terça-feira, janeiro 23, 2007

Deusas, Musas e heroinas avulsas.



Este pode ser, sem qualquer problema, considerado o primeiro romance em que uma mulher é retratada de uma forma moderna, ou seja, sem cair facilmente na categoria ou de dona de casa ou de rameira, o que foi sempre uma tradição da literatura ocidental. E o mais engraçado é que foi escrito por um homem. É verdade que Gustave Flaubert sempre disse que Madame Bovary era ele, mas se calhar não estava errado de todo. Ao construir uma heroína que, de uma certa forma, pensa como um homem, está a admitir uma verdade óbvia: que não há diferenças óbvias entre o funcionamento mental das mulheres e dos homens, desde que seja dado ao sujeito uma certa liberdade para as escolhas dos seus próprios caminhos sem grandes restrições de meio.
O instinto maternal, ou aquilo que os homens consideram a tendência natural das mulheres para serem mais castas, mais "morais", se quiserem são ideias inerentes mais do meio que de uma pré-formatação inata ao sexo feminino. Dadas as condições ideais, nós, mulheres, podemos ser tão insatisfeitas como os homens em termos de romance, vagando de braços para braços. E sem mais dilemas morais que os da insatisfação do amor que promete mais que cumpre, forçando-nos sempre à busca de um amor melhor mais perfeito. Podemos considerar, se nos der para tal, que a Madame Bovary é uma espécie de D. Juan feminina, e apesar de não ter os números estrondosos de amantes do original, tem em comum com ele a mesma malaise d'être que a impele sempre em busca do amor a qualquer preço.
Claro que todas as histórias podem ser vistas de duas perspectivas diferentes, e esta Madame Bovary pode ser vista como o epítome da hiper-feminilidade, uma mulher mimada e caprichosa, educada para ser indolente na sua existência de burguesa, que leva a vida a sonhar com roupa nova e estilo, um estilo de vida chique e sofisticado muito longe daquilo que o marido, médico de província, lhe pode dar. Os amantes, como as roupas são apenas mas um acessório para o estilo, sempre insatisfatórios, sempre pífios, reles para o que ela espera deles.
Eu acho, e olhem que é a minha opinião, que a grande tragédia da vida dela é o nunca chegar a ser amada, amada como quer e precisa. É amada inadequadamente pelo marido, demasiado absorto, demasiado frágil, demasiado moldável, que a ama e não a compreende. Não é amada pelos amantes, apenas desejada, usada como uma coisa de prazer. Não sei se o desejo dela seria ser amada como igual, noção perfeitamente radical para o século XIX como o ainda é agora no século XXI. Talvez fosse essa a solução para ela. Ou talvez encontrar uma ocupação menos fútil que a de encontrar o chique de uma toilette nova. É dificil ver as coisas assim, a esta distância, e não fazer os juizos de valor fruto da minha educação laica e feminista. Mas a única coisa que retiro deste livro é um sentimento imenso de tristeza, que tristeza de existência vazia a dela, que desperdício...
Fazendo parte da escola realista, Flaubert pretendeu, com este livro, fazer uma espécie de ensaio vivo sobre a educação das mulheres, de como a ociosidade burguesa que tratava as mulheres como bibelots gerava todos os vícios e mais alguns. Em meu entender conseguiu mais que isso, conseguiu um estudo na natureza humana, na insatisfação que nos leva a fazer aquilo que nem nós entendemos, que nos leva a querer, para lá da razão, muito mais que iremos conseguir...

1 comentário:

elisa disse...

Li este livro há muito pouco tempo. E a minha primeira impressão foi que ela era um bocado mimada e chata!
Não tinha pensado sequer na outra perspectiva.
Vou pensar nisso:)!