quarta-feira, dezembro 26, 2007

Natal

Actualmente, parece que está na moda não gostar nem celebrar o natal. Não há blogueiro com pretensão intelectual, celebridade de revista, entrevistado na rua que admita que o celebre, sem desgosto ou ironia. Eu, ao contrário da moda corrente, até gosto do natal. Não, a sério, sem ironias, gosto mesmo.
Sou uma rapariga conservadora. Ou melhor, conservadora de uma certa perspectiva. Tanto o feminismo como os ideais de esquerda que professo estão a modos que fora de moda. Mas sou ainda conservadora noutro aspecto: a família. Se acredito firmemente na liberdade pessoal, também acredito que ninguém se safa sozinho, precisamos sempre de outros. Podemos, se quisermos, isolar-nos emocionalmente dos outros, mas as coisas são infinitamente melhores se tivermos um círculo de pertença que nos acolha e nos ame, onde, independentemente das asneiras e erros que façamos na vida, pertencemos sempre.
A maneira como vejo o natal é sem esse véu de cinismo que agora parece estar na moda. É uma altura em que estou com aqueles que amo e que me amam, onde sou sempre benvinda e onde pertenço. Trazemos connosco, ao longo da vida, poucas coisas e poucas pessoas. Os contactos perdem-se os laços que julgávamos indestrutíveis diluem-se até ao nada. Só trazemos connosco aqueles que contam mesmo, só permanece o nosso círculo, presente no natal nos cheiros e sabores e sensações do natal. Não há dor de alma que não se cure na cozinha da minha mãe no dia 24 enquanto eu, ela e a minha irmã fazemos as coisas de natal. Está tudo onde deveria estar.
Eventualmente tudo passa, tudo acaba, a vida empurra-nos para a frente e nem esse círculo de família e amigos muito próximos dura para sempre. Os amigos formam os seus próprios círculos de família, a nossa família espalha-se pelo mundo, ou simplesmente parte para sempre onde não os podemos seguir. Eu tenho a sorte de poder estar ainda com eles, de poder aproveitar a companhia de quem gosta de mim. Não sujaria essa possibilidade com o cinismo de não gostar do natal, de o ver com ironia ou rabujice. E por isso gosto mesmo do natal. Sem ironias. E sugiro que aproveitem a quadra com este espírito também. Enquanto podem.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

sábado, dezembro 08, 2007

Aquilo que somos quando crescemos

Quando era pequena, desejava secretamente ser a Joan Collins da Dinastia. E digo secretamente porque ninguém admitiria, no seu são juízo querer ser a má da fita. Querer ser a Maddie, do Modelo e Detective, ou a Makepeace, do Dempsey e Makepeace era uma coisa aceitável. Apesar de não serem as heroínas frágeis do Norte e Sul, de serem umas duronas de todo o tamanho eram, manifestamente, boazinhas. A chatice é que as vilãs, sobretudo na Dinastia, tinham muito mais estilo, aproveitavam muito mais a vida que as boazinhas, que pela sua bondade parvita estavam sempre a cair nas maquinações das vilãs. Sim, é verdade, que com o tempo, o bem vencia o mal e as vilãs eram castigadas nos últimos episódios. Mas entretanto tinham tido uma novela, ou época de série para se divertir à grande. De qualquer maneira não era só o lado das raparigas más poderem ir para todo lado e as boas só para o céu que me atraía nas vilãs. Era também o estilo. É um facto, as vilãs vestiam-se melhor que as boazinhas, senão comparem e contrastem a figura acima. Qual das duas parece a sopeira e qual das duas parece a diva, hein? E qual das duas é a boazinha e a má? Vêm como corresponde? Se quisermos ser hermenêuticas, e a mim hoje está a apetecer-me, podemos detectar facilmente o código por detrás das imagens sendo o bom toda a imagem da leveza das cores claras e aspecto simples e o mau detectado na sofisticação das cores escuras. O que é um código tão subtil como uma marretada na cabeça, mas prontos. Mas por detrás disso está um código menos subtil, mas não menos eficaz, em voga desde o romantismo, que é a imagem de uma certa sensualidade presente na simbologia das cores. As loiras são a imagem da inocência sexual e as morenas a personificação da sensualidade voraz e perigosa para os homens. É a virgindade vs a experiência, e todas nós sabemos o mal que os homens engolem experiência numa mulher, certo? Pois. Mas avancemos, que não era exactamente sobre isto que queria falar.Numa de melancolia e de reflexão sobre o tempo que passa com o aniversário e assim, dei por mim a pensar nisso mesmo, no que queria ser quando fosse grande e lembrei-me deste pequeno detalhe: queria, secretamente ser a vilã sexy em vez da boazinha vítima. E posso dizer-lhes que, durante muito tempo, falhei miseravelmente. Foram demasiados anos de reflexo condicionado a ser boazinha e maternal e queriducha para conseguir desconstruir essa imagem de feminilidade aprendida no berço. Levou tempo e trabalho, e uma dose considerável de chapadas d vida para o conseguir fazer. É que sabem, eu, como muitíssimas das minhas amigas, colegas, conhecidas, fomos educadas para sermos, se não fadas do lar, mulherzinhas sérias e conscienciosas e inefavelmente BOAZINHAS. Realizar-nos profissionalmente, construir-nos a nós próprias à margem de namorados, maridos e filhos, família foi uma coisa perfeitamente marginal à nossa educação, tivemos de aprender sozinhas. E eu acredito firmemente que somos muito da educação que levamos, ou não teria enveredado pela espectacularmente ingrata e mal paga profissão que tenho.Claro que outra parte de nós, talvez a mais básica e imutável é a que trazemos connosco desde que nascemos e que não há ninguém que emende ou altere. As minhas amigas com filhos lhes dirão isso mesmo. A Emma, de três meses e picos é um bebé reflexivo e sociável tanto quanto a minha sobrinha era activa e decidida, tanto quanto o Gui era tranquilo e bonacheirão, um gajo porreiro desde o berço. A minha sobrinha aos três anos é tão fashion victim que acha que roupa é melhor que brinquedos. A Rita, filha da minha colega E. é tão dread e radical que a mãe tem quase desgosto. E isto vem delas, não tem a ver com o que foram educadas e muito menos com antecedentes familiares, believe me. Assim, a questão complexifica-se, acerca do que somos quando crescemos. Estará no nosso código genético sermos boazinhas e parvas de nascença? Estaremos geneticamente predispostas a sermos mulheres sem espinha dorsal nas mãos do primeiro sacaninha bem-parecido que nos apareça pela frente? A resposta é um NIM bem ressonante.Aquilo que éramos, que somos, que queremos ser depende da cultura em que estamos, evidentemente. Depende, em igual medida da nossa educação. Depende, sem dúvida da nossa carga genética e da personalidade e aspecto físico que nos saiu na rifa do espermatozóide vencedor da corrida. Mas depende também, e sobretudo de um quarto elemento poderoso, que consegue suplantar todos estes factores: a nossa vontade. Somos o que queremos ser, tal como estamos onde queremos fazer. E se tivermos vontade podemos ultrapassar todos os obstáculos que a vida nos põe à frente. Podemos ser aquilo que quisermos ser. De modos que, apesar de não ser a vilã sexy da Dinastia, estou razoavelmente satisfeita com quem sou, ou como sou. Venci os handicaps que me foi possível e, no geral, arrependo-me de muito pouco, quase nada. Isso é bom, não é? Aquilo que somos quando crescemos somos nós que traçamos, que decidimos, que podemos alterar. Isso é que é ser adulta.

quinta-feira, novembro 29, 2007

O baixar dos padrões e a cultura tóxica

Quando o Cupido, esse sacaninha ordinário, não anda a fazer das dele e a fazer-nos apaixonar por criaturas totalmente inadequadas, temos mais ou menos uma ideia clara do tipo de homem que queremos num homem. Mais ou menos detalhada, dependendo dos casos, todas as mulheres têm ideia daquele que será o homem ideal. O senhor certo, o Mr Perfect, o Darcy para a nossa Elizabeth, o Romeu para a nossa Julieta, o Heathcliff para a nossa Cathy.
Algumas de nós têm ideias bastante detalhadas de tipos físicos e interesses específicos, outras apenas traços gerais que se prendem com princípios morais e ideológicos, mas todas temos um limite de exigências e expectativas, a linha que traçamos entre o Sr Certo, os Srs Serve por agora e os Srs. É que nem te passa pela cabeça. Coisa que, aliás, os homens também fazem. Claro que os padrões deles, apesar de altos, são relativamente compreensíveis e mais ou menos standard, prendendo-se, no geral, com noções de beleza física e docilidade mental (apesar de, como já repeti aqui até à exaustão, se a beleza for suficiente, a docilidade, inteligência ou meiguice são negociáveis). Os nossos padrões de exigência costumam ser mais complexos e muitíssimo mais pessoais. Enquanto a maioria dos homens teriam dificuldade em rejeitar uma modelo pós-adolescente como possível mulher ideal, o equivalente masculino teria sérias dificuldades em ser visto como mais que um belo bife de carne estúpida. Até o deus dourado surfista teria, para além do seu bom ar, responder afirmativamente a uma série de questões mentais como por exemplo, se gosta de crianças, se tem uma natureza séria e fiel ou se está pronto para um compromisso sério até ser visto como potencial Sr. Certo.
O motivo para os nossos padrões elevados na escolha de companheiro é tanto biológica como cultural. Biológica porque cabe ao nosso sexo encontrar um parceiro que nos dê garantias de permanência no lar. Porque quem pagou a factura da nossa inteligência enquanto espécie foram as mulheres. Senão pensem: no reino animal não há grandes diferenças entre os sexos e as fêmeas têm praticamente o mesmo comportamento que os machos. As crias nascem já com os seus comportamentos codificados geneticamente e o tempo que estão dependentes das mães é mínimo. Mesmo no caso dos mamíferos, em raros casos demoram as crias mais que um ou dois anos a ser auto-suficientes o suficiente para já não precisarem dos progenitores. Já nós, não só produzimos bebés extremamente frágeis, como trazem muito poucos comportamentos, praticamente nenhuns, codificados geneticamente. Temos uns quê, dezoito anos bem contados, às vezes mais até termos adultos independentes e auto-suficientes. E se bem que muito do trabalho cabe à mãe, convém ter por perto um homem que nos ajuda na tarefa dantesca de educar uma ou várias crianças. Se os homens, biologicamente, funcionam a curto prazo, procurando fêmeas fortes e férteis para propagar a espécie, as mulheres funcionam a longo prazo: o companheiro é para durar. Depois é também cultural, no sentido em que somos educadas a esperar (exigir) uma série de características nos homens.
A nossa cultura bombardeia as mulheres com aquilo que é desejável num homem, e estas características estão presentes em todo o lado: na literatura, no cinema, na cultura oral, na música... O homem ideal, como qualquer livro da Nora Roberts lhes dirá, ou qualquer canção do Bryan Adams vos suspirará é uma espécie de quadratura do círculo - masculino sem ser machista, protector sem ser paternalista e dominador, sensível sem ser mole e mariquinhas, apaixonado sem ser obsceno e viril sem sentir a necessidade de ser infiel. É como a papa do bebé urso que a Cachinhos de ouro encontra na casa da floresta: nem muito quente, nem muito fria, simplesmente no ponto certo.
Claro que nós, mulheres, temo uma ideia muito clara que a papa perfeita do bebé urso é ficcional. Aliás, nutrimos uma séria desconfiança para com aquilo que parece bom demais para ser verdade. Não sendo nós perfeitas esperamos, às vezes até agradecemos, uns quantos defeitos para quebrar a monotonia da perfeição. A questão é, até que ponto estamos dispostas a baixar os padrões de exigência daquilo que esperamos num homem para encontrarmos um homem?
O equilíbrio entre o que esperamos e o que, realisticamente, podemos encontrar é delicado e, nem sempre fácil. E a cultura ocidental nisso é completamente tóxica. Bombardeia-nos com homens tão perfeitos e quimicamente puros que, para existirem na vida real só se de encomenda. Por outro lado, os homens reais são tão exasperantes que não perdiam nada em tomar umas notas do que fazem os homens nas comédias românticas que nós devoramos, ou no que dizem as canções do supracitado Bryan Adams para melhorar um bocado.
Depois, para agravar a questão, há ainda o prazo limitado que temos para encontrar o dito Sr. Certo. Aí a biologia é, como sempre, madrasta para nós. O tempo fértil para nós é limitado e é um facto sabido que, quanto mais o alarme do nosso relógio biológico dispara, fazendo-nos saber que começa a ser tarde para ter filhos, mais nós baixamos os nossos padrões de exigência para com os homens. Aquele que seria um Sr. Serve por agora passa a ser um Sr. Dá para o gasto, e até muitos Srs. É que nem te passa pela cabeça passam a potenciais Srs. É capaz que sirva ou até mesmo Srs. Para quem é, bacalhau basta.
Quando chegamos aos trinta, a pressão é quase insuportável: a sociedade quer que, tal como toda a gente funcionemos aos casalinhos de arca de Noé, amigos e parentes começam a apresentar-nos Srs. Vamos lá ver se deixas de ser esquisita e o nosso próprio organismo apita a sirene do vê lá se te despachas que eu estou para aqui a matar óvulos. Muitas de nós deixam cair os padrões com a mesma velocidade com que os bombardeiros deixam cair bombas: à velocidade de cruzeiro.
Num dos meus filmes preferidos, Singles, a personagem da Bridget Fonda diz uma coisa interessante: tinha deixado cair tanto os padrões de exigência que já só queria um homem que lhe dissesse santinha quando espirrasse. E quando fez o teste ao homem da vida dela, reparem nos resultados espectaculares:
"Janet Livermore: [fakes a sneeze to get Cliff to say,"Bless you."]
Cliff Poncier: [Watching nature show on bees, has no response]
Janet Livermore: [fakes a louder sneeze]
Cliff Poncier: [indifferently hands her a box of tissues] Hey, Babe? Don't get me sick. I'm playin' this weekend. "
Será este o resultado de baixar as expectativas? Teremos de levar com coisas neste género o resto da vida só porque temos trinta? Não, mil vezes não. Se bem que o Mr Darcy é de ficção e pertence à Elizabeth Bennet, isso não significa que aceitemos o primeiro que apareça que
a) respire
b) seja do sexo masculino
c) demonstre um interesse marginal em nós.Sejamos como sejamos, tenhamos a idade que tenhamos, correspondamos ou não ao padrão ideal de beleza/peso/altura/idade/graciosidade feminina, merecemos mais que isto. Todas.

