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segunda-feira, junho 22, 2009

Zebras

A malta que, como eu, está agora nos trinta é uma geração estranha: crescemos no pós 25 de Abril, na normalidade democrática mas não nos coibiu de ter uma educação, em muitas coisas, muito tradicional (e retrógrada). Culturalmente, estamos dependurados a meio dos 80 e dos 90, nem bem o cool dos new romantics, porque éramos muito novos, nem bem o angst grunge dos 90, porque estávamos a ficar demasiado crescidos. Somos aquilo que se chama zebras culturais, pareceríamos cavalos, se não fossem as riscas brancas, pareceríamos unicórnios, se não fossem as riscas pretas. Uns seres híbridos e desconfortáveis consigo mesmos.
Enquanto geração, não nos foi permitida a estabilidade social da geração anterior, a dos nossos pais, onde quase não havia mobilidade social e cada qual se mantinha, quase sem excepções na sua classe toda a vida, mas também não temos a flexibilidade social dos que nos seguirem, muito mais uniformes nos símbolos de status que nós.
Emocionalmente, também estamos a meio de uma coisa desconfortável, os últimos filhos de casamentos que duravam, e se não eram felizes, pelo menos eram duráveis e os que nos seguiram, para quem a finitude dos casamentos é um facto comum da vida, com menos dramas que o que seria de esperar.
Esta nossa natureza híbrida, nem bem no que Portugal foi, nem bem no que Portugal é, é, atrever-me-ia a dizer, uma das principais fontes das nossas angústias. Não somos os nossos pais, não poderíamos jamais ser como eles, mas também não conseguimos o blasé de quem está agora nos vintes, que é muito mais auto-indulgente consigo próprios. As nossas relações falham-nos nas mãos, os nossos empregos falham-nos na carteira e na estabilidade e estamos sempre no quase: quase felizes, quase satisfeitos, quase completos. Mas como diz o Sá Carneiro, não chegamos nem a asa, nem a brasa por causa desse quase.
Nas nossas experiências de vida, vemos que o que nos foi prometido na infância optimista do pós-25 de Abril onde os programas infantis tinham o toque do Sérgio Godinho (um luxo absoluto, os amigos do Gaspar e a árvore dos patafúrdios): nem a paz, nem o pão, nem a solidariedade, até nem mesmo a democracia. Também não somos tecnológicos o suficiente para encontrarmos na tecnologia, no mundo virtual, a nossa forma de oblivion pessoal. Que tempos estranhos são estes, em que muito pouco do que somos serve? Que tempos são estes onde estamos sempre um bocadinho ao largo do zeitgeist?
À nossa geração de zebras chamou Douglas Coupland X, a incógnita, e não se pode dizer que o epíteto não está bem atribuído: temos na nossa sina sermos uma espécie híbrida e misturada, entre a esperança e o desespero, entre o zen e o activismo, entre o whatever e o now. E às vezes pergunto-me se não seremos, tal como as zebras, uma espécie em vias de extinção, e no futuro as coisas serão mais definidas, ou a branco, ou a preto, conforme as perspectivas. O que será sempre mais fácil que este muro onde estamos, sem dúvida.

