Segunda-feira, Julho 13, 2009


Sábado, Julho 11, 2009

Memory lane

Quinta-feira, Julho 09, 2009

Coitadinho do crocodilo


Queixava-se outro dia um conhecido do fim da sua relação. Quando a coisa começou o homem estava entusiasmado e dava gosto ouvi-lo todo apaixonado. Agora tinha andado uns tempos de monco caído até pôr a desgraçada a andar. O problema, era, sobretudo, dizia todo contrito e frustrado, a falta de comunicação.
Eu sei que nem todos os homens são desprovidos de consciência e princípios, e o rapaz estava mesmo triste pelo falhanço da relação. Mas conhecendo bem a história acho que mesmo os homens mais morais e bem-intencionados têm muitas vezes uma abordagem errada a esta coisa de começar e fazer funcionar uma relação. E esta abordagem começa logo na escolha da candidata.
Que escolhem a candidata pela aparência é uma verdade tão batida, tão batida que não vale a pena repetir. Que depois se queixem de que a dita moça não os completa ou satisfaz é que já é demais. É insultuoso para ambos. É o mesmo que protestar porque um jarrão chinês não sabe nada de política. O que é preciso é consistência.
Ninguém tem obrigação de ser o que não é, de se esforçar por chegar aos padrões do outro só porque o outro o quer. Se a rapariga não gosta, digamos, de música clássica e ele sabe, é justo sentir-se frustrado por ter de ir ao CCB sozinho? Chegar a um ponto comum, experimentando coisas novas é uma coisa desejável numa relação. Tentar moldar os outros aos nossos gostos e expectativas e ficar frustrado quando não se consegue é outra bem diferente.
Encaremos os factos da verdade: correndo o risco de generalizar, a verdade é que muitas meninas bonitas não são lá muito profundas. E isto não tem mal nenhum, muitas meninas menos bonitas também não o são, nem muitos homens, já que estamos a falar disso. Mas também não devem ser constrangidas ou forçadas a sê-lo se não o quiserem ser. Ser genérico, se bem que possa ser pessoalmente frustrante, nem é crime nem pecado.
A falta de comunicação de que o moço se queixava resumia-se à falta de suficientes interesses e expectativas comuns. Para além da comunicação primária do sexo, pois não tinham realmente muito que conversar. E o erro masculino reside neste contexto: o esquecerem-se que a paixão eventualmente acaba ou se atenua, e que quando isso acontece, é bom que algo mais os una, ou o resultado é inevitavelmente afastamento e frustração.
As mulheres podem também deixar-se cegar pela paixão e escolher mal o candidato, mas acontece menos que com os homens. Ou se calhar temos menos expectativas (e muitas vezes menos amor-próprio), acabando por aceitar o outro tal como é. Mas no caso dos homens isto é mais a regra do que a excepção. De modo que quando o rapaz se queixou de que a moça não o completava e que, mais uma vez, tinha falhado, não teve direito a lá muita simpatia minha. Todos nos enganamos, mas coitadinho do crocodilo... De quem é a culpa se chora porque teve mais olhos que cabeça, uma e outra vez?

