domingo, outubro 28, 2007

A terapia de retalho


Todos nós sabemos que homens e mulheres têm uma cultura diferente, essa é uma verdade evidente até a um golfinho com inteligência abaixo da média. Não é nada de estranhar, então, que os nossos rituais de bonding- que é criação de laços em estrangeiro- sejam diferentes em forma, conteúdo e objectivos. Este é o tema da prédica de hoje, caros fiéis: a terapia de retalho como forma de bonding para mulheres modernas na sala e na cozinha.
Os homens, com os amigos, desenvolvem os seus rituais de criação de laços de forma física, em actividades que, preferencialmente envolvam actividade física de alguma forma. Se a actividade física envolver nódoas negras e emporcalhamento, melhor. Por exemplo, jogos de futebol onde deixam os equipamentos cheios de nódoas verdes e as canelas de nódoas negras, farras onde bebem até altas horas e voltam a casa com nódoas de aspecto suspeito e que é melhor nem perguntar de onde vêm ou reparação de equipamento mecânico/electrónico/informático (que não costuma adiantar grande coisa, mas ao menos os mantém ocupados). Nós já resolvemos as coisas de forma diferente. Os nossos rituais de ligação são muitíssimo mais civilizados, envolvendo frequentemente cartões de crédito. Querem coisa mais solidária, mais potencialmente criadora de laços que correr uma das cidades mais populosas do mundo e todas as suas oitocentas e cinquenta e três sapatarias à procura do par de sapatos perfeito? Não, claro que não.
Isto da terapia de retalho é uma coisa nova. Como filhas que somos da revolução, temos mães que não são nada consumistas. As nossas mães não se ligavam nas compras, porque, a bem dizer, não eram nem ricas, nem independentes, como donas-de casa que eram. Ligavam-se umas às outras na cozinha sobre panelas de doce de tomate, ou na sala com pontos de renda e padrões de camisolas. Aliás, ainda hoje o fazem. E apesar de se terem rendido aos hábitos consumistas, não são grandes companhias de compras. A minha mãe, por exemplo, demonstra algum entusiasmo nas compras de hipermercado para a casa, mas menos para, digamos, sapatos, roupas e acessórios. E para maquilhagem está-se simplesmente borrifando. Criamos laços na cozinha- o meu gosto e jeito para a cozinha foi transmitido por ela, melhor cozinheira que eu serei jamais- mas nas compras ou é em meia hora ou já está a apanhar seca. Não, para compras têm de ser amigas, e das boas.
Se um grupo de mulheres não consegue criar empatia numa sessão de compras, nunca o fará. Porque as compras são uma forma de exibir fragilidades e inseguranças. Nada mostra melhor a personalidade de uma mulher, as suas fraquezas e as suas forças que ir às compras. No pequeno espaço do provador estamos nuas em mais que um sentido. Tudo o que somos se torna por demais evidente-e discutido. E é uma prova de indiscutível confiança permitirmos alguém assistir a esse momento de fraqueza. A roupa não assenta. Não há o nosso número. Mostra a celulite/as ancas/a barriga, mostra os nossos defeitos... E uma boa amiga está ali para ser crítica e implacável. Nenhuma amiga digna desse nome deixa a amiga investir numa peça horrenda ou que não caia bem. É o dever dela apontar, e sem contemplações o que está bem na peça e o que está mal. E àquela que experimentou a peça horrenda ter desportivismo para aceitar e respeitar opiniões diversas. Mesmo quando caluniam de "objecto horrível digno da câmara de horrores da Madame Tussaud " a mala preta linda porque acabámos de nos apaixonar.
As compras são, para além de um exercício terapêutico anti depressivo ( nada anima mais que uns sapatinhos lindos ou um casaco tãaaaaaaaaaaaaaaao lindo que cai tão bem), uma prova de resistência. Na melhor das hipóteses, quanto dura um jogo de futebol de bonding masculino? Uma hora, 90 minutos? Nós, em 90 minutos, ainda mal estamos a aquecer. O que é que se vê numa mera horita e meia? Pff. Uma boa sessão de compras dura, no mínimo, meio-dia, um dia inteiro sob condições perfeitas. E a andar sempre de pé, de um lado para o outro, a vestir e despir coisas, muitas vezes em cima dos tacões todo dia. Mesmo se tiveram juízo e levaram sapatilhas ou sapatos baixos, é fisicamente extenuante. Queria ver os meninos a experimentar isto sem terem um enfarte depois da primeira hora.
Que as nossas amigas se aguentem connosco, em condições físicas e psicológicas duras como é uma terapia de retalho e não pensem em estrangular-nos e esconder o corpo num provador é prova que a amizade é forte e se vai aguentar, que está ali para durar. A partir deste momento estão prontas para a fase seguinte, que é a esteticista juntas. Mas isto é tema para outra prédica. Lá iremos.

