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Basicamente, minhas amigas, o problema dos homens de hoje, o serem fracos, indecisos, cobardolas e francamente mentirosos provém todo de um único e alarmante facto: o jantarem frequentemente frango de churrasco com batatas e arroz, a salada opcional, em vez de um dos pratos que alimentaram gerações de portugueses façanhudos. Pois uma feijoada à transmontana, pois uns pezinhos de coentrada, uma sopinha de pedra, uma dobrada, um rabo de boi ou esse epítome da gastronomia lusa, a chispalhada. Como é que um homem vai manter a fibra moral e os níveis de testosterona em alta quando só come frango grelhado? Aparentemente os níveis de colesterol e a masculinidade estão, de forma misteriosa mas inevitável, ligados, e um não pode subsistir sem o outro. As mulheres não, dizia o homem, que são outros pordentros e qualquer folhinha de alface as satisfaz. Mas um homem aceitar um jantar take away de frango (ou pizza, ou lasagna congelada, ou rissóis de compra) é uma autorização não verbal para ser subjugado pela mulher e se tornar num banana. Mal se dá conta está ele a dar banho aos miúdos, a sacar do fairy e do esfregão verde ou, indignidade última, a ir ele à churrasqueira buscar os frangos a caminho de casa para quando a esposa chegar já haver jantar pronto.
Claro que no fim da corrida de táxi, comecei a pensar. Que a chispalhada está a desaparecer das nossas mesas é inegável. Que muitas famílias por esse país fora jantam frango de churrasco e take away muitas noites por semana, uma verdade escrita na pedra como os dez mandamentos. Que os homens são, actualmente, fracos, mentirosos e indecisos é a justificação principal da existência deste blog. A questão é: estão, como disse o taxista, ligados por uma única linha lógica? Analisemos cada uma destes factores.
Que mulher da minha geração sabe preparar, de raiz, desde o pôr o feijão de molho, uma chispalhada? Eu arriscaria que poucas, a não ser que sejam cozinheiras profissionais e não tenham outro remédio. Crescemos com as nossas mães a fazê-lo, a demolhar o feijão, a deixar cozer as carnes num fogo lento e a impregnar a casa de cheiros familiares e reconfortantes (alarmantes para mim porque nunca gostei especialmente de feijão). Se as desgraçadas não tinham outra hipótese, porque não só não havia muita coisa em lata e usar o que havia em lata estava abaixo da sua dignidade, também não tinha muito mais que fazer todo o dia. Fazer refeições elaboradas alimentava a família de comida e carinho, mas também preenchia tédios. Sim, que entre a novela do meio-dia e a novela da noite, algo haveria que fazer, por isso fazia todo o sentido investir as cinco ou seis horas de trabalho puro para fazer a feijoada, a dobrada, o bacalhau, o arroz de pato. Nós não o sabemos fazer, mas mesmo que nos apeteça ser retro poucas vezes temos essa oportunidade. A mim, pelo menos, a última coisa que me apetece, quando chego a casa à noite, é enfiar-me umas quatro, qual quatro, duas horas na cozinha a fazer um prato tradicional, balhamedeus. Por isso sim, o taxista tem razão, os homens da minha geração não comem o mesmo que os da dele. Não temos tempo para fazer a chispalhada, muitas vezes nem para ver a novela, por isso comem frango de churrasco sim. Não somos como as nossas mães. Em compensação eles também não são como os nossos pais: demonstram menos propensão para deixar crescer a unha do dedo mindinho, para beber café com cheirinho, deixar crescer a bigodaça à pai de família e abrir os botões da camisa até ao umbigo e mais para ajudar em casa, por isso parece-me que o desaparecimento da chispalhada não é assim uma coisa tão negativa. Mas a verdade é que ainda não analisámos a fibra moral. Vamos lá a ver.
Têm os homens hoje menos fibra moral que os homens da geração dos nossos pais, por exemplo? A resposta é complexa. Se sim, por um lado, porque são pais mais presentes e cooperantes, maridos menos ausentes, menos autoritários, não por outro. A geração que nos antecedeu construiu relações sólidas, que duraram (e duram) várias décadas. Criaram filhos, educaram-nos, viram nascer netos e continuam lá, onde devem. Os homens da geração anterior tinham uma tradição de marialvismo machista que lhes justificava todas as puladelas de cerca. Os da nossa comprometem-se menos, mais tarde, e mesmo assim não é inaudito deixarem a família por meninas de vinte e poucos. Por isso, é ela por ela. É como a chispalhada: não nos exigem a refeição perfeita na mesa às oito e meia e comem o frango sem refilar, mas também temos menos garantias que fiquem lá em casa para jantar. Aí, a teoria é inconclusiva.