terça-feira, junho 09, 2009

XY



Pode-se dizer que sou uma estudiosa dos portadores do cromossoma Y há bem uns 25 anos. Precoce, eu sei, mas desde o dia em que reparei que o Esteban das misteriosas cidades do ouro era interessante que o fascínio não diminuiu. Quando muito, aumentou com os anos, tomando, como as mudanças dos Camões, sempre novas qualidades.
Acho que faz parte das nossas características genéticas esta tendência para a reflexão sobre os Y. A vida inteira os observamos, não com a abordagem fria e científica dos cientistas, mas antes com o interesse e as segundas intenções de um observador envolvido e apaixonado. Estou convencida que esta nossa capacidade de observação é uma ferramenta evolutiva fulcral. Precisamos de ser capazes de analisar acções e expressões sem a componente verbal envolvida, porque desta ferramenta depende a nossa sobrevivência: não só é vital interpretarmos as necessidades dos nossos filhos pequenos, quando não podem falar, como precisamos de de escolher um companheiro fiável para a criação dos respectivos.
Já do outro lado, os portadores do cromossoma Y têm outras características, outras ferramentas igualmente vitais para a sobrevivência, como a de se centrarem num ponto e serem directos e objectivos, mas a nossa de observação, nunca lhes notei.
Bloguista que sou interessada no que o outro lado diz, já li alguns blogs cujo enfoque é o mesmo que o meu, escritos por homens sobre mulheres. Mas devo confessar dos que li, mesmo bem escritos e interessantes, um de dois defeitos tinham: ou eram demasiado centrados numa só mulher, e não no género em geral, ou eram demasiado primários, superficiais. Não sei se isso tem a ver com a deficiente oxigenação do cérebro, posto que quando eles olham para nós o sangue tende a afluir-lhes para outras partes, se com características fisiológicas e genéticas que os impedem de nos observar e analisar com a mesma eficácia que nós o fazemos.
Disse a minha amiga Su, que em conversa com o falecido de uma amiga em comum, pode constatar que de facto eles não têm ideias muito realistas de como somos. Parte deve-se, como expliquei acima, a características físicas e genéticas, que explicam alguma coisa, mas não tudo, ou não existiria livre arbítrio. Mas não poderemos descartar a pesada influência da cultura em si. A imagem será sempre parcial e imperfeita, pelo motivo de não estarem predispostos e treinados para a observação detalhada, mas o maniqueísmo das representações masculinas das mulheres é igualmente condicionado pela cultura.
A cultura ocidental, aquela de que sei mais, porque é aquela onde me inscrevo tem, desde os finais do século XIX uma visão dual das mulheres, que permanece tão vital como a da representação do amor romântico sua contemporânea: as mulheres ou são amantes ou donas-de-casa, ou são coutrisaines ou ménagères, como diziam os defensores do naturalismo (e partindo das mesmas teorias de predisposição genética como eu neste texto). Não há, na cultura masculina, grande espaço para as gradações de cinzento que nos formam. Não conheço nenhuma mulher que seja puramente uma destas coisas, e olhem que por causa da minha profissão conheço muitas de todas as idades.
Poderemos culpar os cromossomas, poderemos culpar o Y onde em nós há X da falta de entendimento entre sexos? Das ideias fixas masculinas para quem somos ou cabras ou amorosas, ou santas ou vadias, ou ninfomaníacas ou puritanas sem espaço a meio? Não me parece. Influencia, mas não determina. Mas a verdade é que pretendo continuar a estudar o género pelo menos mais 25 anos, por tanto até lá pode ser que mude de ideias. Eu prometo que, como até aqui, me irei aplicar. Estudar sempre foi a minha coisa preferida.

segunda-feira, junho 01, 2009

Veneno


Já reparei, muitas vezes, em conversas com amigas, conhecidas, colegas de trabalho, que as mulheres são péssimas umas para as outras. E nem sequer estou a falar de situações em que se justifique, de rivalidade ou injustiça, mas de conversas rotineiras, do dia-a-dia. A quantidade de veneno que, enquanto género, dispensamos é avassaladora.
As nossas relações com os nossos pares, ou melhor, as nossas pares, são substancialmente diferentes das que os homens desenvolvem entre si. Li em qualquer parte que os homens se encaram como concorrentes, competidores, e nós encaramo-nos como rivais. E a diferença é que para os primeiros há regras e desportivismo e para as segundas guerra sem tréguas. Uma das coisas que sempre me irritou nos homens foi o sentido quase corporativo que demonstram, a lealdade para com os seus colegas de género. Mas por mais irritante que essa atitude em particular seja para nós, há que reconhecer que é muito mais construtiva que o nosso sistema de ferroadas de veneno constantes.
Evolutivamente há alguma desculpa para este comportamento para esta atitude: a nossa espécie tem um período muito longo em que as crianças estão dependentes dos mais velhos e competir por um macho que fique por perto para os ajudar a criar é mais que simplesmente um jogo agradável. Mas é engraçado de ver que nesta época em que supostamente as mulheres são independentes e não ter o dito macho por perto não é grande drama, a mesma competitividade continua a existir.
Quer seja uma atitude inscrita no nosso código genético, quer seja um meme, inscrito no código genético da nossa cultura, da nossa espécie, chegámos a esta época esclarecida em que continuamos a ser, e não há muitas maneiras delicadas de o dizer, umas cabras umas para as outras. Durante o século XIX, sobretudo na segunda metade, com o advento dos estudos sociais, acreditava-se que cabia às mulheres serem as guardiãs dos valores morais. Não aos homens, que eram seres falíveis e facilmente conduzidos pelos seus instintos mais baixos, mas às mulheres, por natureza mais castas e mais elevadas (cof cof cof). Esta atitude, por mais parva que pareça dita em voz alta (e deixem que refira aqui que não considero nenhum género superior ao outro), permanece saudável e fresca na nossa mente.
Somos demasiado exigentes connosco e com as nossas companheiras de género. Achamos que temos o dever moral de ser perfeitas, de fazer tudo bem: profissionais competentes, mães extremosas, amantes sensuais, tudo tem de ser absolutamente perfeito. O cabelo tem de estar arranjado, as unhas arranjadas, as rugas e o peso sob controlo, as roupas impecáveis. Não nos damos chance de relaxar, nem a quem está à nossa volta. Recusamo-nos a aceitar que precisamos de ajuda, ou sequer até de solidariedade. A irmandade feminina é, no geral, apenas um mito. Quando uma volta costas logo as outras estão prontas com um ou outro comentário venenoso. E é vergonhoso admitir, mas neste aspecto em particular os homens são melhores, muito melhores que nós.