quarta-feira, outubro 24, 2007

David Gandy (não costumo pôr modelos, mas, caramba, uma vez não são vezes)

Musas, deusas e heroinas avulsas



Inês Pereira e os cavalos que nos derrubam
Se havia alguma coisa Gil Vicente fazia bem, essa coisa era escrever papéis para mulheres práticas. Mais cómicas ou mais sérias, melhores ou piores pessoas, mas era gente prática. E que mais podia fazer uma mulher com inteligência e imaginação fazer num mundo de homens senão ser prática? Conformar-se o estritamente necessário e arranjar maneiras de satisfazer a dita inteligência e imaginação usando o sistema a seu favor? Nada, minhas amigas, ab-so-lu-ta-men-te nada. Uma mulher, minhas caras, tem de fazer pela vida.
De todas as maravilhosas mulheres esboçadas por Gil Vicente, nenhuma é tão prática, irónica e divertida como esta Inês Pereira. Esta rapariga faz pela vida. E bem. Claro que se quiserem ser puristas podem ver esta Inês Pereira como fútil e oportunista mas aviso desde já que hoje não estou para isso. Não. Isto hoje está para lhe elogiar o espírito prático, por isso vamos lá.
Toda a peça está baseada num provérbio sábio (claro, por alguma coisa é provérbio!): mais quero asno que me leve, que cavalo que me derrube. E a pele de quem a lição sai é a de Inês. Sendo ela moçoila solteira e de sangue quente, opta pelo pretendente bem-falante que lhe promete mundos e fundos, que se revela uma grande cavalgadura, em vez do meigo e gentil pretendente a atirar para o asno. Moral da história, o cavalo dá-lhe uma bela parelha de coices pelo que regressa ao asno, que asno ou não a deixa fazer o que lhe apetece. O que é, como já disse antes, de um pragmatismo admirável. A ironia do final da peça, em que ela convence o marido a carregá-la a ela, a duas lousas e ainda a cantar alegremente da sorte que tem por assim fazer não me escapa a mim, como não lhe escapa a ela: pois não é assim que as coisas se fazem? É, se quisermos ser práticas em vez de idealistas. Os ideais são tão bonitos, mas já têm causado por esse mundo fora mais que um amargo de boca.
Apesar de não aconselhar a ninguém a procurar activamente um asno que as leve, até porque, para uma mulher com inteligência e imaginação isso pode ser frustrante e entediante, um pouco do espírito prático que esta Inês demonstra não faz mal a ninguém. Até porque pelo que dá para perceber ela é uma junkie de amor tóxico em recuperação. A Inês Pereira é, se quiserem, no fim da peça, a antítese do amor tóxico. É a realidade levada até ao cinismo cruel, mas prático,de quem faz o que pode para levar a água ao seu moinho, seja isso ético ou não. E sou-lhes honesta, não posso dizer que não a compreenda: que atire a primeira pedra aquela que não ficou só um niquinho nada cínica depois de ser derrubada por uma besta. E mais não digo, que isto já é muito profundo.
"Inês
«Marido cuco me levades
E mais duas lousas.»
Pêro Marques
«Pois assi se fazem as cousas.»
Inês
«Bem sabedes vós, marido,
Quanto vos amo.
Sempre fostes percebido
Pera gamo.
Carregado ides, noss'amo,
Com duas lousas.»
Pêro Marques
«Pois assi se fazem as cousas»
Inês
«Bem sabedes vós, marido,
Quanto vos quero.
Sempre fostes percebido
Pera cervo.
Agora vos tomou o demo
Com duas lousas.»
Pêro Marques
«Pois assi se fazem as cousas.»
E assi se vão, e se acaba o dito Auto.