sexta-feira, novembro 23, 2007

Sansão e o pente dois

Se me dedicasse a comentar todas as histórias bíblicas que nos deixam mal vistas enquanto género na bíblia, provavelmente teria assunto para manter este blog por cerca de um ano e meio, mas não gosto de me repetir. Assim, vou só falar deste episódiozinho e já se volta ao programa de festas habitual. Hoje vamos falar de Sansão, Dalila e a obsessão dos homens com o seu cabelo.
A história da bíblia envolve um makeover que correu mal e tem sido interpretada como um aviso aos homens contra as mulheres em geral, que são umas falsas traidoras, seguindo a mesma linha ideológica estabelecida logo nas primeiras páginas com Eva. Nós, como mulheres cheias de recursos que somos, temos de pegar nos limões da vida e sacar do espremedor e do açúcar para a limonada e pensar que, basicamente, Sansão teve o que merecia: se se vão deixar levar pelas hormonas em vez de pela cabeça é bem feito que as coisas lhe corram mal.
De resto, a simbologia é interessante: porque é que o cabelo é o símbolo da masculinidade, da força, do poderio? Porque, simplesmente, é um símbolo de beleza, de uma certa beleza, e da juventude. Tal como Sansão, enquanto os homens têm cabelo sentem-se jovens, másculos e viris, capaz de tombar qualquer mocinha insuspeita no primeiro monte de feno disponível para uma reboladela vigorosa. Com todo o seu desprezo pela beleza e assim, que um homem vaidoso é sinal seguro de maricagem, eles conseguem ser tão vaidosos, ter o mesmo terror de envelhecer que nós. Senão pior.
Quando os homens chegam aos trinta e muitos, quarenta, na idade em que muitas mulheres começam a ficar bem com a sua pele ou, pelo contrário a encharcarem os neurónios em botox, os homens atravessam crises graves de meia-idade, tendo casos com mulheres mais jovens, disfarçando a falta de cabelo da mesma maneira que disfarçam que estão a envelhecer.
Por muito que me custe admitir, há alguns ténues resíduos de explicação psicológica para o comportamento obsessivamente galinheiro e cruel dos homens. Insegurança, medo de não serem homens o suficiente, terror de envelhecer e de morrer. Mas explicação não é, de forma nenhuma, desculpa. Porque não há desculpa para um homem nos seus quarenta ou cinquenta deixar a esposa de vinte anos para andar com meninas de metade da sua idade só para mostrar ao mundo que pode ainda, como Sansão, erguer colunas e derrubar templos.
Feitas todas as contas, os homens têm de fazer como nós, quando somos sensatas, com o passar do tempo: aceitar a passagem do tempo e a mudança dos nossos corpos em vez de arranjar maneiras ridículas de se manter jovens: nip-tucks para nós, perucas e namoradas troféu para eles. Da mesma maneira que Sansão recuperou a força, mas ficou muito mais sábio, também nós temos de aprender as nossas lições com a vida. Também eles. E poramordedeus,homens, se estão a perder cabelo tenham juízo, cortem a pente dois logo, não se ponham com filmes.

terça-feira, novembro 13, 2007

Deusas, musas e heroinas avulsas



Ofélia e o leite derramado
Podem-me vir com as teorias psicológicas que quiserem, podem até estar certos, mas raios me partam se o Hamlet não era um sacaninha indeciso passivo-agressivo. Não quero saber se a mamã não lhe deu colo o suficiente em pequenino, mas a verdade é que a forma como tratou Ofélia, como reagiu a Ofélia é exactamente a maneira como muito passivo-agressivo desta vida. E,mais uma vez, ela é que sofreu.
Basicamente, Hamlet era o vosso príncipe renascentista médio, espadachim, culto, inteligente que vê o papá morto a exigir vingança, porque a mãe tinha casado com o tio, com quem, pelos vistos, mantinha um affair há um certo tempo e com quem conspirou a morte do venerando esposo. E, logo aqui, começa o passivo-agressivo do rapaz. Foi ao tio perguntar coisas, ou à mãe? Não. Como gajo que é gajo sacou dos punhos/espada whatever para lutar? Não. Pôs-se a fazer de doido e a recitar monólogos sobre suicídio e fugacidade da vida e a encenar teatro amador. Uma vingança e peras, certo? Ya. Mas, por entre isto tudo, conseguiu ainda dar com a namorada Ofélia em doida, ora no chega pr'a cá, ora no deslarga-me e vai para um convento que as mulheres são todas umas falsas e não digas que me amas que és uma mentirosa. É ou não é de passivo-agressivo? E o mais giro é que quando ela morre acidentalmente (?) afogada, vai ao cemitério chorar baba e ranho que aquela sim, era a mulher da vida dele. Ya. O que vale é que meia dúzia de cenas se mata e nos acaba de vez com a dúvida de ser ou não ser. Mas, de qualquer maneira, é Ofélia o tema da análise, vamos a ela.
Ao longo dos séculos, Ofélia tem-nos sido apontada como o epítome da heroína trágica que leva o amor até ao extremo. Entra assim no clube da Julieta, da Lady de Shalott e da Madame Butterfly, que é o Clube das Mulheres que Fazem Coisas Parvas Por Causa de Gajos (CMFCPPCG). Porque parece que as heroínas, para serem heroínas têm de fazer estas coisas tão prejudiciais à saúde. É como se sobreviver ao amor nos tornasse menos femininas, ou menos trágicas. Como se doesse menos. As mulheres que se vingam só aparecem nas tragédias clássicas, uma Medeia, por exemplo, que, de qualquer maneira, acaba morta no fim só por causa das cócegas. A partir daí pimba, é tudo morto.
Ofélia é o exemplo último da arrogância masculina no que diz respeito ao amor: não te quero para nada, mas se não tens a decência de, pelo menos, dares em doida, nem és mulher, nem és nada (e lembrei-me agora da Joaninha das Viagens na minha terra, nem me façam COMEÇAR esse assunto) . De passivo-agressivo, digo-vos. E aí, quando a desgraçadita fez um disparate e está perdida para sempre, pimba, aí é que já serve. Pudera, já está fora do alcance, não tem de a aturar. É o choro hipócrita de quem derramou o leite de propósito, e depois aiaminhabida.
A verdade é que se sobrevive ao amor. Mas não há nenhuma heroína louvada e celebrada por isso, as sobreviventes, as que colaram os cacos e seguiram em frente são culpadas de, no mínimo, uma falta de romantismo atroz. O espírito prático não vende bilhetes de teatro nem frisos de ópera. Ou sim, esperem, há a Scarlett O'Hara e o seu amanhã é outro dia, na antítese da Ofélia. Vá lá, nem tudo está perdido nos mitos culturais ocidentais. No que me diz respeito, acho que já chega de Ofélias.

sábado, novembro 10, 2007

quarta-feira, novembro 07, 2007

Sou uma cabra feminista, e agora?