Quinta-feira, Julho 02, 2009

Como ficar bem nua



Há um programa na SIC gaja de que gosto particularmente, chamada How to Look Good Naked. A ideia é fazer as mulheres gostarem do seu corpo tal como é, sem ligarem a traumas e bocas da reacção. O que, convenhamos, é o que deve ser.
O curioso deste programa é ser apresentado por um dos antigos meninos do Queer Eye For The Straight Guy, aquele onde gays cheios de estilo davam uma ou outra noção de estilo, ética e etiqueta aos neanderthais dos homens hetero. Que sejam homens que, assumidamente NÃO estão interessados no nosso corpo dessa forma que nos ensinem a gostar dele e a respeitá-lo não deixa de ser curioso. Não seria mais lógico que fossem os Hetero, aqueles que estão mais interessados em tirar os devidos usufrutos do nosso corpo a incentivar-nos a gostar dele? Seria, mas não é. E a culpa é da arte, da filosofia e do complexo fálico masculino, que faz mais vítimas que a tuberculose na época vitoriana. Eu explico.
Começamos pelos gregos. Ora os gregos antigos são, como todos sabem, os responsáveis pelos nossos padrões de beleza actual. Toda a escultura, toda a pintura, toda a representação gráfica do corpo humano tem essa matriz. Que tenha sido feita por uma civilização que mantinha as mulheres fechadas em casa e considerava o amor perfeito o vivido entre dois homens (idealmente entre mestre e aluno) não é, de todo, irrelevante. Mas pese o que pese este argumento, a verdade é que foi a sua arte que nos serviu de modelo, privilegiando o corpo feminino de uma forma e não de outra, esbelto e não rechonchudo, simétrico e não assimétrico, perfeito e não imperfeito.
Quanto à filosofia, também os gregos têm muita culpa (e como a religião lhe absorveu os conceitos por extensão, não é mencionada): o espírito sobre a carne empurra o conceito filosófico para um corpo espiritual, livre de todas as coisas demasiado carnais, ou sensuais, como preferirem: ancas e seios generosos, altura e potência física.
Por detrás, ou melhor, por detrás não, inerente a este conceito está o trauma da supremacia fálica dos homens que os faz sentir-se ameaçados por mulheres maiores que eles, relegando-as, tanto quanto possível à subserviência e à fragilidade. Mulheres que podem ser protegidas, mais facilmente são dependentes e subservientes.
Por mais que os conceitos estéticos, filosóficos ou morais evoluam, esta verdade é a pedra angular da civilização ocidental.
O que todos estes conceitos elevados (misóginos, mas elevados) têm a ver com TV e ficar bem despida é que eles são os responsáveis, os vilões das nossas histórias, os maléficos que nos põem em pânico em frente a um espelho. Ficar nuas à frente de gente, mesmo tratando-se dos homens que amamos (ou pelo menos desejamos) é difícil para nós. Achamos sempre que podíamos ser melhores, comparamos-nos com as estátuas, os quadros, as fotos das revistas e encontramos-nos em falta. E isso assim não pode ser.
Eu gosto do meu corpo. É bom e forte e saudável e serve-me bem. Os olhos não funcionam lá muito bem, nada que não se resolva com óculos. As pernas levam-me onde quero ir, as mãos agarram e prendem, acariciam e fazem o que devem fazer, a cara tem todos os requisitos habituais, dois olhos e um nariz, uma boca, duas orelhas. Gosto de poder com ele. E quem não goste que meta uma rolha. Vai-se pôr a vida em suspenso por centímetros em sítios que dizem que em teoria não deviam ter esse tamanho? Por curvaturas e ângulos dos elementos que nos constituem? Por células acumuladas no sítio X e ausentes no sítio Y, que não pensam, não sentem, não são? É claro que não.
A lição que o How to Look Good Naked nos ensina é que para ficarmos bem nuas precisamos apenas de confiança. E selectividade para não partilharmos a nossa vida com os neanderthais que não aceitam o nosso corpo como somos. Todas as coisas são belas, todas as mulheres, todos os homens, se não tivermos uma versão restrita e convencional daquilo que constitui a beleza. Ok, não somos Vénus de Milo ou do Boticelli, mas podemos ser do Botero ou de Willendorf, que são arte e beleza igualmente. E depois, é a alma, é o que escolhemos fazer com esse aglomerado de células não-pensantes que constitui o nosso corpo que contam. Quem nos vê nuas deve gostar tanto de nós como quando estamos vestidas, não pelas características, mas pela intimidade, mas porque somos Nós, e de perto. E se isso acontecer, estaremos sempre bem nuas.

Domingo, Junho 28, 2009







Cucos


Era uma vez um cuco que não gostava de couves...

