imaginação do género.

terça-feira, julho 21, 2009

Do passado e do futuro



A representação de Janus, o deus romano das portas, passagens e decisões importantes é representado como bifronte, ou seja, com duas faces, uma voltada para trás, outra voltada para a frente. Isto simboliza omnisciência e, inerente a ela, a sabedoria de ver em todas as direcções, de lembrar o passado e conhecer o futuro. Não há más portas, ou más decisões se conhecermos o passado e o futuro.
Às vezes acho que a cautela que o tempo nos traz nos torna um pouco nesta dupla face de Janus, conhecemos o passado e prevemos, com uma certa exactidão o futuro porque já conhecemos a natureza humana e pouco-ou nada- nos surpreende. Mas isto pode ser, igualmente arrogância- hubris- que nos lança na desgraça, e este sim, é um conceito grego.
Não é por acaso que os gregos não tinham o correspondente a Janus no seu panteão. Ninguém, nem mesmo os deuses no seu esplendor estavam dispensados das falhas e imperfeições humanas, ninguém, nem mesmo os deuses estavam dispensados de falhar e de sofrer. Os romanos eram eminentemente práticos, acreditavam na técnica e no planeamento atempado para controlar as surpresas. E assim previam o futuro baseados no passado, e com sucesso. Mas um povo mais intrinsecamente filosófico como os gregos sempre percebeu o erro que isto constitui: prever todas as continências, saber todas as variantes é humanamente impossível, divinamente impossível também. E aqui reside a sabedoria.
Temos, com o tempo, a tentação de saber as coisas, prever as coisas, mas sabemos, devemos saber o inútil que é. O passado é um país distante onde toda a gente se comporta de maneira diferente de nós, o futuro um ponto de interrogação insolúvel. E continuamos a ter de passar portas sem omnisciência, nus e ignorantes como sempre o fizemos antes.

segunda-feira, julho 13, 2009

quinta-feira, julho 09, 2009

Coitadinho do crocodilo


Queixava-se outro dia um conhecido do fim da sua relação. Quando a coisa começou o homem estava entusiasmado e dava gosto ouvi-lo todo apaixonado. Agora tinha andado uns tempos de monco caído até pôr a desgraçada a andar. O problema, era, sobretudo, dizia todo contrito e frustrado, a falta de comunicação.
Eu sei que nem todos os homens são desprovidos de consciência e princípios, e o rapaz estava mesmo triste pelo falhanço da relação. Mas conhecendo bem a história acho que mesmo os homens mais morais e bem-intencionados têm muitas vezes uma abordagem errada a esta coisa de começar e fazer funcionar uma relação. E esta abordagem começa logo na escolha da candidata.
Que escolhem a candidata pela aparência é uma verdade tão batida, tão batida que não vale a pena repetir. Que depois se queixem de que a dita moça não os completa ou satisfaz é que já é demais. É insultuoso para ambos. É o mesmo que protestar porque um jarrão chinês não sabe nada de política. O que é preciso é consistência.
Ninguém tem obrigação de ser o que não é, de se esforçar por chegar aos padrões do outro só porque o outro o quer. Se a rapariga não gosta, digamos, de música clássica e ele sabe, é justo sentir-se frustrado por ter de ir ao CCB sozinho? Chegar a um ponto comum, experimentando coisas novas é uma coisa desejável numa relação. Tentar moldar os outros aos nossos gostos e expectativas e ficar frustrado quando não se consegue é outra bem diferente.
Encaremos os factos da verdade: correndo o risco de generalizar, a verdade é que muitas meninas bonitas não são lá muito profundas. E isto não tem mal nenhum, muitas meninas menos bonitas também não o são, nem muitos homens, já que estamos a falar disso. Mas também não devem ser constrangidas ou forçadas a sê-lo se não o quiserem ser. Ser genérico, se bem que possa ser pessoalmente frustrante, nem é crime nem pecado.
A falta de comunicação de que o moço se queixava resumia-se à falta de suficientes interesses e expectativas comuns. Para além da comunicação primária do sexo, pois não tinham realmente muito que conversar. E o erro masculino reside neste contexto: o esquecerem-se que a paixão eventualmente acaba ou se atenua, e que quando isso acontece, é bom que algo mais os una, ou o resultado é inevitavelmente afastamento e frustração.
As mulheres podem também deixar-se cegar pela paixão e escolher mal o candidato, mas acontece menos que com os homens. Ou se calhar temos menos expectativas (e muitas vezes menos amor-próprio), acabando por aceitar o outro tal como é. Mas no caso dos homens isto é mais a regra do que a excepção. De modo que quando o rapaz se queixou de que a moça não o completava e que, mais uma vez, tinha falhado, não teve direito a lá muita simpatia minha. Todos nos enganamos, mas coitadinho do crocodilo... De quem é a culpa se chora porque teve mais olhos que cabeça, uma e outra vez?