sábado, maio 23, 2009

Unicórnios (II)


Para continuar com as minhas reflexões dos unicórnios, retomo onde parei: em Pessoa. O poeta é um fingidor, obviamente que tem de ser, mas quem diz poeta diz escritores no geral, particularmente no que diz respeito à categoria do romance, não ficção, que não é sinónima, do romance. Em português isso chama-se verosimilhança, mas a verdade é que prefiro o equivalente inglês, porque mais claro: suspension of disbelief.
Para apreciar uma história, qualquer tipo de história, temos de suspender a nossa descrença, o nosso cinismo natural e entrar no espírito da coisa. Assim estamos num universo onde existe imprinting de almas gémeas, ou no Portugal do século XVIII, onde amantes perfeitos caçam vontades, na corte arturiana onde Lancelot e Artur disputam Guinevere (apesar de gostar mais do spin que Marion Zimmer Bradley deu a esse mito em particular). Mas a questão é: depois de ler o livro, quando devemos retomar essa suspension of disbelief? Quando ligar de novo o nosso cinismozinho duramente ganho? E ainda mais importante, conseguimos fazê-lo?
A minha amiga Su passa a vida a dizer que certos romances deviam vir com as mesmas etiquetas que as garrafas de veneno, porque funcionam como um elemento tóxico na cabeça, no coração de quem os lê. E eu concordo com ela. É verdade que as histórias de amor romântico estão na génese de praticamente todas as civilizações que dominam a escrita. Mas todos nós sabemos qual a percentagem de amores felizes, verdadeiramente felizes que conhecemos, a estatística não é nada animadora. Disse antes que estas histórias servem de consolo e conforto num mundo cheio de variáveis que não controlamos. Mas não será também, sobretudo, uma forma de engano, de mentira bem intencionada e gira, como o pai-natal, que mais cedo ou mais tarde vamos ter de dar por falsa?
As civilizações orientais, até a nossa até ao século XIX tinham uma abordagem muito mais realista: acabar as histórias de amor em tragédia. Tristão e Isolda têm um fim infeliz, Lancelot e Guinevere também, Abelardo e Heloísa, na vida real seguem-lhe as pisadas. Assim deixam logo os leitores avisados do que esperar. É prático. Até os contos de fadas tinham, apesar dos fins felizes, contornos mais negros que aqueles fixados pelos Grimm ou por Hans Christian Andersen em texto. Associam, muito mais intimamente que agora os romances as duas forças motrizes da humanidade: Eros e Thanatos, amor e morte. Só uma classe como a burguesia protegida dos inícios do século XIX, como era a de Austen, se lembraria de diluir o vermelho em cor-de-rosa de casamentos adequados e finais felizes. E de fazer vingar essa versão educadinha das relações humanas.
Considerações sociológicas à parte, esta visão das coisas serve os nossos fins ou nem por isso? Será tóxica, como diz a Su? Será que nos faz, como continua a minha mana a dizer num momento de particular inspiração, correr atrás de touros porque os confundimos com unicórnios? Depende da vossa visão da humanidade.
Há quem acredite, intrinsecamente, no valor intrínseco do amor romântico, descartando falhanços amorosos como enganos até ao amor verdadeiro (que para além de tamanhos, parece que também traz selo de produto de origem). Outros há que pois nem por isso, e que preferem ver os falhanços como a ordem das coisas e o amor verdadeiro como unicórnios: só pertencente em histórias de crianças.
Somos uma espécie imperfeita. Nunca satisfeita, mas também incrivelmente resistente. A esperança é um daqueles valores tão humanos que nos define completamente. Somos humanos porque temos esperança. Se vale a pena continuar à caça de unicórnios ( mesmo que, segundo a mitologia própria só sejam capturados por virgens, que vão escasseando) ainda não sei. Mas se descobrir a resposta logo lhes digo.

terça-feira, maio 12, 2009

Unicórnios (I)