É engraçado as coisas de que nos lembramos quando passamos tempo com as crianças. Às vezes há um sentimento de maravilha a propósito daquilo que sabemos, e que podemos ensinar a uma mente espantosamente fresca e aberta, sedenta de saber. Outras vezes parece-me que quem aprende, quem relembra sou eu, coisas que sabia quando era pequena e já não sei, que a vida e o cinismo me apagou da memória. Mas considerações filosóficas à parte, a ideia para este texto ocorreu-me quando estava a cantar com a minha sobrinha a lengalenga do cuco que não gostava de couves.
Estávamos as duas na cozinha sobre os nossos respectivos iogurtes e cantarolávamos a história do cuco e das couves (ocorrência que não teve testemunhas, e ainda bem, porque o amor pela música na nossa família só é superado pela nossa total, completa e absoluta falta de sentido de ritmo e das noções mais básicas sobre afinação, que começa mal e piora quanto mais velhas somos). A meio da lengalenga comecei a pensar que o raio do cuco era teimoso, aliás, que todos os envolvidos eram teimosos como o raio, prontos a servir a teimosia do cuco em não comer as couves (e quem o pode culpar? Quer dizer, não é beringela, que odeio, mas convenhamos que tampouco é gelado de chocolate). Só quando apareceu a morte é que a coisa funcionou e o cuco avançou em relação ao malfadado prato de couves. O pensamento marginalmente inteligente que me ocorreu (e pontualmente tenho um ou dois) é que o confronto com a nossa mortalidade nos leva a fazer coisas que, normalmente não faríamos.

E ele ia sempre a dizer couves não hei-de comer...

Há uns tempos atrás encontrei uma antiga colega, que trabalhou comigo no meu primeiro ano de trabalho (e já lá vão onze anos), que me deu a conhecer o casamento de outros dois colegas de trabalho. O que seria normal, a colega era bem uns dez anos mais velha que eu então e as pessoas vão-se casando, é a vida, não fosse o twist de o casal ser, se não um casal impossível, no mínimo dos mínimos, improvável.
É verdade que os caminhos do amor são imprevisíveis ( e considerem isto a minha quota de referência das Bronte obrigatória), mas mesmo assim este é um casal que não estava a ver formar. Não que se detestassem ou entrassem em conflito, mas simplesmente porque um não tinha muito a ver com o outro. Diferentes gerações, diferentes backgrounds culturais, diferentes bússolas morais, diferentes expectativas a respeito de vida, amor, tudo. Eram duas pessoas que, apesar de conseguirem manter uma relação amigável não tinham aquilo que se diz chama entre eles. E estou a explicar isto para chegar ao meu ponto, por isso perdoem-me se me alongo um bocadinho. Tinham tanto a ver um com o outro como o cuco e as couves da canção.


mandou-se chamar a morte ... o cuco já quis comer as couves.


Conhecendo ambos, e as suas naturezas diversas, não posso deixar de pensar nas razões que os juntaram. Se fosse a alminha optimista que era há uns aninhos diria que o amor aparece onde menos se espera e às vezes cresce em vez de nos atingir como um raio. Mas tendo esta alma cínica e abrasiva que vocês conhecem e amam (ou pelo menos já estão habituados) não consigo deixar de pensar se não seria o hábito e a solidão, o medo de envelhecer sozinhos que os juntou.

Confrontarmos-nos com a nossa própria mortalidade, com todos os relógios biológicos que temos dentro a apitar de hora a hora como um relógio de cuco não é nada fácil. À medida que envelhecemos e repensamos as nossas escolhas, pensamos se não haveria coisas que deveríamos fazer de outra maneira, se não deveríamos repensar a forma como levamos a vida. Ou como se diz algures na bíblia (desculpem, não me lembro onde), os moinhos de deus moem devagar, mas moem finíssimo. E uma das coisas que é moída pelos ditos moinhos (que não são mais que o tempo) são os nossos ideais.

As ideias sobre o nosso homem ideal mudam e descem, aceitando como companheiros de vida homens que antes não aceitaríamos, cedendo em pontos que antes nunca cederíamos. Isto deixa-me um bocado aborrecida (e todos sabemos a falta desgraçada que me fazem coisas que me azedem o feitio): teremos nós que abraçar e tornar nosso lema esse hit imorredoiro dos Rolling Stones, You can't always get what you want, mesmo se no nosso caso é mais never que always? Parece que sim.