quinta-feira, julho 02, 2009

Como ficar bem nua



Há um programa na SIC gaja de que gosto particularmente, chamada How to Look Good Naked. A ideia é fazer as mulheres gostarem do seu corpo tal como é, sem ligarem a traumas e bocas da reacção. O que, convenhamos, é o que deve ser.
O curioso deste programa é ser apresentado por um dos antigos meninos do Queer Eye For The Straight Guy, aquele onde gays cheios de estilo davam uma ou outra noção de estilo, ética e etiqueta aos neanderthais dos homens hetero. Que sejam homens que, assumidamente NÃO estão interessados no nosso corpo dessa forma que nos ensinem a gostar dele e a respeitá-lo não deixa de ser curioso. Não seria mais lógico que fossem os Hetero, aqueles que estão mais interessados em tirar os devidos usufrutos do nosso corpo a incentivar-nos a gostar dele? Seria, mas não é. E a culpa é da arte, da filosofia e do complexo fálico masculino, que faz mais vítimas que a tuberculose na época vitoriana. Eu explico.
Começamos pelos gregos. Ora os gregos antigos são, como todos sabem, os responsáveis pelos nossos padrões de beleza actual. Toda a escultura, toda a pintura, toda a representação gráfica do corpo humano tem essa matriz. Que tenha sido feita por uma civilização que mantinha as mulheres fechadas em casa e considerava o amor perfeito o vivido entre dois homens (idealmente entre mestre e aluno) não é, de todo, irrelevante. Mas pese o que pese este argumento, a verdade é que foi a sua arte que nos serviu de modelo, privilegiando o corpo feminino de uma forma e não de outra, esbelto e não rechonchudo, simétrico e não assimétrico, perfeito e não imperfeito.
Quanto à filosofia, também os gregos têm muita culpa (e como a religião lhe absorveu os conceitos por extensão, não é mencionada): o espírito sobre a carne empurra o conceito filosófico para um corpo espiritual, livre de todas as coisas demasiado carnais, ou sensuais, como preferirem: ancas e seios generosos, altura e potência física.
Por detrás, ou melhor, por detrás não, inerente a este conceito está o trauma da supremacia fálica dos homens que os faz sentir-se ameaçados por mulheres maiores que eles, relegando-as, tanto quanto possível à subserviência e à fragilidade. Mulheres que podem ser protegidas, mais facilmente são dependentes e subservientes.
Por mais que os conceitos estéticos, filosóficos ou morais evoluam, esta verdade é a pedra angular da civilização ocidental.
O que todos estes conceitos elevados (misóginos, mas elevados) têm a ver com TV e ficar bem despida é que eles são os responsáveis, os vilões das nossas histórias, os maléficos que nos põem em pânico em frente a um espelho. Ficar nuas à frente de gente, mesmo tratando-se dos homens que amamos (ou pelo menos desejamos) é difícil para nós. Achamos sempre que podíamos ser melhores, comparamos-nos com as estátuas, os quadros, as fotos das revistas e encontramos-nos em falta. E isso assim não pode ser.
Eu gosto do meu corpo. É bom e forte e saudável e serve-me bem. Os olhos não funcionam lá muito bem, nada que não se resolva com óculos. As pernas levam-me onde quero ir, as mãos agarram e prendem, acariciam e fazem o que devem fazer, a cara tem todos os requisitos habituais, dois olhos e um nariz, uma boca, duas orelhas. Gosto de poder com ele. E quem não goste que meta uma rolha. Vai-se pôr a vida em suspenso por centímetros em sítios que dizem que em teoria não deviam ter esse tamanho? Por curvaturas e ângulos dos elementos que nos constituem? Por células acumuladas no sítio X e ausentes no sítio Y, que não pensam, não sentem, não são? É claro que não.
A lição que o How to Look Good Naked nos ensina é que para ficarmos bem nuas precisamos apenas de confiança. E selectividade para não partilharmos a nossa vida com os neanderthais que não aceitam o nosso corpo como somos. Todas as coisas são belas, todas as mulheres, todos os homens, se não tivermos uma versão restrita e convencional daquilo que constitui a beleza. Ok, não somos Vénus de Milo ou do Boticelli, mas podemos ser do Botero ou de Willendorf, que são arte e beleza igualmente. E depois, é a alma, é o que escolhemos fazer com esse aglomerado de células não-pensantes que constitui o nosso corpo que contam. Quem nos vê nuas deve gostar tanto de nós como quando estamos vestidas, não pelas características, mas pela intimidade, mas porque somos Nós, e de perto. E se isso acontecer, estaremos sempre bem nuas.

domingo, junho 28, 2009







Cucos


Era uma vez um cuco que não gostava de couves...

É engraçado as coisas de que nos lembramos quando passamos tempo com as crianças. Às vezes há um sentimento de maravilha a propósito daquilo que sabemos, e que podemos ensinar a uma mente espantosamente fresca e aberta, sedenta de saber. Outras vezes parece-me que quem aprende, quem relembra sou eu, coisas que sabia quando era pequena e já não sei, que a vida e o cinismo me apagou da memória. Mas considerações filosóficas à parte, a ideia para este texto ocorreu-me quando estava a cantar com a minha sobrinha a lengalenga do cuco que não gostava de couves.
Estávamos as duas na cozinha sobre os nossos respectivos iogurtes e cantarolávamos a história do cuco e das couves (ocorrência que não teve testemunhas, e ainda bem, porque o amor pela música na nossa família só é superado pela nossa total, completa e absoluta falta de sentido de ritmo e das noções mais básicas sobre afinação, que começa mal e piora quanto mais velhas somos). A meio da lengalenga comecei a pensar que o raio do cuco era teimoso, aliás, que todos os envolvidos eram teimosos como o raio, prontos a servir a teimosia do cuco em não comer as couves (e quem o pode culpar? Quer dizer, não é beringela, que odeio, mas convenhamos que tampouco é gelado de chocolate). Só quando apareceu a morte é que a coisa funcionou e o cuco avançou em relação ao malfadado prato de couves. O pensamento marginalmente inteligente que me ocorreu (e pontualmente tenho um ou dois) é que o confronto com a nossa mortalidade nos leva a fazer coisas que, normalmente não faríamos.

E ele ia sempre a dizer couves não hei-de comer...

Há uns tempos atrás encontrei uma antiga colega, que trabalhou comigo no meu primeiro ano de trabalho (e já lá vão onze anos), que me deu a conhecer o casamento de outros dois colegas de trabalho. O que seria normal, a colega era bem uns dez anos mais velha que eu então e as pessoas vão-se casando, é a vida, não fosse o twist de o casal ser, se não um casal impossível, no mínimo dos mínimos, improvável.
É verdade que os caminhos do amor são imprevisíveis ( e considerem isto a minha quota de referência das Bronte obrigatória), mas mesmo assim este é um casal que não estava a ver formar. Não que se detestassem ou entrassem em conflito, mas simplesmente porque um não tinha muito a ver com o outro. Diferentes gerações, diferentes backgrounds culturais, diferentes bússolas morais, diferentes expectativas a respeito de vida, amor, tudo. Eram duas pessoas que, apesar de conseguirem manter uma relação amigável não tinham aquilo que se diz chama entre eles. E estou a explicar isto para chegar ao meu ponto, por isso perdoem-me se me alongo um bocadinho. Tinham tanto a ver um com o outro como o cuco e as couves da canção.


mandou-se chamar a morte ... o cuco já quis comer as couves.


Conhecendo ambos, e as suas naturezas diversas, não posso deixar de pensar nas razões que os juntaram. Se fosse a alminha optimista que era há uns aninhos diria que o amor aparece onde menos se espera e às vezes cresce em vez de nos atingir como um raio. Mas tendo esta alma cínica e abrasiva que vocês conhecem e amam (ou pelo menos já estão habituados) não consigo deixar de pensar se não seria o hábito e a solidão, o medo de envelhecer sozinhos que os juntou.

Confrontarmos-nos com a nossa própria mortalidade, com todos os relógios biológicos que temos dentro a apitar de hora a hora como um relógio de cuco não é nada fácil. À medida que envelhecemos e repensamos as nossas escolhas, pensamos se não haveria coisas que deveríamos fazer de outra maneira, se não deveríamos repensar a forma como levamos a vida. Ou como se diz algures na bíblia (desculpem, não me lembro onde), os moinhos de deus moem devagar, mas moem finíssimo. E uma das coisas que é moída pelos ditos moinhos (que não são mais que o tempo) são os nossos ideais.

As ideias sobre o nosso homem ideal mudam e descem, aceitando como companheiros de vida homens que antes não aceitaríamos, cedendo em pontos que antes nunca cederíamos. Isto deixa-me um bocado aborrecida (e todos sabemos a falta desgraçada que me fazem coisas que me azedem o feitio): teremos nós que abraçar e tornar nosso lema esse hit imorredoiro dos Rolling Stones, You can't always get what you want, mesmo se no nosso caso é mais never que always? Parece que sim.


Era uma vez um cuco que já gostava de couves...