No universo feminino, um dos sub-grupos mais famosos - e infames- é o sub-grupo cabras. Detestadas uniformemente por mulheres e homens, pois ambos os sexos lhes sofrem os desmandos, as cabras distinguem-se pela sua natureza abrasiva e caprichosa. Uma cabra é uma daquelas mulheres centradas nos seus próprios objectivos, pisando quantos desgraçados ou desgraçadas tiverem o azar de se encontrarem no seu caminho. As cabras tratam os homens como coisas acéfalas a manipular a seu bel-prazer, todas as mulheres como potenciais rivais a abater o mais depressa e eficazmente possível. Porque muitas das cabras são também giras, são frequentemente cruéis com aquelas de nós menos dotadas e demolidoras com homens tímidos, feiotes ou a atirar para o cromo. São, também, interesseiras e mercenárias porque sabem que merecem o melhor, e certificam-se por todos os meios, éticos ou não, que é o melhor que conseguem.
Depois, temos as feministas. Inevitavelmente cínicas em relação à condição humana, são muitas vezes ásperas e irónicas até ao cortante. Têm os seus momentos de crueldade para com os homens medindo-os todos pela mesma medida, também inevitavelmente baixa. Tanto quanto conseguem ver, os homens são criaturas fúteis, cruéis e inconsequentes que preferem mulheres parvas e submissas a mulheres complexas e com opiniões. E a opinião destas das suas colegas de género não é melhor: criaturas fúteis e superficiais que se deixam espartilhar pelas ideias de eterna elegância, fragilidade e juventude que a sociedade espera das mulheres, que se perdem em lutas indignas pelos homens e não conseguem dar um passo sozinhas sem um homem para as orientar.
Depois, em condições especiais, encontramos um género híbrido,uma espécie de tempestade perfeita,com características destes dois supostamente antagónicos sub-grupos: a cabra feminista. As cabras feministas reúnem o melhor (e pontualmente, o pior) dos dois sub-grupos. Eu explico. Considerem, por exemplo, a opinião destas em relação aos homens: enquanto as cabras tratam mal os homens porque podem e eles deixam, e as feministas os tratam mal por uma questão de principio ideológico, as cabras feministas analisam caso a caso o género masculino, sendo abrasivas e cortantes com aqueles que claramente o mereçam (que acaba por ser a maioria,mas isso são contas de outro rosário). As cabras raramente têm amigas, e se têm são génios do mal como elas, ou mulheres com fraca auto-estima que lhes servem de capacho ou elemento de realce, como a salsa no bacalhau à brás. As feministas têm igualmente problemas em relacionar-se, a não ser que se trate das suas correligionárias. Já as cabras feministas, mais polivalentes, conseguem relacionar-se com os dois sub-grupos e ainda outros, porque não têm agenda, pessoal ou ideológica a seguir, disfrutando simplesmente do facto de serem mulheres e terem amigas para todas as ocasiões, desde a má lingua contra os homens às compras fúteis, consumistas e femininas. É certo que, na opinião dos homens, estamos todas no mesmo saco (como fazemos com eles), mas pelo menos para nós estas distinções até fazem diferença. Eu, por exemplo, aborreço-me de ser considerada uma cabra per se, ou mesmo uma feminista pura, mas não me incomodo nada de ser uma cabra feminista.
Há diferenças significativas entre estes três grupos, mas, se estiverem com dúvidas podem fazer um pequeno teste rápido. Limitem-se apenas a responder verdadeiro ou falso às seguintes afirmações:
1- Os homens têm a sua personalidade, ego e auto-estima suspensas na parte inferior do seu torso.
2- As mulheres devem ser, dentro do possível, solidárias.
3- A sociedade exagera nos padrões de beleza, que são irrealistas, mas sabe bem sentir-se bonita.
4- Sei o que quero da vida e não preciso de orientação masculina, ou feminina, já que falamos nisso.
5- Valho pelos meus defeitos e virtudes, não pelo meu tamanho de copa , número de roupa, status social ou tom de pele.
6- Não sou, nem superior, nem inferior aos homens, sou igual em direitos, deveres e dignidade.
Se responderam vedadeiro a quatro ou mais destas afirmações, há grande possibilidade de serem cabras feministas, ou pelo menos ir aos treinos para.
Claro que isto de ser cabra feminista em que se lhe diga, logo o título deste post: e agora?
A primeira ideia a reterem é simples: há coisas piores que ser cabra feminista. Antes uma cabra feminista cínica e abrasiva que uma vítima eterna das safadezas masculinas, que um capacho de porta submisso ou uma doidivanas fútil e galinácea.
Depois, resignem-se. Podem ter nascido já cabras feministas, podem sê-lo por opção pessoal, por educação e meio em que estão, por circunstâncias da vida, mas uma vez que caem as vendas e vêm a vida desta perspectiva, só muito dificilmente mudarão de ponto de vista. Uma vez cabra feminista, cabra feminista para sempre.
Por útimo, divirtam-se. Aproveitem o facto de serem mulheres esclarecidas e racionais o suficiente para serem feministas, femininas e vaidosas o suficiente para serem cabras. E não levem a sério termos e categorias: a vida é demasiado curta para debater a sério, sem ser para se divertir, nomenclaturas e categorias do género humano.

domingo, outubro 28, 2007

A terapia de retalho


Todos nós sabemos que homens e mulheres têm uma cultura diferente, essa é uma verdade evidente até a um golfinho com inteligência abaixo da média. Não é nada de estranhar, então, que os nossos rituais de bonding- que é criação de laços em estrangeiro- sejam diferentes em forma, conteúdo e objectivos. Este é o tema da prédica de hoje, caros fiéis: a terapia de retalho como forma de bonding para mulheres modernas na sala e na cozinha.
Os homens, com os amigos, desenvolvem os seus rituais de criação de laços de forma física, em actividades que, preferencialmente envolvam actividade física de alguma forma. Se a actividade física envolver nódoas negras e emporcalhamento, melhor. Por exemplo, jogos de futebol onde deixam os equipamentos cheios de nódoas verdes e as canelas de nódoas negras, farras onde bebem até altas horas e voltam a casa com nódoas de aspecto suspeito e que é melhor nem perguntar de onde vêm ou reparação de equipamento mecânico/electrónico/informático (que não costuma adiantar grande coisa, mas ao menos os mantém ocupados). Nós já resolvemos as coisas de forma diferente. Os nossos rituais de ligação são muitíssimo mais civilizados, envolvendo frequentemente cartões de crédito. Querem coisa mais solidária, mais potencialmente criadora de laços que correr uma das cidades mais populosas do mundo e todas as suas oitocentas e cinquenta e três sapatarias à procura do par de sapatos perfeito? Não, claro que não.
Isto da terapia de retalho é uma coisa nova. Como filhas que somos da revolução, temos mães que não são nada consumistas. As nossas mães não se ligavam nas compras, porque, a bem dizer, não eram nem ricas, nem independentes, como donas-de casa que eram. Ligavam-se umas às outras na cozinha sobre panelas de doce de tomate, ou na sala com pontos de renda e padrões de camisolas. Aliás, ainda hoje o fazem. E apesar de se terem rendido aos hábitos consumistas, não são grandes companhias de compras. A minha mãe, por exemplo, demonstra algum entusiasmo nas compras de hipermercado para a casa, mas menos para, digamos, sapatos, roupas e acessórios. E para maquilhagem está-se simplesmente borrifando. Criamos laços na cozinha- o meu gosto e jeito para a cozinha foi transmitido por ela, melhor cozinheira que eu serei jamais- mas nas compras ou é em meia hora ou já está a apanhar seca. Não, para compras têm de ser amigas, e das boas.
Se um grupo de mulheres não consegue criar empatia numa sessão de compras, nunca o fará. Porque as compras são uma forma de exibir fragilidades e inseguranças. Nada mostra melhor a personalidade de uma mulher, as suas fraquezas e as suas forças que ir às compras. No pequeno espaço do provador estamos nuas em mais que um sentido. Tudo o que somos se torna por demais evidente-e discutido. E é uma prova de indiscutível confiança permitirmos alguém assistir a esse momento de fraqueza. A roupa não assenta. Não há o nosso número. Mostra a celulite/as ancas/a barriga, mostra os nossos defeitos... E uma boa amiga está ali para ser crítica e implacável. Nenhuma amiga digna desse nome deixa a amiga investir numa peça horrenda ou que não caia bem. É o dever dela apontar, e sem contemplações o que está bem na peça e o que está mal. E àquela que experimentou a peça horrenda ter desportivismo para aceitar e respeitar opiniões diversas. Mesmo quando caluniam de "objecto horrível digno da câmara de horrores da Madame Tussaud " a mala preta linda porque acabámos de nos apaixonar.
As compras são, para além de um exercício terapêutico anti depressivo ( nada anima mais que uns sapatinhos lindos ou um casaco tãaaaaaaaaaaaaaaao lindo que cai tão bem), uma prova de resistência. Na melhor das hipóteses, quanto dura um jogo de futebol de bonding masculino? Uma hora, 90 minutos? Nós, em 90 minutos, ainda mal estamos a aquecer. O que é que se vê numa mera horita e meia? Pff. Uma boa sessão de compras dura, no mínimo, meio-dia, um dia inteiro sob condições perfeitas. E a andar sempre de pé, de um lado para o outro, a vestir e despir coisas, muitas vezes em cima dos tacões todo dia. Mesmo se tiveram juízo e levaram sapatilhas ou sapatos baixos, é fisicamente extenuante. Queria ver os meninos a experimentar isto sem terem um enfarte depois da primeira hora.
Que as nossas amigas se aguentem connosco, em condições físicas e psicológicas duras como é uma terapia de retalho e não pensem em estrangular-nos e esconder o corpo num provador é prova que a amizade é forte e se vai aguentar, que está ali para durar. A partir deste momento estão prontas para a fase seguinte, que é a esteticista juntas. Mas isto é tema para outra prédica. Lá iremos.

quarta-feira, outubro 24, 2007

David Gandy (não costumo pôr modelos, mas, caramba, uma vez não são vezes)

Musas, deusas e heroinas avulsas



Inês Pereira e os cavalos que nos derrubam
Se havia alguma coisa Gil Vicente fazia bem, essa coisa era escrever papéis para mulheres práticas. Mais cómicas ou mais sérias, melhores ou piores pessoas, mas era gente prática. E que mais podia fazer uma mulher com inteligência e imaginação fazer num mundo de homens senão ser prática? Conformar-se o estritamente necessário e arranjar maneiras de satisfazer a dita inteligência e imaginação usando o sistema a seu favor? Nada, minhas amigas, ab-so-lu-ta-men-te nada. Uma mulher, minhas caras, tem de fazer pela vida.
De todas as maravilhosas mulheres esboçadas por Gil Vicente, nenhuma é tão prática, irónica e divertida como esta Inês Pereira. Esta rapariga faz pela vida. E bem. Claro que se quiserem ser puristas podem ver esta Inês Pereira como fútil e oportunista mas aviso desde já que hoje não estou para isso. Não. Isto hoje está para lhe elogiar o espírito prático, por isso vamos lá.
Toda a peça está baseada num provérbio sábio (claro, por alguma coisa é provérbio!): mais quero asno que me leve, que cavalo que me derrube. E a pele de quem a lição sai é a de Inês. Sendo ela moçoila solteira e de sangue quente, opta pelo pretendente bem-falante que lhe promete mundos e fundos, que se revela uma grande cavalgadura, em vez do meigo e gentil pretendente a atirar para o asno. Moral da história, o cavalo dá-lhe uma bela parelha de coices pelo que regressa ao asno, que asno ou não a deixa fazer o que lhe apetece. O que é, como já disse antes, de um pragmatismo admirável. A ironia do final da peça, em que ela convence o marido a carregá-la a ela, a duas lousas e ainda a cantar alegremente da sorte que tem por assim fazer não me escapa a mim, como não lhe escapa a ela: pois não é assim que as coisas se fazem? É, se quisermos ser práticas em vez de idealistas. Os ideais são tão bonitos, mas já têm causado por esse mundo fora mais que um amargo de boca.
Apesar de não aconselhar a ninguém a procurar activamente um asno que as leve, até porque, para uma mulher com inteligência e imaginação isso pode ser frustrante e entediante, um pouco do espírito prático que esta Inês demonstra não faz mal a ninguém. Até porque pelo que dá para perceber ela é uma junkie de amor tóxico em recuperação. A Inês Pereira é, se quiserem, no fim da peça, a antítese do amor tóxico. É a realidade levada até ao cinismo cruel, mas prático,de quem faz o que pode para levar a água ao seu moinho, seja isso ético ou não. E sou-lhes honesta, não posso dizer que não a compreenda: que atire a primeira pedra aquela que não ficou só um niquinho nada cínica depois de ser derrubada por uma besta. E mais não digo, que isto já é muito profundo.
"Inês
«Marido cuco me levades
E mais duas lousas.»
Pêro Marques
«Pois assi se fazem as cousas.»
Inês
«Bem sabedes vós, marido,
Quanto vos amo.
Sempre fostes percebido
Pera gamo.
Carregado ides, noss'amo,
Com duas lousas.»
Pêro Marques
«Pois assi se fazem as cousas»
Inês
«Bem sabedes vós, marido,
Quanto vos quero.
Sempre fostes percebido
Pera cervo.
Agora vos tomou o demo
Com duas lousas.»
Pêro Marques
«Pois assi se fazem as cousas.»
E assi se vão, e se acaba o dito Auto.