quinta-feira, outubro 18, 2007

Tratado da extinção da chispalhada nas mesas portuguesas

Eu ia com pressa e com um olho no burro e outro no cigano, ou como quem diz, com um no taxista e outro no semáforo, porque mais um vermelho e estava o comboio perdido. O taxista falava e eu fazia o meu melhor para não ligar, dizendo o pontual "sim", o tradicional "claro" e o polivalente "hum". Desde há uns anos que tenho como política estrita não falar com taxistas assim como quem fala sem ser com monossílabos. Eles têm opiniões tão iluminadas como certas minas de carvão a 300 m de profundidade e é preferível calar-se e chegar segura ao destino que armar-se em passionária e levar o taxista a irritar-se e a conduzir de forma mais temerária. Parecendo que não há muitas coisas a dizer-se em favor de chegar ao destino sem ter um ataque cardíaco. Mas pronto, pressa, política e vermelhos à parte, por entre hums de assentimento, naquele dia ouvi. E a teoria era interessante. A questão prende-se com frangos de aviário. Ou melhor ainda, com chispalhada. E a maneira como a supracitada tem vindo a extinguir-se das mesas portuguesas. Sei que parece uma sentença vinda da boca da lagarta azul da Alice no país das maravilhas dito assim, mas imbuída da luz da sabedoria de um taxista lisboeta, vou tentar explicar.
Basicamente, minhas amigas, o problema dos homens de hoje, o serem fracos, indecisos, cobardolas e francamente mentirosos provém todo de um único e alarmante facto: o jantarem frequentemente frango de churrasco com batatas e arroz, a salada opcional, em vez de um dos pratos que alimentaram gerações de portugueses façanhudos. Pois uma feijoada à transmontana, pois uns pezinhos de coentrada, uma sopinha de pedra, uma dobrada, um rabo de boi ou esse epítome da gastronomia lusa, a chispalhada. Como é que um homem vai manter a fibra moral e os níveis de testosterona em alta quando só come frango grelhado? Aparentemente os níveis de colesterol e a masculinidade estão, de forma misteriosa mas inevitável, ligados, e um não pode subsistir sem o outro. As mulheres não, dizia o homem, que são outros pordentros e qualquer folhinha de alface as satisfaz. Mas um homem aceitar um jantar take away de frango (ou pizza, ou lasagna congelada, ou rissóis de compra) é uma autorização não verbal para ser subjugado pela mulher e se tornar num banana. Mal se dá conta está ele a dar banho aos miúdos, a sacar do fairy e do esfregão verde ou, indignidade última, a ir ele à churrasqueira buscar os frangos a caminho de casa para quando a esposa chegar já haver jantar pronto.
Claro que no fim da corrida de táxi, comecei a pensar. Que a chispalhada está a desaparecer das nossas mesas é inegável. Que muitas famílias por esse país fora jantam frango de churrasco e take away muitas noites por semana, uma verdade escrita na pedra como os dez mandamentos. Que os homens são, actualmente, fracos, mentirosos e indecisos é a justificação principal da existência deste blog. A questão é: estão, como disse o taxista, ligados por uma única linha lógica? Analisemos cada uma destes factores.
Que mulher da minha geração sabe preparar, de raiz, desde o pôr o feijão de molho, uma chispalhada? Eu arriscaria que poucas, a não ser que sejam cozinheiras profissionais e não tenham outro remédio. Crescemos com as nossas mães a fazê-lo, a demolhar o feijão, a deixar cozer as carnes num fogo lento e a impregnar a casa de cheiros familiares e reconfortantes (alarmantes para mim porque nunca gostei especialmente de feijão). Se as desgraçadas não tinham outra hipótese, porque não só não havia muita coisa em lata e usar o que havia em lata estava abaixo da sua dignidade, também não tinha muito mais que fazer todo o dia. Fazer refeições elaboradas alimentava a família de comida e carinho, mas também preenchia tédios. Sim, que entre a novela do meio-dia e a novela da noite, algo haveria que fazer, por isso fazia todo o sentido investir as cinco ou seis horas de trabalho puro para fazer a feijoada, a dobrada, o bacalhau, o arroz de pato. Nós não o sabemos fazer, mas mesmo que nos apeteça ser retro poucas vezes temos essa oportunidade. A mim, pelo menos, a última coisa que me apetece, quando chego a casa à noite, é enfiar-me umas quatro, qual quatro, duas horas na cozinha a fazer um prato tradicional, balhamedeus. Por isso sim, o taxista tem razão, os homens da minha geração não comem o mesmo que os da dele. Não temos tempo para fazer a chispalhada, muitas vezes nem para ver a novela, por isso comem frango de churrasco sim. Não somos como as nossas mães. Em compensação eles também não são como os nossos pais: demonstram menos propensão para deixar crescer a unha do dedo mindinho, para beber café com cheirinho, deixar crescer a bigodaça à pai de família e abrir os botões da camisa até ao umbigo e mais para ajudar em casa, por isso parece-me que o desaparecimento da chispalhada não é assim uma coisa tão negativa. Mas a verdade é que ainda não analisámos a fibra moral. Vamos lá a ver.
Têm os homens hoje menos fibra moral que os homens da geração dos nossos pais, por exemplo? A resposta é complexa. Se sim, por um lado, porque são pais mais presentes e cooperantes, maridos menos ausentes, menos autoritários, não por outro. A geração que nos antecedeu construiu relações sólidas, que duraram (e duram) várias décadas. Criaram filhos, educaram-nos, viram nascer netos e continuam lá, onde devem. Os homens da geração anterior tinham uma tradição de marialvismo machista que lhes justificava todas as puladelas de cerca. Os da nossa comprometem-se menos, mais tarde, e mesmo assim não é inaudito deixarem a família por meninas de vinte e poucos. Por isso, é ela por ela. É como a chispalhada: não nos exigem a refeição perfeita na mesa às oito e meia e comem o frango sem refilar, mas também temos menos garantias que fiquem lá em casa para jantar. Aí, a teoria é inconclusiva.
Assim, temos de nos perguntar se é assim tão grave que a chispalhada esteja em vias de extinção. Transmite a ideia errada às crianças que apenas conhecem a chispalhada como uma coisa que vem numa lata? Não me parece. A sociedade modificou-se imenso nos últimos trinta anos, libertando as mulheres de muitas coisas, incluindo do dever fastidioso da cozinha. Libertou também os homens, para o bem e para o mal. Por isso temos apenas de ver a chispalhada como uma vítima da dialéctica da história. Os miúdos desta geração nova que vêm a chispalhada como coisa de uma lata também aprendem que a mãe não tem tempo para tudo nem é a super-mulher, que o pai ajuda e que é assim é que deve ser. A chispalhada parece um preço pequeno a pagar por isso. E, de qualquer maneira, o frango tem menos colesterol. E isso, sim, não muda com o tempo.