Quando acabámos a canção ( o que, sem dúvida, encheu de júbilo os vizinhos do lado e de cima e os seus animais de estimação), tentei pôr de lado a reflexão filosófica deprimente (e olhem que lembrar-me de todos os passos da lengalenga e reflectir sobre a minha vida amorosa e a de terceiros é um facto de multitasking). E a minha sobrinha tratou de me mostrar que de facto, é mais sábia que eu exclamando, entre as últimas colheradas de iogurte:

-Ó tia, que cuco tão tonto, as couves até são boas!

E sabem, se calhar a cachopa tem razão. Mas continuam a não ser gelado de chocolate.




segunda-feira, junho 22, 2009

Zebras

A malta que, como eu, está agora nos trinta é uma geração estranha: crescemos no pós 25 de Abril, na normalidade democrática mas não nos coibiu de ter uma educação, em muitas coisas, muito tradicional (e retrógrada). Culturalmente, estamos dependurados a meio dos 80 e dos 90, nem bem o cool dos new romantics, porque éramos muito novos, nem bem o angst grunge dos 90, porque estávamos a ficar demasiado crescidos. Somos aquilo que se chama zebras culturais, pareceríamos cavalos, se não fossem as riscas brancas, pareceríamos unicórnios, se não fossem as riscas pretas. Uns seres híbridos e desconfortáveis consigo mesmos.
Enquanto geração, não nos foi permitida a estabilidade social da geração anterior, a dos nossos pais, onde quase não havia mobilidade social e cada qual se mantinha, quase sem excepções na sua classe toda a vida, mas também não temos a flexibilidade social dos que nos seguirem, muito mais uniformes nos símbolos de status que nós.
Emocionalmente, também estamos a meio de uma coisa desconfortável, os últimos filhos de casamentos que duravam, e se não eram felizes, pelo menos eram duráveis e os que nos seguiram, para quem a finitude dos casamentos é um facto comum da vida, com menos dramas que o que seria de esperar.
Esta nossa natureza híbrida, nem bem no que Portugal foi, nem bem no que Portugal é, é, atrever-me-ia a dizer, uma das principais fontes das nossas angústias. Não somos os nossos pais, não poderíamos jamais ser como eles, mas também não conseguimos o blasé de quem está agora nos vintes, que é muito mais auto-indulgente consigo próprios. As nossas relações falham-nos nas mãos, os nossos empregos falham-nos na carteira e na estabilidade e estamos sempre no quase: quase felizes, quase satisfeitos, quase completos. Mas como diz o Sá Carneiro, não chegamos nem a asa, nem a brasa por causa desse quase.
Nas nossas experiências de vida, vemos que o que nos foi prometido na infância optimista do pós-25 de Abril onde os programas infantis tinham o toque do Sérgio Godinho (um luxo absoluto, os amigos do Gaspar e a árvore dos patafúrdios): nem a paz, nem o pão, nem a solidariedade, até nem mesmo a democracia. Também não somos tecnológicos o suficiente para encontrarmos na tecnologia, no mundo virtual, a nossa forma de oblivion pessoal. Que tempos estranhos são estes, em que muito pouco do que somos serve? Que tempos são estes onde estamos sempre um bocadinho ao largo do zeitgeist?
À nossa geração de zebras chamou Douglas Coupland X, a incógnita, e não se pode dizer que o epíteto não está bem atribuído: temos na nossa sina sermos uma espécie híbrida e misturada, entre a esperança e o desespero, entre o zen e o activismo, entre o whatever e o now. E às vezes pergunto-me se não seremos, tal como as zebras, uma espécie em vias de extinção, e no futuro as coisas serão mais definidas, ou a branco, ou a preto, conforme as perspectivas. O que será sempre mais fácil que este muro onde estamos, sem dúvida.

terça-feira, junho 16, 2009

A lei de Murphy aplicada aos homens



1 - Os homens simpáticos são feios.

2- Os homens bonitos não são simpáticos.

3 - Os homens bonitos e simpáticos são gays.

4 - Os homens bonitos e simpáticos e heterossexuais estão casados.

5 - Os homens que não são lá muito bonitos, mas são simpáticos, heterossexuais e que não estão casados, não tem dinheiro.

6 - Os homens que não são lá muito bonitos, mas são simpáticos, heterossexuais, não estão casados, mas têm dinheiro, pensam que andamos atrás deles pelo dinheiro.

7 - Os homens bonitos, simpáticos, heterossexuais mas sem dinheiro andam atrás do nosso dinheiro.

8 - Os homens bonitos que não são lá muito simpáticos mas são heterossexuais e não ligam ao dinheiro, acham que não somos suficientemente bonitas.

9 - Os homens bonitos, simpáticos, heterossexuais, não casados, com dinheiro e que acham que somos lindas, são cobardes.

10 - Os homens ligeiramente bonitos, algo simpáticos, não casados, com algum dinheiro e, graças a Deus heterossexuais, que nos acham lindas, são tímidos e Nunca Dão o Primeiro Passo.

11 - Os homens que nunca dão o primeiro passo, perdem logo o interesse quando as mulheres tomam a iniciativa.Por Deus, será que não há homens perfeitos?

"Os homens são como um vinho bom. Começam como as uvas e é dever das mulheres pisa-los e mantê-los no escuro durante longos anos até se tornarem em algo que vale a pena apresentar ao jantar."

A autoria não é, obviamente minha, mas como a subscrevo em cada letra, vírgula, ponto final e até mesmo aspas, aqui fica.