quinta-feira, outubro 18, 2007

Tratado da extinção da chispalhada nas mesas portuguesas

Eu ia com pressa e com um olho no burro e outro no cigano, ou como quem diz, com um no taxista e outro no semáforo, porque mais um vermelho e estava o comboio perdido. O taxista falava e eu fazia o meu melhor para não ligar, dizendo o pontual "sim", o tradicional "claro" e o polivalente "hum". Desde há uns anos que tenho como política estrita não falar com taxistas assim como quem fala sem ser com monossílabos. Eles têm opiniões tão iluminadas como certas minas de carvão a 300 m de profundidade e é preferível calar-se e chegar segura ao destino que armar-se em passionária e levar o taxista a irritar-se e a conduzir de forma mais temerária. Parecendo que não há muitas coisas a dizer-se em favor de chegar ao destino sem ter um ataque cardíaco. Mas pronto, pressa, política e vermelhos à parte, por entre hums de assentimento, naquele dia ouvi. E a teoria era interessante. A questão prende-se com frangos de aviário. Ou melhor ainda, com chispalhada. E a maneira como a supracitada tem vindo a extinguir-se das mesas portuguesas. Sei que parece uma sentença vinda da boca da lagarta azul da Alice no país das maravilhas dito assim, mas imbuída da luz da sabedoria de um taxista lisboeta, vou tentar explicar.
Basicamente, minhas amigas, o problema dos homens de hoje, o serem fracos, indecisos, cobardolas e francamente mentirosos provém todo de um único e alarmante facto: o jantarem frequentemente frango de churrasco com batatas e arroz, a salada opcional, em vez de um dos pratos que alimentaram gerações de portugueses façanhudos. Pois uma feijoada à transmontana, pois uns pezinhos de coentrada, uma sopinha de pedra, uma dobrada, um rabo de boi ou esse epítome da gastronomia lusa, a chispalhada. Como é que um homem vai manter a fibra moral e os níveis de testosterona em alta quando só come frango grelhado? Aparentemente os níveis de colesterol e a masculinidade estão, de forma misteriosa mas inevitável, ligados, e um não pode subsistir sem o outro. As mulheres não, dizia o homem, que são outros pordentros e qualquer folhinha de alface as satisfaz. Mas um homem aceitar um jantar take away de frango (ou pizza, ou lasagna congelada, ou rissóis de compra) é uma autorização não verbal para ser subjugado pela mulher e se tornar num banana. Mal se dá conta está ele a dar banho aos miúdos, a sacar do fairy e do esfregão verde ou, indignidade última, a ir ele à churrasqueira buscar os frangos a caminho de casa para quando a esposa chegar já haver jantar pronto.
Claro que no fim da corrida de táxi, comecei a pensar. Que a chispalhada está a desaparecer das nossas mesas é inegável. Que muitas famílias por esse país fora jantam frango de churrasco e take away muitas noites por semana, uma verdade escrita na pedra como os dez mandamentos. Que os homens são, actualmente, fracos, mentirosos e indecisos é a justificação principal da existência deste blog. A questão é: estão, como disse o taxista, ligados por uma única linha lógica? Analisemos cada uma destes factores.
Que mulher da minha geração sabe preparar, de raiz, desde o pôr o feijão de molho, uma chispalhada? Eu arriscaria que poucas, a não ser que sejam cozinheiras profissionais e não tenham outro remédio. Crescemos com as nossas mães a fazê-lo, a demolhar o feijão, a deixar cozer as carnes num fogo lento e a impregnar a casa de cheiros familiares e reconfortantes (alarmantes para mim porque nunca gostei especialmente de feijão). Se as desgraçadas não tinham outra hipótese, porque não só não havia muita coisa em lata e usar o que havia em lata estava abaixo da sua dignidade, também não tinha muito mais que fazer todo o dia. Fazer refeições elaboradas alimentava a família de comida e carinho, mas também preenchia tédios. Sim, que entre a novela do meio-dia e a novela da noite, algo haveria que fazer, por isso fazia todo o sentido investir as cinco ou seis horas de trabalho puro para fazer a feijoada, a dobrada, o bacalhau, o arroz de pato. Nós não o sabemos fazer, mas mesmo que nos apeteça ser retro poucas vezes temos essa oportunidade. A mim, pelo menos, a última coisa que me apetece, quando chego a casa à noite, é enfiar-me umas quatro, qual quatro, duas horas na cozinha a fazer um prato tradicional, balhamedeus. Por isso sim, o taxista tem razão, os homens da minha geração não comem o mesmo que os da dele. Não temos tempo para fazer a chispalhada, muitas vezes nem para ver a novela, por isso comem frango de churrasco sim. Não somos como as nossas mães. Em compensação eles também não são como os nossos pais: demonstram menos propensão para deixar crescer a unha do dedo mindinho, para beber café com cheirinho, deixar crescer a bigodaça à pai de família e abrir os botões da camisa até ao umbigo e mais para ajudar em casa, por isso parece-me que o desaparecimento da chispalhada não é assim uma coisa tão negativa. Mas a verdade é que ainda não analisámos a fibra moral. Vamos lá a ver.
Têm os homens hoje menos fibra moral que os homens da geração dos nossos pais, por exemplo? A resposta é complexa. Se sim, por um lado, porque são pais mais presentes e cooperantes, maridos menos ausentes, menos autoritários, não por outro. A geração que nos antecedeu construiu relações sólidas, que duraram (e duram) várias décadas. Criaram filhos, educaram-nos, viram nascer netos e continuam lá, onde devem. Os homens da geração anterior tinham uma tradição de marialvismo machista que lhes justificava todas as puladelas de cerca. Os da nossa comprometem-se menos, mais tarde, e mesmo assim não é inaudito deixarem a família por meninas de vinte e poucos. Por isso, é ela por ela. É como a chispalhada: não nos exigem a refeição perfeita na mesa às oito e meia e comem o frango sem refilar, mas também temos menos garantias que fiquem lá em casa para jantar. Aí, a teoria é inconclusiva.
Assim, temos de nos perguntar se é assim tão grave que a chispalhada esteja em vias de extinção. Transmite a ideia errada às crianças que apenas conhecem a chispalhada como uma coisa que vem numa lata? Não me parece. A sociedade modificou-se imenso nos últimos trinta anos, libertando as mulheres de muitas coisas, incluindo do dever fastidioso da cozinha. Libertou também os homens, para o bem e para o mal. Por isso temos apenas de ver a chispalhada como uma vítima da dialéctica da história. Os miúdos desta geração nova que vêm a chispalhada como coisa de uma lata também aprendem que a mãe não tem tempo para tudo nem é a super-mulher, que o pai ajuda e que é assim é que deve ser. A chispalhada parece um preço pequeno a pagar por isso. E, de qualquer maneira, o frango tem menos colesterol. E isso, sim, não muda com o tempo.

sexta-feira, outubro 12, 2007

A abordagem Shit Happens

Algumas pessoas ao ler o meu blog observaram que eu era assim, um bocado feminista (eu? Oh, o choque, o horror) e demasiado centrado nas mulheres, e que me devia dedicar assim a dar uns conselhos mais unissexo. Ora como eu sou uma mocinha que gosta de ir de encontro às criticas que lhe são feitas e, tanto quanto possível, satisfazer os leitores, hoje vou fazer isso mesmo. Mais que um conselho ou uma crítica, hoje vou expôr uma abordagem geral à vida, a minha pessoal, para proveito geral da nação gloriosa de Portugal, Ilhas e arredores.
A vida, caríssimos e caríssimas, não é justa. Nada. É incerta e irregular e a única certeza que podem ter dela é que, as cenas acontecem, ou, em estrangeiro, Shit Happens. Sem Kismet, Karma ou Fado, sem destinos ou entidades reguladoras acima de nós, as cenas acontecem estatisticamente aleatórias. Boas coisas a boas pessoas, más coisas a boas pessoas, boas coisas a más pessoas e outros quantos milhares de variações possíveis sobre este tema. Pode ser que o amor da vossa vida esteja com vocês até ao fim da vida e tenham muitos filhos e sejam felizes. Pode ser que o amor da vossa vida decida que quer passar a responder por Mercedes e andar com um gajo musculado de bom aspecto. Pode ser que vos caia uma varanda na cabeça e vos reduza a uma panqueca e seja o fim de tudo. A vida é assim, incontrolável, shit happens e nada podem contra isso. Nada. Podem seguir os caminhos seguros traçados: a escola certa, os amigos certos, os amores certos e isso, mesmo assim, não os protege do factor shit happens. A qualquer altura qualquer coisa de terrível ou maravilhoso pode acontecer que muda o rumo, quer queiram, quer não. Podem trazer amuletos, rezar aos santinhos, fazer seguros, traçar rotinas; são coisas tão úteis como matar uma galinha para curar uma dor de cabeça: dá trabalho e não está cientificamente provado que resulte. O que fazer então, para encontrar paz neste mundo em que shit happens a qualquer hora, em qualquer lugar, a qualquer pessoa?
Antes de mais, aceitar que as coisas acontecem e não temos controlo sobre elas. Sabendo a natureza aleatória das coisas, compreendam também que é natural, que muitas das cenas que acontecem vão ser injustas, vão morder como o caraças. As coisas boas não acontecem só a vocês e a quem gostam e parecem acontecer, com alarmante regularidade, a quem não merece mesmo nada e não há nada que possam fazer. Sim, as bonecas de vodoo também são tão eficazes como o sacrificio ritual da galinha negra para curar a enxaqueca. Com um bocadinho pequeno de cinismo, temos de aceitar isso. Mas não se deixem amargurar pela certeza que vão acontecer muitas merdas durante a vida. Tanto podem acontecer coisas boas como más. O melhor da vida , o mais interessante, é este factor de cartas aleatórias, tanto boas como más que a vida nos distribui e com as quais temos que jogar. Sim, podem ser reduzidos a uma papa informe por um piano em mudança como podem ser felizes, perfeita e maravilhosamente felizes porque está sol e é um lindo dia de outono e tudo corre bem. Viver é, deve ser esta aventura para onde vamos de sorriso, traga o que traga. E de onde, lamento dizê-lo e estragar o fim do filme aos mais distraídos, não vão sair vivos dela.

terça-feira, outubro 09, 2007

Eye Candy

Começa hoje na RTP1 "Os Tudor", cujo protagonista é esse que vêm aí em cima, Jonathan Rhys-Meyers. Cultivem-se, meninas, cultivem-se.