sexta-feira, outubro 12, 2007

A abordagem Shit Happens

Algumas pessoas ao ler o meu blog observaram que eu era assim, um bocado feminista (eu? Oh, o choque, o horror) e demasiado centrado nas mulheres, e que me devia dedicar assim a dar uns conselhos mais unissexo. Ora como eu sou uma mocinha que gosta de ir de encontro às criticas que lhe são feitas e, tanto quanto possível, satisfazer os leitores, hoje vou fazer isso mesmo. Mais que um conselho ou uma crítica, hoje vou expôr uma abordagem geral à vida, a minha pessoal, para proveito geral da nação gloriosa de Portugal, Ilhas e arredores.
A vida, caríssimos e caríssimas, não é justa. Nada. É incerta e irregular e a única certeza que podem ter dela é que, as cenas acontecem, ou, em estrangeiro, Shit Happens. Sem Kismet, Karma ou Fado, sem destinos ou entidades reguladoras acima de nós, as cenas acontecem estatisticamente aleatórias. Boas coisas a boas pessoas, más coisas a boas pessoas, boas coisas a más pessoas e outros quantos milhares de variações possíveis sobre este tema. Pode ser que o amor da vossa vida esteja com vocês até ao fim da vida e tenham muitos filhos e sejam felizes. Pode ser que o amor da vossa vida decida que quer passar a responder por Mercedes e andar com um gajo musculado de bom aspecto. Pode ser que vos caia uma varanda na cabeça e vos reduza a uma panqueca e seja o fim de tudo. A vida é assim, incontrolável, shit happens e nada podem contra isso. Nada. Podem seguir os caminhos seguros traçados: a escola certa, os amigos certos, os amores certos e isso, mesmo assim, não os protege do factor shit happens. A qualquer altura qualquer coisa de terrível ou maravilhoso pode acontecer que muda o rumo, quer queiram, quer não. Podem trazer amuletos, rezar aos santinhos, fazer seguros, traçar rotinas; são coisas tão úteis como matar uma galinha para curar uma dor de cabeça: dá trabalho e não está cientificamente provado que resulte. O que fazer então, para encontrar paz neste mundo em que shit happens a qualquer hora, em qualquer lugar, a qualquer pessoa?
Antes de mais, aceitar que as coisas acontecem e não temos controlo sobre elas. Sabendo a natureza aleatória das coisas, compreendam também que é natural, que muitas das cenas que acontecem vão ser injustas, vão morder como o caraças. As coisas boas não acontecem só a vocês e a quem gostam e parecem acontecer, com alarmante regularidade, a quem não merece mesmo nada e não há nada que possam fazer. Sim, as bonecas de vodoo também são tão eficazes como o sacrificio ritual da galinha negra para curar a enxaqueca. Com um bocadinho pequeno de cinismo, temos de aceitar isso. Mas não se deixem amargurar pela certeza que vão acontecer muitas merdas durante a vida. Tanto podem acontecer coisas boas como más. O melhor da vida , o mais interessante, é este factor de cartas aleatórias, tanto boas como más que a vida nos distribui e com as quais temos que jogar. Sim, podem ser reduzidos a uma papa informe por um piano em mudança como podem ser felizes, perfeita e maravilhosamente felizes porque está sol e é um lindo dia de outono e tudo corre bem. Viver é, deve ser esta aventura para onde vamos de sorriso, traga o que traga. E de onde, lamento dizê-lo e estragar o fim do filme aos mais distraídos, não vão sair vivos dela.