terça-feira, junho 09, 2009

Mood of the day


XY



Pode-se dizer que sou uma estudiosa dos portadores do cromossoma Y há bem uns 25 anos. Precoce, eu sei, mas desde o dia em que reparei que o Esteban das misteriosas cidades do ouro era interessante que o fascínio não diminuiu. Quando muito, aumentou com os anos, tomando, como as mudanças dos Camões, sempre novas qualidades.
Acho que faz parte das nossas características genéticas esta tendência para a reflexão sobre os Y. A vida inteira os observamos, não com a abordagem fria e científica dos cientistas, mas antes com o interesse e as segundas intenções de um observador envolvido e apaixonado. Estou convencida que esta nossa capacidade de observação é uma ferramenta evolutiva fulcral. Precisamos de ser capazes de analisar acções e expressões sem a componente verbal envolvida, porque desta ferramenta depende a nossa sobrevivência: não só é vital interpretarmos as necessidades dos nossos filhos pequenos, quando não podem falar, como precisamos de de escolher um companheiro fiável para a criação dos respectivos.
Já do outro lado, os portadores do cromossoma Y têm outras características, outras ferramentas igualmente vitais para a sobrevivência, como a de se centrarem num ponto e serem directos e objectivos, mas a nossa de observação, nunca lhes notei.
Bloguista que sou interessada no que o outro lado diz, já li alguns blogs cujo enfoque é o mesmo que o meu, escritos por homens sobre mulheres. Mas devo confessar dos que li, mesmo bem escritos e interessantes, um de dois defeitos tinham: ou eram demasiado centrados numa só mulher, e não no género em geral, ou eram demasiado primários, superficiais. Não sei se isso tem a ver com a deficiente oxigenação do cérebro, posto que quando eles olham para nós o sangue tende a afluir-lhes para outras partes, se com características fisiológicas e genéticas que os impedem de nos observar e analisar com a mesma eficácia que nós o fazemos.
Disse a minha amiga Su, que em conversa com o falecido de uma amiga em comum, pode constatar que de facto eles não têm ideias muito realistas de como somos. Parte deve-se, como expliquei acima, a características físicas e genéticas, que explicam alguma coisa, mas não tudo, ou não existiria livre arbítrio. Mas não poderemos descartar a pesada influência da cultura em si. A imagem será sempre parcial e imperfeita, pelo motivo de não estarem predispostos e treinados para a observação detalhada, mas o maniqueísmo das representações masculinas das mulheres é igualmente condicionado pela cultura.
A cultura ocidental, aquela de que sei mais, porque é aquela onde me inscrevo tem, desde os finais do século XIX uma visão dual das mulheres, que permanece tão vital como a da representação do amor romântico sua contemporânea: as mulheres ou são amantes ou donas-de-casa, ou são coutrisaines ou ménagères, como diziam os defensores do naturalismo (e partindo das mesmas teorias de predisposição genética como eu neste texto). Não há, na cultura masculina, grande espaço para as gradações de cinzento que nos formam. Não conheço nenhuma mulher que seja puramente uma destas coisas, e olhem que por causa da minha profissão conheço muitas de todas as idades.
Poderemos culpar os cromossomas, poderemos culpar o Y onde em nós há X da falta de entendimento entre sexos? Das ideias fixas masculinas para quem somos ou cabras ou amorosas, ou santas ou vadias, ou ninfomaníacas ou puritanas sem espaço a meio? Não me parece. Influencia, mas não determina. Mas a verdade é que pretendo continuar a estudar o género pelo menos mais 25 anos, por tanto até lá pode ser que mude de ideias. Eu prometo que, como até aqui, me irei aplicar. Estudar sempre foi a minha coisa preferida.

segunda-feira, junho 01, 2009




Veneno


Já reparei, muitas vezes, em conversas com amigas, conhecidas, colegas de trabalho, que as mulheres são péssimas umas para as outras. E nem sequer estou a falar de situações em que se justifique, de rivalidade ou injustiça, mas de conversas rotineiras, do dia-a-dia. A quantidade de veneno que, enquanto género, dispensamos é avassaladora.
As nossas relações com os nossos pares, ou melhor, as nossas pares, são substancialmente diferentes das que os homens desenvolvem entre si. Li em qualquer parte que os homens se encaram como concorrentes, competidores, e nós encaramo-nos como rivais. E a diferença é que para os primeiros há regras e desportivismo e para as segundas guerra sem tréguas. Uma das coisas que sempre me irritou nos homens foi o sentido quase corporativo que demonstram, a lealdade para com os seus colegas de género. Mas por mais irritante que essa atitude em particular seja para nós, há que reconhecer que é muito mais construtiva que o nosso sistema de ferroadas de veneno constantes.
Evolutivamente há alguma desculpa para este comportamento para esta atitude: a nossa espécie tem um período muito longo em que as crianças estão dependentes dos mais velhos e competir por um macho que fique por perto para os ajudar a criar é mais que simplesmente um jogo agradável. Mas é engraçado de ver que nesta época em que supostamente as mulheres são independentes e não ter o dito macho por perto não é grande drama, a mesma competitividade continua a existir.
Quer seja uma atitude inscrita no nosso código genético, quer seja um meme, inscrito no código genético da nossa cultura, da nossa espécie, chegámos a esta época esclarecida em que continuamos a ser, e não há muitas maneiras delicadas de o dizer, umas cabras umas para as outras. Durante o século XIX, sobretudo na segunda metade, com o advento dos estudos sociais, acreditava-se que cabia às mulheres serem as guardiãs dos valores morais. Não aos homens, que eram seres falíveis e facilmente conduzidos pelos seus instintos mais baixos, mas às mulheres, por natureza mais castas e mais elevadas (cof cof cof). Esta atitude, por mais parva que pareça dita em voz alta (e deixem que refira aqui que não considero nenhum género superior ao outro), permanece saudável e fresca na nossa mente.
Somos demasiado exigentes connosco e com as nossas companheiras de género. Achamos que temos o dever moral de ser perfeitas, de fazer tudo bem: profissionais competentes, mães extremosas, amantes sensuais, tudo tem de ser absolutamente perfeito. O cabelo tem de estar arranjado, as unhas arranjadas, as rugas e o peso sob controlo, as roupas impecáveis. Não nos damos chance de relaxar, nem a quem está à nossa volta. Recusamo-nos a aceitar que precisamos de ajuda, ou sequer até de solidariedade. A irmandade feminina é, no geral, apenas um mito. Quando uma volta costas logo as outras estão prontas com um ou outro comentário venenoso. E é vergonhoso admitir, mas neste aspecto em particular os homens são melhores, muito melhores que nós.

sábado, maio 23, 2009

Unicórnios (II)