quinta-feira, outubro 04, 2007

O amor tóxico



Depois do último artigo, o do Dorian Grey, algumas pessoas perguntaram-me uma coisa muito simples: porquê? Porquê eu, a minha amiga C. e muitas outras amigas e conhecidas passámos anos a investir em relações com filhos da mãe como os descritos. A resposta resume-se em duas palavras: amor tóxico. Eu, bem como uma grande porção da população feminina, tenho uma propensão triste para o amor tóxico. O que é e como se lida com ele é o tópico exclusivo deste artigo.
É minha convicção pessoal que todos os amores são profundamente diferentes entre si. Também é minha convicção pessoal que todos os amores são semelhantes entre si, independentemente de aspectos exteriores: raça, cultura, tempo histórico etc. Porque o amor é como a humanidade: a mesma e ao mesmo tempo única e irrepetível. A linguagem do amor é a mesma, excluindo,claro, as nossas individualidades que nos torna diferentes. Mas claro que sentir é uma coisa, construir uma relação outra bem diferente. Sentir podemos sentir sozinhos (e quantas vezes acontece!), construir uma relação tem de ser a dois, não se pode fazer uma relação sem, ou uma relação contra. O facto de o tentarmos fazer é o que se chama o amor tóxico, aquele que em vez de libertar, prende. Aquele que em vez de nos tornar felizes nos torna miseráveis e incompletos.
Como raramente as pessoas são estúpidas e masoquistas a ponto de passar a vida a bater alegremente com a cabeça nas paredes, a propensão para o amor tóxico tem de ser uma coisa que vem de dentro de nós, não que nos chega por força das circunstâncias. Ninguém tem o karma negro de passar a vida a meter-se em enrascadas emocionais. Tem de ser uma espécie de compulsão motivada pelas nossas únicas e individuais neuroses.
Cada homem ou mulher ( esta questão da toxicidade transcende géneros, apesar de, estatisticamente, serem as mulheres as mais afectadas) tem as suas neuroses e motivações pessoais que o/a compele a arrastar relações infelizes. Mas apesar disso é possível traçar dois ou três grandes neuroses em que, de forma geral, todos os viciados em amor tóxico se inscrevem. Vamos lá a eles.
As nossas senhoras dos aflitos (super-homens, para os meninos). Este grande grupo, do qual sou membro com cartãozinho e cotas em dia, é basicamente daqueles que têm uma propensão anormal e doentia para seres fracos e com problemas. Para seres imperfeitos e traumatizados. E há que compreender que a ideia de podermos corrigir todas as injustiças que foram cometidas àquele ser especial e único dá um rush muito agradável. É bom sentir que precisam de nós. A falha nesta lógica é que ninguém é sempre forte, todos nós precisamos de um colo, um ombro para chorar uma vez por outra. Agora tentem apoiar-se numa pessoa frágil e traumatizada, mais, numa pessoa viciada em apoio e atenção para ver no que dá. É como uma árvore a tentar não cair agarrando-se à trepadeira que cresceu à sua volta: caem os dois e é um processo irreversível. A potencialidade para a coisa descambar numa espiral de infelicidade, necessidades insatisfeitas e dor é enorme. Resultado: sofrem os dois e a amargura que resulta deste embate é irreversível.
Os agradecidos- estes piquenos e piquenas, frequentemente com pouca auto-estima (e não temos todos) estão tão maravilhados com o ser maravilhoso e fantástico que lhe calhou na rifa que estão dispostos a ignorar todos os actos mesquinhos, todos os defeitos, todas as coisas que tornam o outro errado para eles. O resultado: tornar-se cada vez mais e mais dependente, ceder cada vez mais nas nossas convicções e opiniões até sermos uma sombra infeliz e maleável do que éramos. , meus amigos, ninguém é feliz a anular-se, simplesmente não é possível.
Os estetas- tentem interessar-se por alguém que é um sacaninha bonito e convencido para ver o resultado. Ou está demasiado interessado em si mesmo, o que o torna fútil e egoísta e, portanto incapaz de fazer seja quem for feliz, ou está demasiado interessado em tudo o que é rabo de saias(ou calças) para os deixar ter uma vida descansada e uma relação exclusiva. Se, em cima disto tudo for interesseiro e mercenário, é a cereja no bolo.
Como se foge ao amor tóxico? Com racionalidade e controlo. Não é uma luta fácil, mas tem de ser, pela nossa própria necessidade. A felicidade é, ao contrário das crenças populares, uma coisa incrivelmente simples. É sermos nós mesmos com o outro. Sem termos de nos virar do avesso, cortar partes, pormos cara forte e aguentar. Tudo o que não for isso, pode ser bom durante um tempo, mas nunca a longo prazo. As boas relações, como quase tudo na vida, são uma questão de equilíbrio, em que nenhuma das partes detém a supremacia durante muito tempo. A bondade, a beleza e a felicidade são questões de simetria, de dar e receber em doses semelhantes. E quando dermos por nós em relações desequilibradas para um lado ou para outro temos de parar e reflectir, fazer uma pausa. E quebrar o ciclo. As coisas tóxicas, tal como o nome indica, às vezes sabem bem. Mas nunca por nunca são saudáveis.

segunda-feira, outubro 01, 2007

Música



No dia mundial da música vou falar de música-música, de si por si mesma. Já falei aqui de música algumas vezes, sempre música aplicada à ideia XYZ. Mas a música não se aplica, sente-se.
Tudo na música é uma experiência sensorial, uma coisa carnal e física que se sente no corpo todo e ainda na alma, para troco. Toca-nos de mais forma que uma, servindo de fio de memória, de sonho, de aspiração, de passado e futuro ao mesmo tempo. Muito do que nós somos seria impensável sem música. Pelo menos do meu ponto de vista.
Acho que dá para perceber, pela introdução atabalhoada, que definir e delimitar a música é, para mim, uma tarefa complicada. Sou uma melómana assumida, e ouço de tudo, mas tudo, tudo, tudo mesmo. Mesmo música foleira e que envergonha porque não está na moda, nem se assume perante desconhecidos. Porque para mim o mundo cheio de música é melhor que o mundo vazio só por si, e só muito, muito raramente me apetece estar sozinha no silêncio reflexivo. Na verdade, consigo reflectir perfeitamente com música ligada, para além de que as minhas reflexões nunca duram horas. Se tenho de pensar e decidir alguma coisa faço-o rapidamente, não fico a remoer com ar intelectual dias, que seca! Mas voltemos à musica.
Suponho que diferentes pessoas sentem a música de forma diferente. Alguns não sentem mesmo. A minha dilecta irmã, por exemplo, sente o menos possível. Não é que deteste música, simplesmente não liga, nem precisa. Já eu não consigo conceber um mundo em que a música não anda por aí, não me enche os ouvidos e me faz reagir, para o bem e para o mal. De certa maneira, a música define-me e delimita-me, é quem eu sou. E hoje, no dia de hoje, é também um bocadinho o meu dia. Viva eu!

sábado, setembro 29, 2007

quinta-feira, setembro 27, 2007

A maldição de Dorian Grey

Estava outro dia a falar com a minha amiga C, que conheço há quase 15 anos, a lembrar as alegrias e as dores passadas, quando surgiu o tema dos ex-namorados. Depois de um ou outro cromo trocado, chegámos as duas à mesma conclusão: os filhos da mãe, os ordinários de marca maior que passaram pela nossa vida e fizeram mossa, continuam, anos depois, com o mesmo bom aspecto que tinham então. E aposto que continuam a usar esse mesmo bom aspecto para atrair vítimas insuspeitas para as suas garras maléficas. Acham justo? Não, claro que não.
Se o universo fosse uma coisa yin e yang de forças equilibradas, os sacanas, filhos da mãe ordinários teriam já, uma vez que estão nos trinta, desenvolvido uma barriguinha de cerveja, umas entradas, um cabelo branco ou, no mínimo umas olheiras de mau aspecto. Mas, fizeram-no? Não. Continuam com o mesmo bom aspecto que tinham quando lhes caímos na esparrela. Se não melhor. Tiveram ao menos a decência de ter pés de galinha à volta dos olhos? Se sim, só lhes aumentou o charme, dando-lhes aquele ar vivido e confortável de quem está bem na sua pele. E o facto de sabermos as peças que ali estão e de nós, entretanto, termos seguido caminho e, com sorte estarmos mais felizes (ou pelo menos mais sábias) não nos ajuda a curar a aguda sensação de injustiça. Porque aquilo que restauraria o balanço kármico era vê-los cheios de filhos birrentos e esposas irritáveis com barrigas de cerveja e camisolas de mau aspecto num sábado de manhã no hipermercado, não vê-los num sábado à noite num bar in, sofisticados e com a namorada tamanho 34 de 22 aninhos pendurada ao braço como um acessório. É de deixar uma pessoa positivamente desmoralizada. É de nos lançar, pelo menos cinco minutos, num abismo de depressão.
Depois desta conversa, lembrei-me logo de um livro o Oscar Wilde, O retrato de Dorian Grey, onde um homem muito bonito faz transferir toda a fealdade da sua alma para o quadro, enquanto permanece eternamente bonito e fresco. Sendo que Oscar Wilde era homossexual, estava em posição privilegiada, conhecendo a natureza dos homens e o ponto de vista das mulheres ao mesmo tempo. O homem sabia das coisas, minhas amigas. Não somos nós, minhas amigas, o retrato da alma dessas criaturas, espelhando-lhes os defeitos enquanto eles não mostram sinais do frios, cobardes, insensíveis ou simplesmente ordinários filhos da mãe que são? Pois. E o nosso conhecimento, porque privado, não restaura o nosso sentimento de termos sido injustiçadas e ninguém saber o que verdadeiramente ali está, qual é a verdadeira natureza daquelas criaturas. A maldição Dorian Grey cai sobre nós, não sobre eles, até porque não costumam ter consciência, para ela lhes pesar. A sério, cada vez mais me convenço que o mundo não é um lugar justo, é que nem de perto, nem de longe.

segunda-feira, setembro 24, 2007

Aforismo


Pensem sempre no pior em relação aos homens. Eles costumam esforçar-se sempre por corresponder às nossas expectativas.

quarta-feira, setembro 19, 2007

O dilema do controlo remoto





Nestas coisas do quotidiano é natural haver atritos, e há. Tal como a questão do assento da sanita, desenvolvido antes, a questão do controlo da TV é uma fonte de atritos. Só que em vez de guerra aberta, como a do assento, a guerra pelo controlo do comando é uma guerra furtiva, cheia de silêncios cheios de acrimónia e braços cruzados acomo quem diz, vê o que quiseres a ver se me ralo, mas já a ralar-se.
Claro que a questão do controlo remoto é uma questão psicológica, freudiana mesmo, sendo que este objecto é, claramente, um símbolo fálico. E como símbolo fálico que é todos os homens o querem possuir e controlar, e quanto maior, e mais óbvio, melhor. O facto da nossa sociedade estar cheia de objectos fálicos não deve ser nem ignorado, nem menosprezado. Senão pensem comigo: o sexo masculino é, historicamente o dominante na maioria das culturas, certo? Então porque razão é que os homens sentem a necessidade de objectos que lhe lembrem a virilidade? Sim, porque não há simbolos representativos do sexo feminino por aí, nem sequer existe um nome para os descrever. Será insegurança? É capaz. E nem sequer precisamos de falar da questão do tamanho, que assola tanta cabecinha masculina e da compensação desta questão com mais objectos fálicos como carros velozes e potentes. Pode ser também parte do pissing contest que é a luta pela posição de macho alfa, o macho dominante, que se resume a basicamente a minha é maior que a tua, nah nah nah nah na... Isto aconteceu desde que o mundo é mundo, em sociedades que eram completamente dominadas pelos homens. Agora imaginem o século XX, com as suas ideias de igualdade feminina a pôr em causa o domínio masculino. É um azar, mas o homem moderno, coitado, anda confuso sem saber muito bem no que, ou em quem manda. E manda, graças a todos os santinhos, cada vez menos.
O homem moderno, felizmente, anda na fronteira do oh sou tão bom e olhem como sou másculo/viril/poderoso com os meus brinquedinhos simbólicos e o sou um desgraçado e ninguém quer saber o que penso. O passo seguinte e lógico é tentar encontrar novas formas de se auto-definir sem necessidade de se agarrar à autoridade inquestionada e aos símbolos infantis de poderio. E claro que nós também sabemos que os únicos homens que se comportam de forma lógica e segura da sua masculinidade sem serem intimidantes são os heróis dos livros da Nora Roberts, e olha lá.
Aplicada a psicologia a estas coisas domésticas de controlo remoto, podemos tomar uma de duas atitudes: ou aquiescemos, porque o controlo dos programas e os saltos bruscos para canais como o ESPN ou o Motor TV não nos incomodam assim tanto, ou então lutamos por ele porque, que raio, uma mulher há-de poder ver, uma vez por outra, o What Not To Wear, NÃO? E sem resmungos.
Se o dilema do controlo remoto no homem moderno é, "mando ou não mando, o que faz de mim um homem se nem o que ver na TV posso escolher?", o dilema da mulher moderna é: até que ponto lhe quero ferir o ego para poder ver, digamos, qualquer coisa irritantemente gaja na mais ainda irritante SIC gaja... Afinal, não foram só os homens a perder a noção de quem eram e como eram. Nós mulheres também perdemos um bocado o norte no sentido de hesitarmos entre aquela atitude submissa que, hipocrisias à parte, agrada a algum tipo de homens e sermos liberadas e assertivas e, seguramente, ser consideradas frescas pelo mesmo tipo de homens. É que vêm, muitos homens acham que as opiniões, numa mulher, são uma coisa pouco atractiva ou feminina. E que a luta pelo controlo remoto é só uma prova de que querem competir com eles no pissing contest e serem elas a figura alfa da casa. O que dá asneira, claro. E as confusões não se ficam só pelas opiniões, mas também, por exemplo, com coisas como interesse na intimidade física ou disponibilidade emocional.
No mundo perfeito da Nora Roberts os casais não se chateiam nada com o controlo remoto. No mundo real, algumas de nós acabam por ver todo o grand prix na sua glória radiosa.
Minhas amigas, tal como no caso do assento de sanita, é preciso uma abordagem filosófica clara e pessoal. Perguntem-se a vocês mesmas a quantidade de vezes que querem lutar pelo controlo de um objecto que, a maior parte das vezes, parece soldado à mão dos homens. Se forem poucas, lutem. Se forem muitas, não se aborreçam e comprem uma TV nova para outra divisão e deixem-no ficar com os seus brinquedos. Os homens são crianças, mesmo.