Assim, temos de nos perguntar se é assim tão grave que a chispalhada esteja em vias de extinção. Transmite a ideia errada às crianças que apenas conhecem a chispalhada como uma coisa que vem numa lata? Não me parece. A sociedade modificou-se imenso nos últimos trinta anos, libertando as mulheres de muitas coisas, incluindo do dever fastidioso da cozinha. Libertou também os homens, para o bem e para o mal. Por isso temos apenas de ver a chispalhada como uma vítima da dialéctica da história. Os miúdos desta geração nova que vêm a chispalhada como coisa de uma lata também aprendem que a mãe não tem tempo para tudo nem é a super-mulher, que o pai ajuda e que é assim é que deve ser. A chispalhada parece um preço pequeno a pagar por isso. E, de qualquer maneira, o frango tem menos colesterol. E isso, sim, não muda com o tempo.
Que mulher da minha geração sabe preparar, de raiz, desde o pôr o feijão de molho, uma chispalhada? Eu arriscaria que poucas, a não ser que sejam cozinheiras profissionais e não tenham outro remédio. Crescemos com as nossas mães a fazê-lo, a demolhar o feijão, a deixar cozer as carnes num fogo lento e a impregnar a casa de cheiros familiares e reconfortantes (alarmantes para mim porque nunca gostei especialmente de feijão). Se as desgraçadas não tinham outra hipótese, porque não só não havia muita coisa em lata e usar o que havia em lata estava abaixo da sua dignidade, também não tinha muito mais que fazer todo o dia. Fazer refeições elaboradas alimentava a família de comida e carinho, mas também preenchia tédios. Sim, que entre a novela do meio-dia e a novela da noite, algo haveria que fazer, por isso fazia todo o sentido investir as cinco ou seis horas de trabalho puro para fazer a feijoada, a dobrada, o bacalhau, o arroz de pato. Nós não o sabemos fazer, mas mesmo que nos apeteça ser retro poucas vezes temos essa oportunidade. A mim, pelo menos, a última coisa que me apetece, quando chego a casa à noite, é enfiar-me umas quatro, qual quatro, duas horas na cozinha a fazer um prato tradicional, balhamedeus. Por isso sim, o taxista tem razão, os homens da minha geração não comem o mesmo que os da dele. Não temos tempo para fazer a chispalhada, muitas vezes nem para ver a novela, por isso comem frango de churrasco sim. Não somos como as nossas mães. Em compensação eles também não são como os nossos pais: demonstram menos propensão para deixar crescer a unha do dedo mindinho, para beber café com cheirinho, deixar crescer a bigodaça à pai de família e abrir os botões da camisa até ao umbigo e mais para ajudar em casa, por isso parece-me que o desaparecimento da chispalhada não é assim uma coisa tão negativa. Mas a verdade é que ainda não analisámos a fibra moral. Vamos lá a ver.
Têm os homens hoje menos fibra moral que os homens da geração dos nossos pais, por exemplo? A resposta é complexa. Se sim, por um lado, porque são pais mais presentes e cooperantes, maridos menos ausentes, menos autoritários, não por outro. A geração que nos antecedeu construiu relações sólidas, que duraram (e duram) várias décadas. Criaram filhos, educaram-nos, viram nascer netos e continuam lá, onde devem. Os homens da geração anterior tinham uma tradição de marialvismo machista que lhes justificava todas as puladelas de cerca. Os da nossa comprometem-se menos, mais tarde, e mesmo assim não é inaudito deixarem a família por meninas de vinte e poucos. Por isso, é ela por ela. É como a chispalhada: não nos exigem a refeição perfeita na mesa às oito e meia e comem o frango sem refilar, mas também temos menos garantias que fiquem lá em casa para jantar. Aí, a teoria é inconclusiva.
Assim, temos de nos perguntar se é assim tão grave que a chispalhada esteja em vias de extinção. Transmite a ideia errada às crianças que apenas conhecem a chispalhada como uma coisa que vem numa lata? Não me parece. A sociedade modificou-se imenso nos últimos trinta anos, libertando as mulheres de muitas coisas, incluindo do dever fastidioso da cozinha. Libertou também os homens, para o bem e para o mal. Por isso temos apenas de ver a chispalhada como uma vítima da dialéctica da história. Os miúdos desta geração nova que vêm a chispalhada como coisa de uma lata também aprendem que a mãe não tem tempo para tudo nem é a super-mulher, que o pai ajuda e que é assim é que deve ser. A chispalhada parece um preço pequeno a pagar por isso. E, de qualquer maneira, o frango tem menos colesterol. E isso, sim, não muda com o tempo.
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