Para continuar com as minhas reflexões dos unicórnios, retomo onde parei: em Pessoa. O poeta é um fingidor, obviamente que tem de ser, mas quem diz poeta diz escritores no geral, particularmente no que diz respeito à categoria do romance, não ficção, que não é sinónima, do romance. Em português isso chama-se verosimilhança, mas a verdade é que prefiro o equivalente inglês, porque mais claro: suspension of disbelief.
Para apreciar uma história, qualquer tipo de história, temos de suspender a nossa descrença, o nosso cinismo natural e entrar no espírito da coisa. Assim estamos num universo onde existe imprinting de almas gémeas, ou no Portugal do século XVIII, onde amantes perfeitos caçam vontades, na corte arturiana onde Lancelot e Artur disputam Guinevere (apesar de gostar mais do spin que Marion Zimmer Bradley deu a esse mito em particular). Mas a questão é: depois de ler o livro, quando devemos retomar essa suspension of disbelief? Quando ligar de novo o nosso cinismozinho duramente ganho? E ainda mais importante, conseguimos fazê-lo?
A minha amiga Su passa a vida a dizer que certos romances deviam vir com as mesmas etiquetas que as garrafas de veneno, porque funcionam como um elemento tóxico na cabeça, no coração de quem os lê. E eu concordo com ela. É verdade que as histórias de amor romântico estão na génese de praticamente todas as civilizações que dominam a escrita. Mas todos nós sabemos qual a percentagem de amores felizes, verdadeiramente felizes que conhecemos, a estatística não é nada animadora. Disse antes que estas histórias servem de consolo e conforto num mundo cheio de variáveis que não controlamos. Mas não será também, sobretudo, uma forma de engano, de mentira bem intencionada e gira, como o pai-natal, que mais cedo ou mais tarde vamos ter de dar por falsa?
As civilizações orientais, até a nossa até ao século XIX tinham uma abordagem muito mais realista: acabar as histórias de amor em tragédia. Tristão e Isolda têm um fim infeliz, Lancelot e Guinevere também, Abelardo e Heloísa, na vida real seguem-lhe as pisadas. Assim deixam logo os leitores avisados do que esperar. É prático. Até os contos de fadas tinham, apesar dos fins felizes, contornos mais negros que aqueles fixados pelos Grimm ou por Hans Christian Andersen em texto. Associam, muito mais intimamente que agora os romances as duas forças motrizes da humanidade: Eros e Thanatos, amor e morte. Só uma classe como a burguesia protegida dos inícios do século XIX, como era a de Austen, se lembraria de diluir o vermelho em cor-de-rosa de casamentos adequados e finais felizes. E de fazer vingar essa versão educadinha das relações humanas.
Considerações sociológicas à parte, esta visão das coisas serve os nossos fins ou nem por isso? Será tóxica, como diz a Su? Será que nos faz, como continua a minha mana a dizer num momento de particular inspiração, correr atrás de touros porque os confundimos com unicórnios? Depende da vossa visão da humanidade.
Há quem acredite, intrinsecamente, no valor intrínseco do amor romântico, descartando falhanços amorosos como enganos até ao amor verdadeiro (que para além de tamanhos, parece que também traz selo de produto de origem). Outros há que pois nem por isso, e que preferem ver os falhanços como a ordem das coisas e o amor verdadeiro como unicórnios: só pertencente em histórias de crianças.
Somos uma espécie imperfeita. Nunca satisfeita, mas também incrivelmente resistente. A esperança é um daqueles valores tão humanos que nos define completamente. Somos humanos porque temos esperança. Se vale a pena continuar à caça de unicórnios ( mesmo que, segundo a mitologia própria só sejam capturados por virgens, que vão escasseando) ainda não sei. Mas se descobrir a resposta logo lhes digo.

Quentes e frios

Hoje, caríssimas, em vez de perorar sobre os chatos que inundam as nossas vidas, deixo-lhes o video da Katy Perry para expôr a minha visão das coisas. A reparar, com especial atenção, a partir da marca dos 2:10.
Isto de escreverem posts por nós é giro.

terça-feira, maio 12, 2009

Unicórnios (I)


Agora está na moda o Twilight, mas houve outras antes; a Bridget Jones antes, as coisas do Paulo Coelho, as fotonovelas e os livros da Corin Tellado no tempo das nossas mães e outros romances mais atrás. Se o Harold Bloom não fosse a criatura pastilhenta que é, até poderia escrever sem qualquer problema qualquer coisa como "O Cânone do Romance", apesar da ideia de o ver debruçar-se sobre as obras da Nora Roberts ou da Amanda Quick ser risível.
O romance sempre esteve na moda, sempre estará. As obras actuais reescrevem e reinventam os clássicos do século XIX (e todos os paralelismos do Twilight com a Austen NÃO são pura coincidência), mas estes não são originais na técnica nem temática, bebendo influências das obras renascentistas, como Shakespeare, como o nosso Bernardim e estas, por sua vez as anteriores, os romances de cavalaria, até mesmo alguns aspectos de hagiografias medievais... E a linha estende-se até ao infinito, até aos primórdios da palavra escrita. Mesmo em culturas que não fazem parte do cânone estético ocidental também há esta permanência de narrativas românticas (no sentido original de romance, talvez, em vez da coisa cor-de-rosa para o que está díluido hoje o termo). Tudo o que precisamos, como dizem os imorredoiros Beatles, é amor.
Se estivermos virados para isso poderemos até traçar características comuns, tipo de personagens, tipo de episódios, mas a ideia é moça pura (merecedora), moço esforçado (merecedor), um grande amor (como se viesse este com etiquetas de S, M, L, XL ou XXL) e obstáculos, que podem ser ou não superados, que podem acabar com filhos ou com a morte, mas o amor não acaba. O amor aparece-nos assim, em todas as narrativas, não só como uma coisa rara, uma espécie de fenómeno feliz num mundo carregado de gente cínica, mas também como uma espécie de linha de horizonte, o ideal que vemos e, apesar de ser visível, nem sempre é atingível. É assim uma espécie de unicórnio, com a mesma mitologia que lhes é associada: força e pureza. E, desgraçadamente também se pode revelar um ser mitológico de que há relatos mas ninguém vivo tem provas concretas da sua existência.
Porque precisamos destes relatos de amor, deste unicórnio de mito, é uma coisa interessante: tem a ver com a propagação da espécie, pois do amor resultam, com sorte, criancinhas, mas vai para além disso. Acho, na minha humilde opinião que tem a ver com esperança, com conforto. Tal como o sangue do unicórnio dá, no Harry Potter, alento (apesar de ser uma meia-vida) àquele cujo o nome não será pronunciado, também as narrativas de amor servem de conforto às almas cínicas que, como eu, acham que a probabilidade das coisas acabarem em lágrimas e recriminações é mais alta que terminarem num happy end.
O romance é um produto de consumo quase exclusivamente feminino, mas também quem mais precisa de alento e consolo nestas coisas são as mulheres. Os homens sempre tiveram mais escolha, mais controlo sobre a sua vida emocional que as mulheres. Florentino Ariza passa cinquenta anos à espera da mulher que ama, mas teve muito mais liberdade sexual para procurar o seu contentamento de Fermina, para quem a monotonia, digo, monogamia era uma imposição sem apelo nem agravo. Para as mulheres o género romance é uma espécie de conforto, como gelados ou chocolate onde, num universo controlado, as coisas correm como seria de esperar. Pronto, se em vez de lerem Nora Roberts lerem Garcia Marquez as coisas nem sempre terminam bem, mas pelo menos sabemos com o que contamos, que é mais do que se pode dizer sobre a vida em geral, cheia de rasteiras e de facadas à traição.
Apesar de ser relegado para um canto pouco iluminado da história da literatura, poucos géneros literários subsistem tão bem como ele. Kafka é um excelente escritor, mas as massas pouco educadas (e apreciem a ironia) do mulherio que lê não encontra nele qualquer conforto. Ninguém encontra conforto nenhum numa história em que um indivíduo se transforma em barata ou que é preso sem se saber bem porquê.
Precisamos de romance. Todas as gerações têm referências diferentes, porque todas acham ser as primeiras a descobrir o amor, mas este está presente em todos os tempos, em todos os lugares. Podem ser mitos, mas como diz o nosso querido Fernando Pessoa:
"O mito é o nada que é tudo
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo –
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo
Este que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos braços.
Por não ter vindo foi vindo
E nos creou
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre
De nada, morre. "