terça-feira, setembro 18, 2007

quinta-feira, setembro 13, 2007






O assunto, minhas caras, é polémico e difícil, cheio de potenciais ratoeiras e atoleiros de dúvidas: deve o assento de sanita ficar para baixo, ou para cima? Aviso desde já que esta é apenas a minha opinião pessoal que aqui expresso com a ideia de poder ajudar a fazer luz sobre o dilema que assola muitas de nós.
O assento de sanita é um daqueles assuntos domésticos, quotidianos, que, reconhecidamente, não matam, mas moem. Passados o primeiros assombros da paixão, vão aparecendo aqueles detalhes irritantes no outro com os quais teremos de lidar seja de que forma for. E o número alarmante de discussões a este respeito por este país, não, por este mundo fora, justifica uma abordagem rigorosa e fiosófica a este assunto. Comecemos, portanto.
Para mim, o assunto do assento da sanita é um bocado irrelevante: se estiver para cima, ponho para baixo e pronto, é um gesto automático e nem penso muito nisso. Mas esta atitude fleumática não é assim tão fácil para muitas de nós. Começam a subir os calores ao nariz e, vai-se a ver, discussão. Façam as contas comigo: se o moço for à casa de banho três vezes, três discussões. Se estiver a beber cerveja, é incomportável. Não lhes parece que seria evitável esta chatice? Claro. Não que seja uma rapariga submissa e evite discussões, até porque acredito vivamente que uma relação em que ninguém discute não é saudável, alguém se está a anular. Mas parece-me que se devem reservar as forças para discussões importantes, que valham a pena, por exemplo projectos de vida, crenças, assuntos verdadeiramente vitais, em vez de arranjar pelo menos três discussões por dia porque o assento da sanita está outra vez para cima, não lhes parece? Aliás, como mau feitio que sou, uso muito parcimoniosamente as discussões, até porque quando se discute os ânimos aquecem e dizemos coisas que não queremos dizer e o estrago está feito. Um acordo entre as partes é sempre preferível.
Depois, temos de ver as coisas do ponto teórico: o que implica a nossa exigência de um assento para baixo em todas as ocasiões? Nós, mulheres, precisamos dele para baixo. Eles precisam dele para cima. Duas necessidades opostas, mas inevitáveis. Porque se há-de então optar por uma posição em vez da outra do malvado objecto? Uma opção de ficar para baixo implica ou a supremacia de uma das partes, nós, ou um favor por parte dos outros, eles. E nós, desculpem que lhes digam, não precisamos de favores especiais, nem de protecção. Ao exigirmos o assento para baixo porque podemos, e desculpem a franqueza, arrefecer ou molhar o rabo, estamos a passar a mensagem que somos tontas ao ponto de não conseguirmos ver a posição do assento antes de nos sentarmos. Perguntem a vocês mesmas se lhes apetece passar por estúpidas para merecerem tratamento especial. O paradoxo da mulher moderna, que toda a questão do tampo de sanita deixa a nu é este: ao mesmo tempo que queremos ser vistas como seres iguais, perfeitamente capazes e independentes, continuamos a esperar e exigir tratamento especial.
Sejamos francas, minhas caras, não podem ter as duas coisas, simplesmente não é possível. Não podem ser feministas e autónomas só na parte que lhes dá jeito. É imoral. Dêm uma folguinha aos desgraçados homens que, com a sua mente linear, ficam confusos com estas mensagens paradoxais. Eles, da maneira deles, não só usam estas pequenas coisas para dizer que somos fúteis e incompreensiveis, como se sentem no direito de continuar a tratar-nos como tontas que não conseguem sequer aferir a posição de um assento de sanita.
Para acabar com o paradoxo da mulher moderna, sejam firmes e consistentes. Não exijam, ou esperem portas abertas, ajuda para vestir casacos, carregar coisas, refeições grátis. Poramordedeus tratem de vocês mesmas para eles perceberem que querem companhia e compreensão, não protecção e paternalismo. E ponham o assento para baixo, já são meninas crescidas...

quarta-feira, agosto 29, 2007

O axioma Cyrano

Era uma vez um espadachim chamado Cyrano de Bergerac, um homem nobre, talentoso, tão bom com a espada como com a pena. Era um poeta notável, arguto e inteligente. Este homem magnífico tinha apenas um defeito, uma coisa insignificante: tinha um nariz gigantesco. Cyrano era apaixonado pela sua prima, a linda Roxanne, mas não tinha coragem de lhe dizer, ao passo que a linda Roxanne era apaixonada por Christian, um cadete que tinha tanto de bonito como, graças aos deuses, de burro. Então Cyrano, num acto com tanto de nobre como de masoquista, resolve ajudar Christian a conquistar Roxanne, que, inteligente e culta, não se deixava levar pela primeira carinha laroca que aparecesse. E o melhor é que resulta. As cartas inflamadas de amor de Cyrano para Roxanne via Christian conquistam-na, os diálogos ardentes de Christian e Roxanne com Cyrano escondido nos arbustos são absolutamente perfeitos como expressão do amor. Claro que tudo remata em tragédia e todos morrem no fim, mas a história de Cyrano serve para ilustrar perfeitamente um axioma da mente feminina: independentemente da beleza de quem as pronuncia nós, mulheres, somos conquistadas mais pelas palavras que pelo aspecto.
Os homens são criaturas visuais, sendo mais o aspecto que outra coisa que lhes prende a atenção. Eles são capazes de se apaixonar por um sorriso ou um belo par de pernas. Para nós mulheres, se bem que não prejudique um palminho de cara, um rabiosque giro ou uns abdominais definidos, estes elementos por si só não chegam para nos fazer apaixonar. Sim, é verdade que também somos acometidas por episódios de luxúria, não se enganem, mas não é um peito forte e espadaúdo que nos faz decidir que aquele é o homem da nossa vida. Nós precisamos de palavras.
Não sei se será por causa de uma coisa biológica (ao nível biológico nós precisamos que o nosso companheiro fique por perto a ajudar a criar as crianças durante os próximos vinte e tal anos), nós precisamos que nos garantam que sim senhor, que somos únicas e especiais e maravilhosas e que pretendem ficar connosco para todo sempre. É, seguramente também, por causa da cultura. Nós as mulheres não é suposto lançar-nos para rebolar no feno com o primeiro que apareça mas manter-nos puras até o verdadeiro amor aparecer (oh, a ironia). E a maneira de perceber se é o verdadeiro ou não é, simplesmente, ouvir o que tem para nos dizer e distinguir se aquilo é tanga para nos fazer atirar para o dito feno a rebolar ou se querem mesmo comprar-nos o anel e levar-nos à igreja ou ao registo civil ou whatever. E apesar desta abordagem ter séculos, a verdade é que ainda resiste e está cá para as curvas.
Actualmente, e já falei nisto no artigo acerca da música, as coisas têm vindo a mudar o que é assim mais ou menos bom. Uma geração tão profundamente visual como a geração Hi5 vai estar menos atenta ao que ouve que ao que vê, mulheres incluidas. Mas mesmo assim, uma boa conversa da banha da cobra vai sempre conseguir convencer-nos de que sim senhor, aquele é que é e mandar-nos de cabeça, e voluntariamente, para o buraco.
Sempre achei que o problema do Cyrano era só falta de autoconfiança e que tinha conseguido ganhar a Roxanne ao parvinho do Christian sem qualquer esforço. Se bem me lembro da peça, a única vez que Christian falou de seu livre pensamento sem o Cyrano de teleponto Roxanne quase foi às lágrimas de aborrecimento com a estupidez dele. Era como estar à espera de um banquete e sair canja, da de arroz e bem ralinha. E todas as mulheres razoavelmente cultas que conheço concordam com ela. Simplesmente não tem piada.
O axioma Cyrano é tão verdadeiro para nós quanto perigoso, deixa-nos extremamente vulneráveis. Olhem a Ofélia do Hamlet, que deixou que a retórica dele a levasse à loucura... Os nossos ouvidos são extremamente permeáveis às palavras certas, quer sejam honestas, quer não. E a maioria dos homens pode não ter neurónios para mais que papaguear, mas para conseguirem os seus propósitos conseguem papaguear as palavras certas. Assim, minhas caras, estão avisadas. Encarem isto como um aviso para reforçar as áreas em que têm fraquezas. Afinal as palavras bonitas podem vir tanto do vosso apaixonado Cyrano como de um Christian de cabeça vazia... Depois não digam que não foram avisadas.

sexta-feira, agosto 24, 2007

Eye Candy



Garret Hedlund (o único motivo que me levaria a ver o Georgia Rule sem bocejar, apreciem o género Brad Pitt em Thelma e Luise...)