Agora está na moda o Twilight, mas houve outras antes; a Bridget Jones antes, as coisas do Paulo Coelho, as fotonovelas e os livros da Corin Tellado no tempo das nossas mães e outros romances mais atrás. Se o Harold Bloom não fosse a criatura pastilhenta que é, até poderia escrever sem qualquer problema qualquer coisa como "O Cânone do Romance", apesar da ideia de o ver debruçar-se sobre as obras da Nora Roberts ou da Amanda Quick ser risível.
O romance sempre esteve na moda, sempre estará. As obras actuais reescrevem e reinventam os clássicos do século XIX (e todos os paralelismos do Twilight com a Austen NÃO são pura coincidência), mas estes não são originais na técnica nem temática, bebendo influências das obras renascentistas, como Shakespeare, como o nosso Bernardim e estas, por sua vez as anteriores, os romances de cavalaria, até mesmo alguns aspectos de hagiografias medievais... E a linha estende-se até ao infinito, até aos primórdios da palavra escrita. Mesmo em culturas que não fazem parte do cânone estético ocidental também há esta permanência de narrativas românticas (no sentido original de romance, talvez, em vez da coisa cor-de-rosa para o que está díluido hoje o termo). Tudo o que precisamos, como dizem os imorredoiros Beatles, é amor.
Se estivermos virados para isso poderemos até traçar características comuns, tipo de personagens, tipo de episódios, mas a ideia é moça pura (merecedora), moço esforçado (merecedor), um grande amor (como se viesse este com etiquetas de S, M, L, XL ou XXL) e obstáculos, que podem ser ou não superados, que podem acabar com filhos ou com a morte, mas o amor não acaba. O amor aparece-nos assim, em todas as narrativas, não só como uma coisa rara, uma espécie de fenómeno feliz num mundo carregado de gente cínica, mas também como uma espécie de linha de horizonte, o ideal que vemos e, apesar de ser visível, nem sempre é atingível. É assim uma espécie de unicórnio, com a mesma mitologia que lhes é associada: força e pureza. E, desgraçadamente também se pode revelar um ser mitológico de que há relatos mas ninguém vivo tem provas concretas da sua existência.
Porque precisamos destes relatos de amor, deste unicórnio de mito, é uma coisa interessante: tem a ver com a propagação da espécie, pois do amor resultam, com sorte, criancinhas, mas vai para além disso. Acho, na minha humilde opinião que tem a ver com esperança, com conforto. Tal como o sangue do unicórnio dá, no Harry Potter, alento (apesar de ser uma meia-vida) àquele cujo o nome não será pronunciado, também as narrativas de amor servem de conforto às almas cínicas que, como eu, acham que a probabilidade das coisas acabarem em lágrimas e recriminações é mais alta que terminarem num happy end.
O romance é um produto de consumo quase exclusivamente feminino, mas também quem mais precisa de alento e consolo nestas coisas são as mulheres. Os homens sempre tiveram mais escolha, mais controlo sobre a sua vida emocional que as mulheres. Florentino Ariza passa cinquenta anos à espera da mulher que ama, mas teve muito mais liberdade sexual para procurar o seu contentamento de Fermina, para quem a monotonia, digo, monogamia era uma imposição sem apelo nem agravo. Para as mulheres o género romance é uma espécie de conforto, como gelados ou chocolate onde, num universo controlado, as coisas correm como seria de esperar. Pronto, se em vez de lerem Nora Roberts lerem Garcia Marquez as coisas nem sempre terminam bem, mas pelo menos sabemos com o que contamos, que é mais do que se pode dizer sobre a vida em geral, cheia de rasteiras e de facadas à traição.
Apesar de ser relegado para um canto pouco iluminado da história da literatura, poucos géneros literários subsistem tão bem como ele. Kafka é um excelente escritor, mas as massas pouco educadas (e apreciem a ironia) do mulherio que lê não encontra nele qualquer conforto. Ninguém encontra conforto nenhum numa história em que um indivíduo se transforma em barata ou que é preso sem se saber bem porquê.
Precisamos de romance. Todas as gerações têm referências diferentes, porque todas acham ser as primeiras a descobrir o amor, mas este está presente em todos os tempos, em todos os lugares. Podem ser mitos, mas como diz o nosso querido Fernando Pessoa:
"O mito é o nada que é tudo
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo –
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo
Este que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos braços.
Por não ter vindo foi vindo
E nos creou
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre
De nada, morre. "