segunda-feira, maio 04, 2009

Tess

Antes de eu nascer a minha mãe tinha decidido que eu ficaria com o nome da minha madrinha, Teresa. A minha madrinha, uma das irmãs da minha mãe, aprovava intensamente. Claro que todos os melhores planos estão fadados ao fracasso e Teresa é apenas uma agradável memória daquele que poderia ter sido o meu nome em lugar daquilo que ele é (e as minhas amigas, em comentários, estão TERMINANTEMENTE proibidas de o repetir). Se a minha madrinha ficou desapontada por não ver o seu nome perpetuado na geração seguinte nunca o demonstrou. Foi, pelo contrário uma presença constante ao longo da minha infância, e pode-se dizer que muito do que eu aprendi sobre a vida, os homens e o amor foi com ela e com as amigas dela. Sentada num canto (ao longo da minha infância ficar a um canto a ver e ouvir era um passatempo preferido, aliás, hoje também é) ouvia-as conversar sobre amores e desamores, propostas de casamento, diferentes pretendentes, amores ilícitos , mulheres abandonadas em escândalo and so on, and so on. Não que a vida no lugar onde cresci fosse assim tão excitante, a pulular de tensão sexual e amores secretos, mas as pessoas têm lá grandes imaginações e memórias ainda maiores. De qualquer forma, tinha a minha tia mais que assunto para falar, mesmo sem se prestar a sessões de má-língua , pois era bonita, namoradeira e alegre e as amigas eram muitas e complicadas. Nunca usaram de meias-palavras ou eufemismos piedosos nestas conversas, as coisas eram o que eram, mesmo com uma miúda a ouvir. Essa era a mentalidade do sítio onde cresci, sem papas na língua nem superprotecções às criancinhas. As coisas más que aconteciam serviam como advertência às gerações seguintes e pronto.
Quando li o Tess, e li-o bastante cedo, a sensação que tinha era que a conhecia, que já tinha ouvido esta história, ou muitas muito parecidas. No Portugal retrógrado e no seio da sociedade ultra-conservadora em que fui criada as histórias de mulheres seduzidas e abandonadas eram muitas, e terminavam sempre mal (como deviam, para que o mulherio não se pusesse com ideias de igualdade sexual e por aí adiante). Mas se conhecia a história, não conhecia o tom da mesma. Quase podia ouvir a minha tia e as amigas a comentar a história da rapariga seduzida pelo filho do patrão (facto, aliás, bastante corriqueiro) que engravidava. Mas o tom de compaixão era novo. A sensibilidade com que esta Tess é tratada é nova. E ler isto aos onze anos foi um passo claro no caminho de ser aquilo que sou hoje. Admirava Tess pela sua capacidade de amor, pela sua capacidade de sofrimento, despertando em mim uma empatia por seres em sofrimento que ainda hoje rege a minha forma de ser e estar.
Devo, aliás, dizer, que durante muito tempo me identifiquei com ela. Mas o conhecimento primário da vida que absorvi da minha tia Teresa e das suas histórias de Tess à portuguesa, a compaixão e identificação primária com aquele ser sofredor, constantemente mandado abaixo por golpes de vida madrasta sorvido do livro foram substituídos por emoções e reflexões mais complexas, menos a preto e branco. Aquilo que penso hoje sobre sofrimento, sobre vítimas indefesas é completamente diferente. Como diz São Paulo no célebre Capítulo 13 da Epístola aos Coríntios, quando éramos pequenos fazíamos coisas de meninos e pensávamos como meninos, mas não mais. Vi em Tess apenas a vítima indefesa, mas suponho que não tinha visto nela outra coisa, que vejo agora com outra maturidade: a capacidade de resistência a todos os golpes, a capacidade de sobrevivência. Não percebia, como percebo agora, que só somos vítimas por escolha. Sobreviver,superar é mais difícil que ser vítima, mas mais compensador. Ser vítima pesa a nós, pesa aos outros. Ser sobrevivente é aguentar-se nos seus próprios pés, de peito aberto para o que vier, mesmo que seja apenas mais um golpe, mais uma desilusão. E só isto, só esta lição, já vale a pena a leitura (e releitura) deste livro.

quinta-feira, abril 30, 2009

Susan Boyle e a descoberta da pólvora

Uma vez por outra, se tivermos sorte, aparece uma coisa qualquer, ou uma pessoa qualquer que nos abala o sistema e os esquemas mentais. Esta espécie de terremoto moral de 2009 resume-se na pessoa de Susan Boyle. E resume-se nela não tanto pelo talento mas mais pela pessoa.
Estamos acostumados a boas vozes, outra coisa não esperamos. Mas esperamos que essa voz seja também acompanhada pela boa figura. Vem-me a Susan Boyle com uma escolha trágica de vestido e o cabelo grisalho, as sobrancelhas como Deus lhas deu e solta-me aquela voz estupenda e pronto, lá está o nosso mundo abalado.
A sociedade em que vivemos é preguiçosa e auto-complacente, espera que os seus símbolos sejam claros e definidos. Voz de anjo= figura de anjo, beleza=bondade, gordura=estupidez, fealdade= maldade. O ar de sopeira de Susan Boyle pura e simplesmente não se enquadra neste esquema.
Eu acredito firmemente que não é suposto sermos perfeitos. Acredito que as nossas imperfeições, as nossas falhas são uma forma de nos manter humildes e fieis a nós próprios. Evitam a arrogância. E no entanto, a obsessão com a perfeição física é uma das, senão A grande força motivadora da sociedade. Até que, uma vez por outra, pessoas como a Susan Boyle nos fazem lembrar de uma verdade básica que nunca deviamos esquecer mas esquecemos sempre: as aparências são apenas isso, aparências. E descobrimos, mais uma vez, e infelizmente por pouco tempo, a pólvora: não devemos julgar as pessoas pelo seu aspecto. Mas como Yeats, no seu poema para Anne Gregory, tomamos frequentemente a atitude cínica, amando, julgando as pessoas por coisas inanimadas que não as definem:

"NEVER shall a young man,
Thrown into despair
By those great honey-coloured
Ramparts at your ear,
Love you for yourself alone
And not your yellow hair.'
'But I can get a hair-dye
And set such colour there,
Brown, or black, or carrot,
That young men in despair
May love me for myself alone
And not my yellow hair.'
'I heard an old religious man
But yesternight declare
That he had found a text to prove
That only God, my dear,
Could love you for yourself alone
And not your yellow hair.'
Como Yeats concluímos que só Deus, e mais ninguém consegue amar para além das aparências, do "Yellow Hair" do poema. O que é uma conclusão triste e exasperante. Por cada Susan Boyle descoberta haverá sempre centenas delas não descobertas. O mundo quer mais Rhiannas, mais Beyonces, mais Brittneys. E volta tudo ao que era. Lá se vai a descoberta da pólvora. Mais uma vez.

sábado, abril 25, 2009

Sempre





Herói é quem num muro branco inscreve
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
e morre devagar de morte certa.

Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome fechado o corpo ao breve
instante em que a denúncia fica alerta.

Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo nem mártir nem soldado
Mas apenas por último indefeso.

Homem é quem tombando apavorado
dá o sangue ao futuro e fica ileso
pois lutando apagado morre aceso.