Era uma vez um cuco que já gostava de couves...

Quando acabámos a canção ( o que, sem dúvida, encheu de júbilo os vizinhos do lado e de cima e os seus animais de estimação), tentei pôr de lado a reflexão filosófica deprimente (e olhem que lembrar-me de todos os passos da lengalenga e reflectir sobre a minha vida amorosa e a de terceiros é um facto de multitasking). E a minha sobrinha tratou de me mostrar que de facto, é mais sábia que eu exclamando, entre as últimas colheradas de iogurte:

-Ó tia, que cuco tão tonto, as couves até são boas!

E sabem, se calhar a cachopa tem razão. Mas continuam a não ser gelado de chocolate.




Segunda-feira, Junho 22, 2009

Zebras

A malta que, como eu, está agora nos trinta é uma geração estranha: crescemos no pós 25 de Abril, na normalidade democrática mas não nos coibiu de ter uma educação, em muitas coisas, muito tradicional (e retrógrada). Culturalmente, estamos dependurados a meio dos 80 e dos 90, nem bem o cool dos new romantics, porque éramos muito novos, nem bem o angst grunge dos 90, porque estávamos a ficar demasiado crescidos. Somos aquilo que se chama zebras culturais, pareceríamos cavalos, se não fossem as riscas brancas, pareceríamos unicórnios, se não fossem as riscas pretas. Uns seres híbridos e desconfortáveis consigo mesmos.
Enquanto geração, não nos foi permitida a estabilidade social da geração anterior, a dos nossos pais, onde quase não havia mobilidade social e cada qual se mantinha, quase sem excepções na sua classe toda a vida, mas também não temos a flexibilidade social dos que nos seguirem, muito mais uniformes nos símbolos de status que nós.
Emocionalmente, também estamos a meio de uma coisa desconfortável, os últimos filhos de casamentos que duravam, e se não eram felizes, pelo menos eram duráveis e os que nos seguiram, para quem a finitude dos casamentos é um facto comum da vida, com menos dramas que o que seria de esperar.
Esta nossa natureza híbrida, nem bem no que Portugal foi, nem bem no que Portugal é, é, atrever-me-ia a dizer, uma das principais fontes das nossas angústias. Não somos os nossos pais, não poderíamos jamais ser como eles, mas também não conseguimos o blasé de quem está agora nos vintes, que é muito mais auto-indulgente consigo próprios. As nossas relações falham-nos nas mãos, os nossos empregos falham-nos na carteira e na estabilidade e estamos sempre no quase: quase felizes, quase satisfeitos, quase completos. Mas como diz o Sá Carneiro, não chegamos nem a asa, nem a brasa por causa desse quase.
Nas nossas experiências de vida, vemos que o que nos foi prometido na infância optimista do pós-25 de Abril onde os programas infantis tinham o toque do Sérgio Godinho (um luxo absoluto, os amigos do Gaspar e a árvore dos patafúrdios): nem a paz, nem o pão, nem a solidariedade, até nem mesmo a democracia. Também não somos tecnológicos o suficiente para encontrarmos na tecnologia, no mundo virtual, a nossa forma de oblivion pessoal. Que tempos estranhos são estes, em que muito pouco do que somos serve? Que tempos são estes onde estamos sempre um bocadinho ao largo do zeitgeist?
À nossa geração de zebras chamou Douglas Coupland X, a incógnita, e não se pode dizer que o epíteto não está bem atribuído: temos na nossa sina sermos uma espécie híbrida e misturada, entre a esperança e o desespero, entre o zen e o activismo, entre o whatever e o now. E às vezes pergunto-me se não seremos, tal como as zebras, uma espécie em vias de extinção, e no futuro as coisas serão mais definidas, ou a branco, ou a preto, conforme as perspectivas. O que será sempre mais fácil que este muro onde estamos, sem dúvida.