Olhe-se a coisa da perspectiva que se olhe, os homens ficaram com a parte boa do ponto de vista biológico. Eles, ao contrário de nós, podem ter filhos até que são velhos carecas, desdentados e sem interesse nenhum. Nós não. Nós vimos com prazo de validade, ou assim nos dizem. Somos válidas durante o tempo que podemos ter filhos, que é pouco, o tempo em que somos atraentes e desejáveis. Depois acabou. A partir dessa altura esperam de nós um ar gracioso na retirada, deixarmos o lugar às mais novas, mais frescas, mais férteis.Ah minhas amigas, é terrível este relógio na nossa cabeça, este tic tac que nos manda ter filhos depressa, que nos impele a sermos mães antes que seja tarde, antes que não os possamos ter mais. Passada aquela idade de casar, ter filhos, submeter-se devidamente ao que esperam de nós,estamos na prateleira, como panelas sem asa, já dizia o Gil Vicente.
É difícil não se deprimir nesta altura, não é? Entre o aniversário e o ano novo tudo me lembra de como a minha infância está mais longe, e eu mais velha.
É preciso pois, minhas caras, neste tempo de relógios, deixar de olhar para eles. Fazer um esforço por não cair na armadilha fácil que nos estendem ao chamar-nos velhas, ao dizer que o prazo está a chegar onde não valemos mais. Há mais maneiras de ser mãe que ter filhos, várias formas de ser mulher sem ter a frescura pré-adolescente que parecem preferir. Não estamos à venda, como as conservas, para passar de prazo, não somos um bife nem uma lata de sardinhas. Temos de parar de ser más para nós próprias, a torturar-nos com o que podemos ou não fazer, com a idade, ou o peso, ou o sexy que somos, com os rótulos que querem que tenhamos. Quando o relógio biológico as chatear muito, desliguem. E vivam, vivam como se fosse o último dia. É que pode ser, sabiam?
Feliz ano novo.




M Night Shyamalan era daqueles realizadores que, depois de um primeiro filme brilhante, foi decrescendo a qualidade dos filmes até estes serem umas nodoazitas. E disse era porque finalmente o homem redimiu-se com este excelente Lady In The Water.O homem voltou a por os twists de novo na moda. Voltou a pôr o suspense e o sobrenatural na moda. Talvez por isso agora toda a gente esperar que ele se mantenha no estilo e por isso tenham criticado tanto esta história de fadas tão extraordinária. Mas o homem não é obrigado a cingir-se ao mesmo estilo sempre. Nenhum cineasta o fez, porque o faria ele?De modos que agora volta com uma extraordinária fábula composta com cuidados de miniaturista, em que tudo encaixa.Não é um filme para todos os gostos, concedo, tem de se estar simultaneamente a esquecer os protótipos e acreditar neles. A suspension of disbelief tem de funcionar para a história de fadas, encontrando extraordinário no ordinário e não funcionar no que diz respeito ao que os heróis devem ser. Para começo de conversa, e apesar do protagonista ser a personagem de Paul Giamatti (soberbo), todas as suas personagens têm qualquer coisa de muito único e muito essencial à história. Nesse ponto faz-me lembrar, por exemplo o Amelie ou o Long Dimanche de Fiançailles do Jean-Pierre Jeunet. Tudo nesta história funciona como um requintado quebra-cabeças em que tudo faz sentido finalmente, sem pontas soltas, o que é bom porque detesto pontas soltas, dão comigo em doida.De qualquer forma é bom ver filmes com gente normal, com todas as cores, tamanhos e idades. Filmes com deusas loiras e vinte e poucos e deuses gregos musculados cansam como tudo. Mil vezes um Paul Giamatti, que apetece por ao colinho e levar para casa, hum hum hum hum... E a Bryce Dallas Howard, aqui verdadeiramente luminosa (o The Village nem aquenta nem arrefenta), que deve ser, seguramente, a melhor contribuição do Ron Howard para o cinema (mas assim, de longe).A não perder num DVD perto de si, já que só por muita sorte se apanha no cinema.