Ary dos Santos

quinta-feira, abril 23, 2009

quarta-feira, abril 22, 2009

Stand by your man


Quando eu era adolescente e o meu conhecimento do inglês era pouco mais que rudimentar, esta música da Tammy Wynette, uma luminária do country, parecia-me muito bem. Pelo que eu percebia era acerca de ficarmos ao lado do nosso homem e apoiá-lo. Parecia-me, aliás, ainda hoje me parece, que ter lealdade com os homens que estão do nosso lado e nos amam é uma decisão eminentemente sábia. Só dali a uns anos, quando já tinha mais vocabulário é que percebi o alcance da coisa. A ideia era ser leal ao nosso homem, pois, mas o stand by your man era mais na onda do aguenta-te com o homem que te saiu na rifa, mesmo que te traia.
Ora vocês, se me têm lido com atenção sabem que desaprovo todo e qualquer comportamento que nos equipare a uma carpete, por iso este stand by your man causa-me engulhos e, como diz a minha avó, gómitos. E gómitos porque tolerar todas as traições de um homem só porque, coitado, é homem e o pénis que vem de origem o impede de forma clara de pensar como deve ser não é comportamento que se aceite. Digo eu, pelo menos.
Vá, eu sei perfeitamente que, como nunca fui casada não sei o que faz falta, os sacrifícios necessários para manter um casamento, mas deixem-me que lhes diga, mesmo assim acho que tenho uma boa ideia. Tolerar chifres gigantescos não é uma coisa que eu considere que deva estar no rol daquilo que constitui uma boa esposa.
Os homens não percebem porque é que nós ficamos tão aborrecidas com traições (sim, porque andarem a trocar flúidos corporais com pessoas alheias ao serviço é quase uma boa acção recomendada aos escuteiros, como ajudar velhinhas a atravessar a rua), não compreendem porque isso corresponde à quebra de votos e promessas que eu, pelo menos, levo muito a sério, e ao jogar da lealdade para o lixo. E a lealdade, aliada à honestidade, deve ser a base de uma relação, ou então não vale a pena.
Nunca gostei de relações desiqulibradas, em que um gosta mais que o outro, em que um pode mais que o outro, em que um manda mais que o outro. Ser leal implica lealdade do outro lado, ser fiel, fidelidade, ser honesto, honestidade. Uma relação em que um faz o que quer e se safa das consequências porque, coitado, já naceu assim e o outro, ou melhor, a outra cala, engole e perdoa é das coisas mais desiquilibrada, mais injustas que pode haver.
De modos que continuo a gostar da música, mas cheguei à conclusão bíblica de que da árvore do conhecimento só brota a desilusão. Enfim. Já se se conseguisse convencer a Tammy Wynette a canta a música sem uns quantos versos seleccionados era outra conversa. Ora leiam:

"sometimes its hard to be a woman
giving all your love to just one man
you'll have bad times
and he'll have good times
doing things you don't understand
but if you love him
please forgive him
even though hes hard to understand
and if you love him, oh be proud of him
'cause after all hes just a man

stand by your man
give him two arms to cling to
and something warm to come to
when the nights are cold and lonely
stand by your man
and show the world you'll love him
keep giving all the love you can
stand by your man

and if you love him
oh be proud of him
'cause after all hes just a man

stand by your man
give him two arms to cling to
and something warm to come to
when the nights are cold and lonely
stand by your man
and show the world you love him
and keep giving all the love you can
stand by your man "

terça-feira, abril 21, 2009

Eye Candy


Anderson Cooper
(liiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiindo, inteligente, culto, sensível... you gessed it, gay. Mas é giro, não é?)

sexta-feira, abril 17, 2009

Sensibilidade e bom senso


Aqui há muitos anos, um dos meus ex disse-me que era uma pena um cérebro tão bom como o meu estar na minha pessoa. Aparentemente o meu cérebro sofisticado e sensível (nas palavras dele), não combinava com o resto de mim. Qualquer coisa na linha do computador última geração no cockpit de um tractor ucraniano. A única razão porque o dito ex ainda vive e eu não vos estou a escrever estas linhas do meu laptop em casa e não de um dos nossos excelentes estabelecimentos prisionais a meio da minha pena por homicídio é o facto de, na altura, eu ser ainda muito novinha, tinha dezoito aninhos na altura, e, por conseguinte, era menos activista que sou agora. Mas esse foi apenas um dos muitos momentos ao longo da minha vida que cimentaram em mim uma convicção sólida como pedra: os homens não têm sensibilidade nenhuma a lidar com as mulheres, o mesmo se passando com o bom senso.
Como é que os homens chegam a adultos sem uma pinga de sensibilidade é fácil de perceber: na nossa sociedade ela é-lhe sugada impiedosamente desde que são pequenos. Podem vir com tretas new age e moderninhas, mas continua a ser verdade no universo masculino que um homem não chora (muito menos dá gritinhos, balhamedeus) , não tem conversas sobre sentimentos seja com quem for e nunca, mas nunca, por nunca dá parte de fraco frente a uma mulher. Isso vai contra o código masculino. Como é que chegam sem bom senso já é mais difícil. Afinal, eles é que é suposto serem os frios e os racionais, não sobrecarregados com hormonas e emoções como nós, mulheres (yeah, right).
A minha mãe chama-me Nossa Senhora dos Aflitos, porque desde que me lembre tenho um ouvido para as minhas amigas com problemas. É portanto fácil de perceber que, para além das minhas experiências, tenho como termos de comparação as de todas as minhas amigas (e são bastantes). A conclusão é sempre a mesma: sensibilidade e bom senso são bens escassos entre a espécie masculina.
Num caso concreto, por exemplo, o marido de uma amiga pediu-lhe o divórcio num sábado (aos gritos), na segunda estava no advogado a querer vender tudo e ficar com a guarda do filho de ambos. Que sensibilidade é essa, de desapossar completamente a mãe do filho sem qualquer contemplação, sem lhe dar sequer tempo para lidar com o golpe inesperado? Mas para além deste caso extremo, as provas da falta de sensibilidade masculina acumulam-se: é a agressão com o peso e a falta de juventude, a falta de solidariedade na gestão de tempo com filhos e tarefas domésticas, a maneira sumária com que nos descartam, a quererem-se ver livres de nós como se fossemos um carro usado.
Como disse no texto anterior, não sabem lidar connosco. Talvez por causa da maneira como o cérebro deles está artilhado, talvez pela cultura masculina que lhes exige serem frios e racionais, mas era de esperar que conseguissem lidar connosco melhor. Com mais não sei se compaixão, se sensibilidade se quê. Talvez devessem ver ou ler algumas das nossas referências culturais, como o livro da Jane Austen que dá título ao texto. Não sei, pode ser que os ajudasse, e a nós também, por arrastamento.