terça-feira, outubro 09, 2007

Eye Candy

Começa hoje na RTP1 "Os Tudor", cujo protagonista é esse que vêm aí em cima, Jonathan Rhys-Meyers. Cultivem-se, meninas, cultivem-se.

quinta-feira, outubro 04, 2007

O amor tóxico



Depois do último artigo, o do Dorian Grey, algumas pessoas perguntaram-me uma coisa muito simples: porquê? Porquê eu, a minha amiga C. e muitas outras amigas e conhecidas passámos anos a investir em relações com filhos da mãe como os descritos. A resposta resume-se em duas palavras: amor tóxico. Eu, bem como uma grande porção da população feminina, tenho uma propensão triste para o amor tóxico. O que é e como se lida com ele é o tópico exclusivo deste artigo.
É minha convicção pessoal que todos os amores são profundamente diferentes entre si. Também é minha convicção pessoal que todos os amores são semelhantes entre si, independentemente de aspectos exteriores: raça, cultura, tempo histórico etc. Porque o amor é como a humanidade: a mesma e ao mesmo tempo única e irrepetível. A linguagem do amor é a mesma, excluindo,claro, as nossas individualidades que nos torna diferentes. Mas claro que sentir é uma coisa, construir uma relação outra bem diferente. Sentir podemos sentir sozinhos (e quantas vezes acontece!), construir uma relação tem de ser a dois, não se pode fazer uma relação sem, ou uma relação contra. O facto de o tentarmos fazer é o que se chama o amor tóxico, aquele que em vez de libertar, prende. Aquele que em vez de nos tornar felizes nos torna miseráveis e incompletos.
Como raramente as pessoas são estúpidas e masoquistas a ponto de passar a vida a bater alegremente com a cabeça nas paredes, a propensão para o amor tóxico tem de ser uma coisa que vem de dentro de nós, não que nos chega por força das circunstâncias. Ninguém tem o karma negro de passar a vida a meter-se em enrascadas emocionais. Tem de ser uma espécie de compulsão motivada pelas nossas únicas e individuais neuroses.
Cada homem ou mulher ( esta questão da toxicidade transcende géneros, apesar de, estatisticamente, serem as mulheres as mais afectadas) tem as suas neuroses e motivações pessoais que o/a compele a arrastar relações infelizes. Mas apesar disso é possível traçar dois ou três grandes neuroses em que, de forma geral, todos os viciados em amor tóxico se inscrevem. Vamos lá a eles.
As nossas senhoras dos aflitos (super-homens, para os meninos). Este grande grupo, do qual sou membro com cartãozinho e cotas em dia, é basicamente daqueles que têm uma propensão anormal e doentia para seres fracos e com problemas. Para seres imperfeitos e traumatizados. E há que compreender que a ideia de podermos corrigir todas as injustiças que foram cometidas àquele ser especial e único dá um rush muito agradável. É bom sentir que precisam de nós. A falha nesta lógica é que ninguém é sempre forte, todos nós precisamos de um colo, um ombro para chorar uma vez por outra. Agora tentem apoiar-se numa pessoa frágil e traumatizada, mais, numa pessoa viciada em apoio e atenção para ver no que dá. É como uma árvore a tentar não cair agarrando-se à trepadeira que cresceu à sua volta: caem os dois e é um processo irreversível. A potencialidade para a coisa descambar numa espiral de infelicidade, necessidades insatisfeitas e dor é enorme. Resultado: sofrem os dois e a amargura que resulta deste embate é irreversível.
Os agradecidos- estes piquenos e piquenas, frequentemente com pouca auto-estima (e não temos todos) estão tão maravilhados com o ser maravilhoso e fantástico que lhe calhou na rifa que estão dispostos a ignorar todos os actos mesquinhos, todos os defeitos, todas as coisas que tornam o outro errado para eles. O resultado: tornar-se cada vez mais e mais dependente, ceder cada vez mais nas nossas convicções e opiniões até sermos uma sombra infeliz e maleável do que éramos. , meus amigos, ninguém é feliz a anular-se, simplesmente não é possível.
Os estetas- tentem interessar-se por alguém que é um sacaninha bonito e convencido para ver o resultado. Ou está demasiado interessado em si mesmo, o que o torna fútil e egoísta e, portanto incapaz de fazer seja quem for feliz, ou está demasiado interessado em tudo o que é rabo de saias(ou calças) para os deixar ter uma vida descansada e uma relação exclusiva. Se, em cima disto tudo for interesseiro e mercenário, é a cereja no bolo.
Como se foge ao amor tóxico? Com racionalidade e controlo. Não é uma luta fácil, mas tem de ser, pela nossa própria necessidade. A felicidade é, ao contrário das crenças populares, uma coisa incrivelmente simples. É sermos nós mesmos com o outro. Sem termos de nos virar do avesso, cortar partes, pormos cara forte e aguentar. Tudo o que não for isso, pode ser bom durante um tempo, mas nunca a longo prazo. As boas relações, como quase tudo na vida, são uma questão de equilíbrio, em que nenhuma das partes detém a supremacia durante muito tempo. A bondade, a beleza e a felicidade são questões de simetria, de dar e receber em doses semelhantes. E quando dermos por nós em relações desequilibradas para um lado ou para outro temos de parar e reflectir, fazer uma pausa. E quebrar o ciclo. As coisas tóxicas, tal como o nome indica, às vezes sabem bem. Mas nunca por nunca são saudáveis.