Os homens deviam vir com etiqueta





Os homens costumam queixar-se que as mulheres deviam vir com instruções, e não deixam de ter razão. Comparativamente, somos muito mais complexas enquanto género que eles, muito menos previsíveis. Os homens, enquanto seres relativamente básicos que são, são muito mais previsíveis, têm todos mais ou menos os botões de ligar e desligar no mesmo sítio e, desde que lhe forneçamos as suas necessidades básicas (sexo, comida e mais sexo) são de fácil uso e de baixa manutenção. Enquanto a nossa complexidade de reacções exigiria um manual plurilingue de várias páginas em letra pequenina e um número de apoio, os homens precisariam apenas, no meu entender uma etiqueta de leitura rápida e símbolos universais, como a roupa.
Como já disse, e tirando uma excepção por outra que apenas confirma a regra, os homens são seres razoavelmente cognoscíveis. Dividem-se em meia-dúzia de géneros e as suas reacções são tão previsíveis e fiáveis como a cobrança do IRS aos funcionários públicos: quer chova, quer faça sol, são coisas que se mantêm geração após geração. A questão é que nós, mulheres, nunca os conseguimos pôr na categoria correcta logo numa primeira impressão, por causa da cegueira das hormonas. A Cegueira Extemporânea da Paixão Ordinária (CEPO) . Daí a expressão que o amor para além de cego, é estúpido que nem um CEPO. Isto é a forma ciêntifica de dizer que não vemos os defeitos da criatura nem com um telescópio à frente. Se este estado de cegueira é grave, é também, e felizmente, temporário. Claro que nessa altura já nós perdemos tempo e gastámos latim e já, também previsivelmente, nos lixámos. Pensem só na economia de tempo e chatices que seria a etiqueta informativa que nos dizia logo, de forma clara e inequívoca com o que poderiamos contar dessa peça? Era outra limpeza, não era?
Quando compramos uma peça com um teor de 80% de elastano, sabemos, logo e de fonte segura, que vai colar e mostrar todas as curvas que não deve. Se comprarmos seda pura sabemos logo que não se pode fazer nada a não ser mandar lavá-la a mosteiros tibetanos por monges budistas na fase certa da lua e rezar para não ficar com manchas. Se tiver o símbolo do não usar lexívia a única maneira de a usar é se quisermos fazer uma camisola psicadélica tie&dye. Digam lá se, aplicada aos homens não a teoria das etiquetas não dava jeito...
Imaginem que entram num bar e vêm um homem interessante. Uma espreitadela rápida à etiqueta, que seria qualquer coisa como isto:
e já esávamos mentalmente preparadas para a seca de conversa de duas horas sobre tunning, a genialidade de Kubrick (o cineasta de culto por excelência para homens melga) ou as madeixas que pôs. O mesmo era válido para os EMO, que teriam o símbolo frágil, ou os filhos da mãe, que teriam o Tóxico, manusear com cuidado. A sério, seria um mundo muito, mas muito mais civilizado que este onde vivemos. De longe.

segunda-feira, agosto 20, 2007

Feministas Eméritas

Bettie Page ( a rainha das pin-up)
"Sex is a part of love. You shouldn't go around doing it unless you are in love.."

Loiros

Estava eu outro dia a ler no mail praí a milionésima anedota de loiras quando uma ideia me assombrou (sim, que eu uma vez por outra tenho ideias) : porque razão há tantas anedotas sobre loiras burras e nenhuma sobre loiros burros? Claro que como feminista que sou podia ir pela via da piada fácil e dizer: porque homens são homens e o burro é pleonasmo, mas isso seria injusto (com piada, mas injusto). Porque motivo é que nós, mulheres, associamos as loiras com fraca inteligência e os loiros com cavalos brancos de príncipe encantado? Humm...Isto parece um caso para a Super Passionária...
Comecemos por analisar as raizes de todas as coisas: no ser humano as nossas acções podem ser causadas por três factores: cultural/histórico, biológico/genético ou psicológico/emocional. Assim, e aplicando o princípio científico, apliquemos estas três perspectivas sobre o problema em mãos. Comecemos pela história.
Va lá, admitamos: durante os últimos, não sei, três a cinco mil anos, a inteligência feminina foi assim a modos que menosprezado. As mulheres eram assim uma coisa entre o brinquedo sexual e o electrodoméstico paridor de filhos, mas isso não é novidade nenhuma para ninguém. Não eram só as loiras que eram consideradas burras, mas todas as mulheres no geral. A resposta tem de estar mais perto. Por exemplo, no século XIX, onde as loiras entraram na moda (eu já falei disto na Lilith), simbolizando a pureza e a espiritualidade. A verdade é que os românticos (no sentido do movimento literário, não do sentimento) não queriam mulheres inteligentes ou companheiras (se pensarmos nisso, a Joaninha do Viagens na minha terra é quase analfabeta) porque as mulheres são assim uma espécie de objecto giro onde se depositam os sentimentos, como um vaso. E , como um vaso, importa é o que está fora, não dentro. Não é difícil de perceber o backlash das mulheres da época contra estas loiras que estavam a receber toda a atenção, não é?Fazê-las passar por simplórias estúpidas podia ser extremamente satisfatório parece-me uma vingança requintada e cruelmente feminina. E, historicamente, as piadas das loiras são apenas um subcapítulo na cultura masculina que pensa que até o homem mais burro é mais esperto que a mulher mais inteligente (yeah, right), não havendo por isso motivos para os ridicularizar. Por outro lado, como a cor branca simboliza pureza e nobreza (nos homens) os príncipes e cavaleiros andantes são de pele e olhos claros. E a verdade é que, em cultura, as ideias dos símbolos tendem a permanecer, pelo que um loiro é mais visto como ideal que como estúpido. Esta explicação parece-me parte da resposta ao meu problema, mas não toda. Avancemos para os motivos biológicos.
Todos nós sabemos que nós, mulheres, estamos biologicamente condicionadas para umas respostas e não para outras. Por exemplo, como cabe a nós perpetuarmos a espécie e tratarmos da geração mais nova (tarefa para mais ou menos uns vinte e tal anos), a escolha de parceiro sexual é, necessariamente, uma tarefa morosa e complicada. Cabe a nós verificarmos que os nossos parceiros têm força e coragem para nos proteger dos elementos (e notem que estou a falar em termos biológicos, não a passar uma opinião). É importante serem inteligentes, mas não tanto como terem genes saudáveis e pujança física. Neste sentido, e por força da biologia, nós, mulheres, estamos mais predispostas a aceitar um bom provedor estúpido que um mau provedor esperto que nem um alho. Já os homens, com o seu ímpeto de propagar semente pensam mais em termo de quantidade que qualidade. Nesse sentido é fácil perceber porque vêm as mulheres como uma massa informe de material reprodutor em vez de seres individuais, inteligentes ou não. E aqui voltamos á objectificação que tanto se nota ao nível cultural.
Em termos emocionais, e para perceber a questão loiros/loiras, temos de somar a questão cultural com a biológica e acrescentar o bónus da personalidade individual. A soma dá aquilo que nós tantas vezes constatamos: não estamos preparadas enquanto género para avaliar o QI do amado se estivermos apaixonadas. É uma questão complexa, que começa logo na parte do prestadoras de serviços que, por biologia e cultura somos. Enquanto fornecedoras principais de cuidados primários (vulgo instinto maternal) não estamos preparadas para deixar de lado os mais fracos, sobretudo se esses são os objectos da nossa afeição. Ou seja, estamos muito mais dispostas a deixar passar uma certa limitação nos nossos mais-que-tudos se eles puderem satisfazer as nossas necessidades emocionais. Para além de, culturalmente, não sermos capazes de desafiar a esse ponto o estereótipo de superioridade masculina, os nossos critérios de selecção de parceiro são tão mais complexos que as considerações acerca da inteligência se perdem no nosso complicado sistema de compensações ( o mesmo que nos leva a aceitar um homem feio e de bom coração carinhoso e preterir um giro filho da mãe frio). No caso de percebermos friamente que o moçoilo é burro como uma placa de contraplacado, mas giro, podemos contemplar uma reboladela ou outra no feno, mas nunca como companheiro em termos de longa duração (pelo menos nenhuma mulher que eu conheça o faria). Já os homens não, pelo contrário, não só apreciam que sejamos burras, como fomentam a nossa burrice, incluindo com as anedotas de loiras. Senão pensem, se não gostassem de mulheres estúpidas, e as mais estúpidas de todas são suposto ser as loiras, porque raio as loiras deste mundo têm tanta saída?
Uma mulher burra é uma mais valia para um homem, são mais moldáveis e obedientes e mais facilmente impressionáveis. Já um homem burro é, simplesmente, uma dor de cabeça para uma mulher, que tem de traduzir tudo de português para estúpido sete vezes até perceber o que nos exaspera até às lágrimas. Daí haverem tantas piadas de loiras e nenhuma de loiros. Eles com gente estúpida podem bem, nós a última coisa que queremos é fomentar a burrice natural. Deus nos livre!

quarta-feira, agosto 15, 2007

Eye Candy



Luke Perry (todo crescido na sua série nova, Jeremiah)

Os meus Stilettos pele de cobra

Comprei uns stilettos de pele de cobra. Pronto, comprei sim senhor e estão comprados e são meus e não partilho, é para os meus jeans azuis escuros e o meu casaco castanho e são meus. Ufa, pronto, estou só a desabafar. Eu sei que pode parecer gabarolice gratuita, mas acreditem, para uma feminista de esquerda isto é um passo gigante. Eu explico.
Sim, isto de ser uma feminista de esquerda (apesar de me parecer teoricamente impossível ser uma feminista de direita, que essas querem é fazer bolos e olhar de forma adoradora para o maridinho, dono e senhor da casa) não é tão divertido como parece. A malta tem ideias. Muitas. E todas elas são incompatíveis com os meus stilettos novos. Se a malta acredita que a indústria de beleza é uma forma de escravizar a mulher (que é), embonecar-se com saltos altos que realçam as pernas para benifício alheio em vez de usar sapatos confortáveis e que façam bem à saúde é assim, no mínimo, uma contradição dos diabos. Isto sem sequer ir à parte de esquerda e ao meu desgosto crónico de, com o tempo, me ter transformado numa mini- Imelda Marcos e ter já nem sei quantos pares de sapatos (cinquenta, sessenta?). Se querem insónias tentem justificar a vocês próprias o porquê de serem umas porcas consumistas com sessenta pares de sapatos quando em mais de metade do mundo se anda descalço e passa fome e vão ver o que é bom para a tosse. E os meus motivos para me sentir mal com os meus stilettos estão ainda no princípio.
Quando era pequena, como todas as miúdas da nossa geração, o modelo de sapatos era um e só um. Variavam de cor, mas dos sapatinhos de fivela não me safei. Tinha uns pretos e uns azuis escuros para o Inverno, uns brancos e uns beige para o verão. A minha família era conservadora por isso eles eram qualquer coisa como isto:

Nessa altura babava com a ideia de poder usar uns sapatos altos como a minha mãe (de facto cheguei a andar lá por casa com alguns dos dela estragando-os, lol, e assim enfrentando a ira materna). Claro que depois cresci (não, a sério, cresci mesmo, tenho 1,75), comecei a ser politicamente activa e os sapatos de salto ficaram um bocado de lado. Durante os meus tempos de faculdade, só tinha dois ou três pares de sapatos, e eram assim:


Entre não parecer o farol da Barra, os meus ideais feministas e os meus namorados não muito altos, a verdade é que não precisava de saltos. Andei quase os meus vinte todos a pensar assim. Então porquê, em nome de todos os santinhos, um par de stilettos de pele de cobra me entusiasmam tanto?
Os seres humanos não são perfeitos, e eu muito menos. Acho que a par dos ideais de esquerda e do feminismo é preciso um prazer culpado e dacadente para me tornar humana e me confortar. Acreditem, o feminismo não é um posicionamento fácil ou confortável face à vida. E depois, quando chegamos aos trinta, pomos de lado muitas coisas que tinhamos como certas ou seguras. Não sei vocês, mas a mim, desde que entrei nos trinta, que me apetece fazer exactamente aquilo que me apetece. Afinal não devo explicações a ninguém, seja por estar solteira e independente, seja porque comprei, e com todas as intenções de usar, uns stiletto pele de cobra (falsa, atenção, que sou uma rapariga ecológica) em cima dos meus 175 cm e os incomodados que se retirem, lol. A liberdade deve ser uma coisa parecida com isto.
De modos que comprei uns stiletto pele de cobra excêntricos como eu para usar com os meus jeans e o meu casaco castanho, talvez uma T-shirt beige por baixo, um colar simples, mala castanha grande. São lindos, não são? E sao meus.