segunda-feira, abril 06, 2009

sábado, abril 04, 2009

O efeito Rebecca


Quando li o Rebecca pela primeira vez, pareceu-me um livro terrivelmente romântico. O herói nobre, a heroína sofredora e inocente, a ex malévola, todos os ingredientes ideais para um romance cor-de-rosa que alimentasse os sonhos de uma adolescente impressionável, que não sabia nada da vida. Em releituras posteriores fui mudando de ideias, agora já só o acho um romance terrivelmente terrível. A primeira leitura, feita por uma moralidade a preto-e-branco deu lugar a segundas e terceiras em que as personagens foram ganhando novas complexidades, mais profundidade, de modo que os arquétipos tão bem cortados das personagens deixaram de ter os contornos assim tão certos e imediatos. Porque havia o herói de ser automaticamente nobre, ou a heroína inocente, ou a ex malévola? Aliás, porque razão é eu todas as ex hão-de ser malévolas ? Que raio motiva as pessoas a tornar as ex as bruxas da maçã da Branca de Neve?
É notória a má fama que as ex têm na literatura, a começar logo pela maluquinha do sótão da Jane Eyre, mas a Rebecca serve como arquétipo porque aquilo que no passado era apenas oponente, uma espécie e barreira amorfa, ou uma criatura a lamentar, porque não do juízo todo, é aqui uma vilã completa sem qualquer tipo de qualidade redentora, manipulando o feliz casal até depois da morte. O que, considerando todas as coisas é bastante injusto, ou não?
Para Rebecca ser um livro escrito por uma mulher, poderia ter sido um pouco mais bondoso com as personagens femininas. A protagonista não tem nome até ganhar o do marido, não tem opiniões a não ser as dele, não existe sem ele. A governanta solteirona não poderia pingar mais estereótipos sobre solteironas se o quisesse, sendo amarga, ressentida, fanática. Só uma leitura mais perversa do inteligente Hitchcock lhe colocou um subtexto de homoerotismo e lhe deu um pouco de interesse. A irmã do protagonista é uma espécie de sopeira com título, mostrando aquilo que seria o arquétipo da mulher perfeita: calma, desarranjada, assexuada. Mas Rebecca, bem, Rebecca é a que é pior tratada, não havendo defeito a que não escape: pérfida, materialista, amoral, venal, emocionalmente impotente, cruel, de uma sexualidade refinada, aberta e, sobretudo, livre. É uma desgraça à espera de acontecer, caindo em cima do pobre Max deWinter como uma praga de gafanhotos, deixando só os ramos nus e frágeis da sua estrutura emocional. Ou pelo menos esta é a versão que nos contam, que nos querem fazer acreditar. A questão é o porquê, porquê este overkill? Haveria necessidade de um retrato a cores tão negras? Porquê?
Rebecca revela, e com muita clareza, as nossas neuroses face às ex, e por nossas não falo só das dos homens, das das mulheres também. Que os homens sejam neuróticos é natural, afinal não sabem lidar connosco. Reagem quase sempre como não devem, não conseguem acabar relações com a diplomacia ou a sensibilidade que deus deu a uma osga e sentem-se indignados quando despertam a nossa fúria. O que lhes dá a desculpa perfeita para pintar as ex como vilãs e sentirem-se melhores consigo mesmos. Vêm, é fácil de ver e perceber as suas motivações, é até lógico, previsível e mensurável. Já nós é uma questão completamente diferente. É que vocês vêm, não é só uma mulher de cada vez que os homens não entendem, eles entendem-nos ainda menos em grupo. Não percebem as complexidades das nossas interacções, das intrincadas teias de pesos e influências que estabelecemos.
A mulher média é insegura, certo? Certo. Então imaginem o cenário. O actual namorado deixou para trás uma ex que não compreendeu e com quem não soube lidar, sentindo-se injustiçado. É lógico que vai logo contar à actual que a anterior não prestava , porque, benza-os deus, precisam todos de colinho. Pode dizer pouco, pode dizer muito, mas o que quer que diga vai ser sempre pouco. É verdade que vai validar a existência da actual, que em comparação ao negro da ex ganha aos pontos, mais boazinha, mais compreensiva etc. etc. Mas, e isto é que o nosso homem não percebe, é que as mulheres, a esmagadora maioria das mulheres são inseguras, por isso a sensação de superioridade não vai durar muito. Se a actual é mais nova, inveja na outra a experiência, a sofisticação, se é mais velha, inveja na outra a juventude. A outra acaba por ter sempre o direito de precedência, e se por acaso tem filhos do actual, tem um lugar inalienável e há-de ser uma ameaça a minar a segurança da actual, mesmo que já tenham passado vinte anos. E esta complexidade há-de sempre escapar ao homem médio, que cairá na mesma armadilha uma e outra e outra vez e dar por si com uma colecção de ex que se odeiam mutuamente e o odeiam igualmente e só se uniriam em alguma circunstância na vida se essa incluísse comer-lhe o fígado. E aí seriam todas igualmente calmas, boazinhas e compreensivas.
A mim, para dizer verdade, todo este efeito Rebecca me cansa e entristece. Não cheguei a esta idade isenta de culpas (graças a deus) ou de defeitos (como se vê pela figura em anexo), mas ser pintada como uma psicótica desequilibrada por um ou outro ex com menos amor à pele sempre me pareceu eminentemente injusto. É que, compreendam, sou uma ex absolutamente exemplar: não melgo, não atrapalho, não escrevo, não telefono (e não posso ser responsabilizada se continuam vir aos meus blogs para se aborrecerem, era escusado, mas é problema deles, e facilmente resolvido). Sou uma senhora. O que significa que nunca estou lá para me defender, ou para desfazer minhocas na cabeça das pós-adolescentes complicadas por quem sou trocada rotineiramente. E apesar do meu coração se encher muitas vezes de compaixão por elas , qualquer aviso, qualquer comentário, por mais solidário seria sempre mal interpretado, dando apenas mais consistência aos rumores de que sou uma cabra psicótica e vingativa que existe exclusivamente para lhes fazer uma vida num inferno. O que me aborrece profundamente, pois não me limito a pregar a solidariedade feminina, pratico-a.
Serial mind-fuckers hão-de existir sempre. Como expliquei cima, às vezes não o fazem sequer de propósito, não conseguem evitar. Mas o efeito Rebecca não é inevitável. Antes de mais, há que pensar que ele origina de falta de autoconfiança e inseguranças. Uma mulher resolvida e segura de quem e como é não se deixa intimidar por ex nenhuma, por mais intimidante que esta possa ser. Depois, se acreditam piamente em todas as pequenas coisas que saem da adorável boquinha do vosso amado, estão a pedi-las. Acreditam piamente que a relação anterior foi um pesadelo do principio ao fim ? Só se esta só tiver durado meia-hora. Os homens são comodistas, se são estão mal mudam-se logo para onde estão melhor. Acreditam que a culpa foi só dela? Então as relações só se vivem a um? Só um é que controla, que determina como é vivida? Bullshit. Sejam espertinhas, sim? E deixem as Rebeccas descansadas nas vidas delas. Afinal, estão mortas, ou não? Vão por mim que eu é que sei. Been there, done that, got the t-shirt to prove it. Mesmo.