segunda-feira, outubro 01, 2007

Música



No dia mundial da música vou falar de música-música, de si por si mesma. Já falei aqui de música algumas vezes, sempre música aplicada à ideia XYZ. Mas a música não se aplica, sente-se.
Tudo na música é uma experiência sensorial, uma coisa carnal e física que se sente no corpo todo e ainda na alma, para troco. Toca-nos de mais forma que uma, servindo de fio de memória, de sonho, de aspiração, de passado e futuro ao mesmo tempo. Muito do que nós somos seria impensável sem música. Pelo menos do meu ponto de vista.
Acho que dá para perceber, pela introdução atabalhoada, que definir e delimitar a música é, para mim, uma tarefa complicada. Sou uma melómana assumida, e ouço de tudo, mas tudo, tudo, tudo mesmo. Mesmo música foleira e que envergonha porque não está na moda, nem se assume perante desconhecidos. Porque para mim o mundo cheio de música é melhor que o mundo vazio só por si, e só muito, muito raramente me apetece estar sozinha no silêncio reflexivo. Na verdade, consigo reflectir perfeitamente com música ligada, para além de que as minhas reflexões nunca duram horas. Se tenho de pensar e decidir alguma coisa faço-o rapidamente, não fico a remoer com ar intelectual dias, que seca! Mas voltemos à musica.
Suponho que diferentes pessoas sentem a música de forma diferente. Alguns não sentem mesmo. A minha dilecta irmã, por exemplo, sente o menos possível. Não é que deteste música, simplesmente não liga, nem precisa. Já eu não consigo conceber um mundo em que a música não anda por aí, não me enche os ouvidos e me faz reagir, para o bem e para o mal. De certa maneira, a música define-me e delimita-me, é quem eu sou. E hoje, no dia de hoje, é também um bocadinho o meu dia. Viva eu!