quinta-feira, agosto 09, 2007

Deusas, musas e heroinas avulsas


Lilith
Se acham que as mulheres tiveram uma fama desgraçada por causa do papel que foi dado a Eva no Antigo Testamento, então ainda não ouviram falar de Lilith, a primeira mulher de Adão. Na tradição judaica, deus criou não uma, mas duas mulheres para Adão, sendo a primeira Lilith. E Lilith, minhas queridas, era uma mulher e tanto. A verdade é que há alguma dúvida em relação a ela, podendo aparecer como uma espécie de deusa, ou de demónio, dotada de uma sensualidade perturbante e de uma malícia que deixava o pobre Adão à nora. Como era, basicamente, mais esperta e maliciosa (e certamente mais sexual) que Adão este queixou-se a deus que a castigou e a mandou para o lado sombrio da Lua. Aparentemente, uma parvinha crédula como Eva era preferível a uma espertalhona liberal como Lilith, mesmo aos olhinhos do criador. E assim começou uma campanha milenar contra mulheres independentes e liberadas, sobretudo se sexualmente liberadas.
Se quisermos ser puristas acerca disto podemos ainda dizer que Lilith, ou outra forma de mulheres nocivas apareceram basicamente em todas as culturas. Nas culturas da Mesopotâmia Lilith era uma deusa da noite, estéril e portadora da morte e da doença. Outras formas de monstros apareceram como incubos ou demónias que arrastavam os homens para a morte sugando-lhes toda a energia vital através do sexo (coitadinhos, que forma horrível de morrer, lol).
Mesmo em culturas um pouquinho mais avançadas civilizacionalmente, como os gregos e romanos, também a figura de mulheres liberadas e independentes aparece, e sempre de forma bastante desfavorável, senão lembrem-se da fama terrível das amazonas, que caçavam os pobres homens para procriar e quando acabavam os matavam e devoravam, ou da má fama que a colónia feminina de artistas na ilha de Lesbos tem até hoje ( e não, não se conseguiu provar até hoje que todos os membros dessa colónia fossem homossexuais, se nem o conseguem provar a respeito de Safo!).
Há qualquer coisa de perturbador para a cultura predominantemente masculina acerca de mulheres que vivam sem a protecção de um homem, que não tenham filhos ou que possuam sabedoria, uma vez que estas mulheres foram sistematicamente perseguidas através da história. E isto abarcou praticamente todas as civilizações ocidentais e muitas orientais. Na idade média aas mulheres que viviam sozinhas ou eram curandeiras arriscavam-se a ir parar à fogueira por serem bruxas, as que tinham apetite sexual maior que o consideraro normal arriscavam-se a dolorosos rituais de exorcismo porque estavam possuídas. Mesmo no fim da época das trevas, mesmo no sec. XIX as mulheres eram seres potencialmente fatais, perigosos, portadoras de doenças terríveis que apanhavam os homens (a sífilis, por exemplo, letal nessa altura, ou a tuberculose). E isto sem falar no tratamento das mulheres no islão, ou na cultura chinesa, em que lhes partiam os pés para não poderem fugir dos seus amos e senhores, deformando-os até serem cotos informes.
Como a força das mulheres, sobretudo a força sexual das mulheres pareceu sempre uma coisa ameaçadora, uma busca de pureza nas mulheres tornou-se uma obssessão cultural. As mulheres deveriam permanecer castas e virgens até ao casamento e fiéis e isoladas depois. No século XIX isso até se reflectiu na concepção de beleza, passando a estar na moda as loiras (frias por tradição, ou seja, com menos apetite sexual que as fogosas morenas) magras (sem curvas que, supostamente, revelavam voluptuosidade) e espirituais (outra palavra para burras na época). Eram também suposto manter-se afastadas de todo e qualquer tipo de conhecimento, a não ser o estritamente necessário para criar filhos saudáveis.
Só nos século XX e já a meio dele é que as mulheres puderam começar a saír deste molde de mulheres subjugadas, e mesmo assim não completamente, mesmo assim, nem todas. Se acham que o medo milenar de Lilith não continua, pensem só no tratamento cultural dado às mulheres que vivem sozinhas, que são "demasiado" intelectuais ou que são liberadas sexualmente. Podem dizer que não senhor, que é tudo igual, mas continua a permanecer uma verdade imutável que uma mulher não pode ter o mesmo número de parceiros sexuais que um homem sobre o risco de ter fama de flausina.
A ironia disto tudo é que, sem muito esforço, toda uma nova geração de Liliths surge. Talvez não nos Estados Unidos, onde são bastante conservadores, mas na Europa sim, onde cada vez mais mulheres entram nas universidades (neste momento a percentagem de mulheres nas universidades é muito superior à de homens, mesmo cá em Portugal), cada vez casam menos e mais tarde e cada vez são mais livres e liberais em selação ao sexo e ao número de parceiros. Os homens podem protestar e tremer, mas a verdade é que Lilith está a sair das sombras e vencer o esterótipo da parvinha da Eva. E se querem que lhes diga, ainda bem.

terça-feira, julho 31, 2007

Esclarecimento


Não é que tenha nada contra os homens, porque não tenho. Só não gosto de infantis, meninos da mamã, traiçoeiros infieis, cobardes e insensíveis. É culpa minha que a maioria da população masculina se encaixe numa destas categorias? Não é, pois não?

segunda-feira, julho 30, 2007

Ingmar Bergman 1918-2007


"Eu e a minha mulher somos dependentes um do outro. é por razões puramente egoistas que ainda não nos batemos até à morte há muito tempo"- Morangos Silvestres
Um adeus ao cineasta das mulheres, que as filmou como ninguém e as compreendeu melhor ainda, e que é um dos meus realizadores preferidos...

A culpa é do Bryan Adams



Estava eu no carro enquanto a minha amiga P enchia o depósito quando comecei a reflectir (quem me conhece sabe que as minhas melhores ideias vêm, infalivelmente, quando estou num posto de abastecimento). Por que motivo é que as mulheres da minha idade, aquelas que estão agora nos trinta são, na sua maioria mais papalvamente românticas que as piquenas das gerações seguintes. Como ainda não estou convencida (apesar de alguns sinais alarmantes) que o problema está no QI médio das mulheres, nem na genética (que mutação genética haveria nas mulheres que nasceram até 1960 e nos deram à luz justificaria isto? Na altura quase não havia químicos, era tudo ar puro...), a luz fez-se: tinha de ser cultural mesmo.
Ora vejamos, a cultura popular sim, está muito diferente. Enquanto nós, na pré-adolescência andávamos a ver Candy-candy ou Anne of the green gables, esta malta vê Morangos com açúcar. Torna-se óbvia a visão diferente do que é amor transmitida nesta idade vulnerável, não torna? Pois. Mas pronto, deixemos de lado referências culturais referentes à televisão, pois não são experiências verdadeiramente comparáveis, uma vez que nós só tinhamos um canal, enquanto que agora têm quarenta ou cinquenta por onde escolher. Pensemos, por exemplo, em filmes. Os filmes que marcaram a nossa adolescência são todos grandes lamechices sobre o triunfo do amor. Nós somos as espectadoras do apogeu da Meg Ryan, poramordedeus... Desde Top Gun, a Oficial e cavalheiro, a When Harry Met Sally, ao Ghost... Quem foi ver o Titanic, hein? Quem povoava as salas dos filmes da Sandra Bullock? Nós. As miúdas das gerações a seguir cresceram com American Pies e Jackass e assim. Ora, mulheres que vêm o Jackass estão menos atreitas a acreditar que os homens são seres minimamente coerentes e amorosos que mulheres que não viram, certo? Mas enfim, rejeitemos também a influência do cinema, pois é, tal como a televisão, um conceito diferente para nós e para eles (nós vimos surgir o vídeo, somos versadas em Bollywood porque era o que havia disponível, elas ripam os filmes que ainda nem estrearam da net). Avancemos para o ponto onde eu quero chegar: se excluirmos a TV e o cinema como fontes contaminantes de romantismo pop, o que sobra? A música, claro.
Ora, a música sim é, mais ou menos universal. Apesar de não ouvirmos música da mesma forma e nos mesmos sítios, ouvimos, na nossa impressionável adolescência, tanta música como as adolescentes que nos seguiram. Aquilo que estava disponível para ouvir é que, minhas amigas passou de tóxico a abre-olhos.
Nós, as raparigas desta idade (se alguém se atreve a voltar a chamar "madura" fica com, pelo menos, dois olhos roxos, que não sou figo para estar madura) somos as últimas a saber o que era um slow, a descobrir o que era dançar assim. Nós, a geração slow (refiro-me assim por uma questão prática de identificação) encaramos a dança a dois como uma coisa romântica em que estamos abraçadinhas a partilhar emoções. Já as gerações seguintes, a geração dance ou a geração kizomba mais facilmente troca secreções que emoções, if you get my meaning. Não estou a dizer que isso é mau, reparem, pelo contrário. Acho refrescante que a música actual transmita as coisas como elas são às raparigas. Assim não vão ao engano à procura de príncipes, sabem logo que há é sapos por todo lado, uns mais repugnantes que outros. Rapariga que cresça a ouvir, por exemplo, o 50Cent a cantar o Candy Shop sabe bem o que esperar: nada de anel, mas um pouco de diversão nunca fez mal a ninguém, pois não?
"[50 Cent]
I'll take you to the candy shop
I'll let you lick the lollypop
Go 'head girl, don't you stop
Keep going 'til you hit the spot (woah)
[Olivia]
I'll take you to the candy shop
Boy one taste of what I got
I'll have you spending all you got
Keep going 'til you hit the spot (woah)"
Já nós, não. Nós andavamos a ouvir Bryan Adams, nós sabiamos (e ainda sabemos) de cor as canções dele. Nós ouviamos e acreditávamos que poderia haver profundidade emocional no homem médio a ponto de não só sentir como também verbalizar coisas como estas:
"To really love a woman
To understand her - you gotta know her deep inside
Hear every thought - see every dream
N' give her wings - when she wants to fly
Then when you find yourself lyin' helpless in her arms
Ya know ya really love a woman

When you love a woman you tell her
that she's really wanted
When you love a woman you tell her that she's the one
Cuz she needs somebody to tell her
that it's gonna last forever
So tell me have you ever really
- really really ever loved a woman?

To really love a woman
Let her hold you -
til ya know how she needs to be touched
You've gotta breathe her - really taste her
Til you can feel her in your blood
N' when you can see your unborn children in her eyes
Ya know ya really love a woman"
estão a ver o potencial tóxico da coisa? Isto é o chemical warfare do mundo do romance. Instala-se directamente no sistema nervoso central e bam, estamos contaminadas: somos umas românticas inveteradas e nem os desapontamentos (previsíveis, claro, a pensar assim) que tivemos na vida servem de antídoto. Quando muito ficamos cínicas, mas sabem o que dizem dos cínicos, certo? Românticos incuráveis que foram magoados muitas vezes.
Assim, minhas queridas, a próxima vez que cairem numa esparrela que uma miuda de doze anos conseguiria ver ao longe, não se sintam tão mal. Pensem em toda a musica romântica, lenta e doce que ouviram nos anos oitenta e noventa que vos moldou o espírito e deixem de lado um pouco da vossa culpa. E se não resultar, repitam como um mantra até acreditarem: a culpa é do Bryan Adams. Pôr a culpa num homem pode não ser justo, mas faz-nos sempre sentir melhor...