sexta-feira, novembro 23, 2007

Sansão e o pente dois

Se me dedicasse a comentar todas as histórias bíblicas que nos deixam mal vistas enquanto género na bíblia, provavelmente teria assunto para manter este blog por cerca de um ano e meio, mas não gosto de me repetir. Assim, vou só falar deste episódiozinho e já se volta ao programa de festas habitual. Hoje vamos falar de Sansão, Dalila e a obsessão dos homens com o seu cabelo.
A história da bíblia envolve um makeover que correu mal e tem sido interpretada como um aviso aos homens contra as mulheres em geral, que são umas falsas traidoras, seguindo a mesma linha ideológica estabelecida logo nas primeiras páginas com Eva. Nós, como mulheres cheias de recursos que somos, temos de pegar nos limões da vida e sacar do espremedor e do açúcar para a limonada e pensar que, basicamente, Sansão teve o que merecia: se se vão deixar levar pelas hormonas em vez de pela cabeça é bem feito que as coisas lhe corram mal.
De resto, a simbologia é interessante: porque é que o cabelo é o símbolo da masculinidade, da força, do poderio? Porque, simplesmente, é um símbolo de beleza, de uma certa beleza, e da juventude. Tal como Sansão, enquanto os homens têm cabelo sentem-se jovens, másculos e viris, capaz de tombar qualquer mocinha insuspeita no primeiro monte de feno disponível para uma reboladela vigorosa. Com todo o seu desprezo pela beleza e assim, que um homem vaidoso é sinal seguro de maricagem, eles conseguem ser tão vaidosos, ter o mesmo terror de envelhecer que nós. Senão pior.
Quando os homens chegam aos trinta e muitos, quarenta, na idade em que muitas mulheres começam a ficar bem com a sua pele ou, pelo contrário a encharcarem os neurónios em botox, os homens atravessam crises graves de meia-idade, tendo casos com mulheres mais jovens, disfarçando a falta de cabelo da mesma maneira que disfarçam que estão a envelhecer.
Por muito que me custe admitir, há alguns ténues resíduos de explicação psicológica para o comportamento obsessivamente galinheiro e cruel dos homens. Insegurança, medo de não serem homens o suficiente, terror de envelhecer e de morrer. Mas explicação não é, de forma nenhuma, desculpa. Porque não há desculpa para um homem nos seus quarenta ou cinquenta deixar a esposa de vinte anos para andar com meninas de metade da sua idade só para mostrar ao mundo que pode ainda, como Sansão, erguer colunas e derrubar templos.
Feitas todas as contas, os homens têm de fazer como nós, quando somos sensatas, com o passar do tempo: aceitar a passagem do tempo e a mudança dos nossos corpos em vez de arranjar maneiras ridículas de se manter jovens: nip-tucks para nós, perucas e namoradas troféu para eles. Da mesma maneira que Sansão recuperou a força, mas ficou muito mais sábio, também nós temos de aprender as nossas lições com a vida. Também eles. E poramordedeus,homens, se estão a perder cabelo tenham juízo, cortem a pente dois logo, não se ponham com filmes.

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