segunda-feira, maio 04, 2009

Tess

Antes de eu nascer a minha mãe tinha decidido que eu ficaria com o nome da minha madrinha, Teresa. A minha madrinha, uma das irmãs da minha mãe, aprovava intensamente. Claro que todos os melhores planos estão fadados ao fracasso e Teresa é apenas uma agradável memória daquele que poderia ter sido o meu nome em lugar daquilo que ele é (e as minhas amigas, em comentários, estão TERMINANTEMENTE proibidas de o repetir). Se a minha madrinha ficou desapontada por não ver o seu nome perpetuado na geração seguinte nunca o demonstrou. Foi, pelo contrário uma presença constante ao longo da minha infância, e pode-se dizer que muito do que eu aprendi sobre a vida, os homens e o amor foi com ela e com as amigas dela. Sentada num canto (ao longo da minha infância ficar a um canto a ver e ouvir era um passatempo preferido, aliás, hoje também é) ouvia-as conversar sobre amores e desamores, propostas de casamento, diferentes pretendentes, amores ilícitos , mulheres abandonadas em escândalo and so on, and so on. Não que a vida no lugar onde cresci fosse assim tão excitante, a pulular de tensão sexual e amores secretos, mas as pessoas têm lá grandes imaginações e memórias ainda maiores. De qualquer forma, tinha a minha tia mais que assunto para falar, mesmo sem se prestar a sessões de má-língua , pois era bonita, namoradeira e alegre e as amigas eram muitas e complicadas. Nunca usaram de meias-palavras ou eufemismos piedosos nestas conversas, as coisas eram o que eram, mesmo com uma miúda a ouvir. Essa era a mentalidade do sítio onde cresci, sem papas na língua nem superprotecções às criancinhas. As coisas más que aconteciam serviam como advertência às gerações seguintes e pronto.
Quando li o Tess, e li-o bastante cedo, a sensação que tinha era que a conhecia, que já tinha ouvido esta história, ou muitas muito parecidas. No Portugal retrógrado e no seio da sociedade ultra-conservadora em que fui criada as histórias de mulheres seduzidas e abandonadas eram muitas, e terminavam sempre mal (como deviam, para que o mulherio não se pusesse com ideias de igualdade sexual e por aí adiante). Mas se conhecia a história, não conhecia o tom da mesma. Quase podia ouvir a minha tia e as amigas a comentar a história da rapariga seduzida pelo filho do patrão (facto, aliás, bastante corriqueiro) que engravidava. Mas o tom de compaixão era novo. A sensibilidade com que esta Tess é tratada é nova. E ler isto aos onze anos foi um passo claro no caminho de ser aquilo que sou hoje. Admirava Tess pela sua capacidade de amor, pela sua capacidade de sofrimento, despertando em mim uma empatia por seres em sofrimento que ainda hoje rege a minha forma de ser e estar.
Devo, aliás, dizer, que durante muito tempo me identifiquei com ela. Mas o conhecimento primário da vida que absorvi da minha tia Teresa e das suas histórias de Tess à portuguesa, a compaixão e identificação primária com aquele ser sofredor, constantemente mandado abaixo por golpes de vida madrasta sorvido do livro foram substituídos por emoções e reflexões mais complexas, menos a preto e branco. Aquilo que penso hoje sobre sofrimento, sobre vítimas indefesas é completamente diferente. Como diz São Paulo no célebre Capítulo 13 da Epístola aos Coríntios, quando éramos pequenos fazíamos coisas de meninos e pensávamos como meninos, mas não mais. Vi em Tess apenas a vítima indefesa, mas suponho que não tinha visto nela outra coisa, que vejo agora com outra maturidade: a capacidade de resistência a todos os golpes, a capacidade de sobrevivência. Não percebia, como percebo agora, que só somos vítimas por escolha. Sobreviver,superar é mais difícil que ser vítima, mas mais compensador. Ser vítima pesa a nós, pesa aos outros. Ser sobrevivente é aguentar-se nos seus próprios pés, de peito aberto para o que vier, mesmo que seja apenas mais um golpe, mais uma desilusão. E só isto, só esta lição, já vale a pena a leitura (e releitura) deste livro.

quarta-feira, abril 22, 2009

Stand by your man


Quando eu era adolescente e o meu conhecimento do inglês era pouco mais que rudimentar, esta música da Tammy Wynette, uma luminária do country, parecia-me muito bem. Pelo que eu percebia era acerca de ficarmos ao lado do nosso homem e apoiá-lo. Parecia-me, aliás, ainda hoje me parece, que ter lealdade com os homens que estão do nosso lado e nos amam é uma decisão eminentemente sábia. Só dali a uns anos, quando já tinha mais vocabulário é que percebi o alcance da coisa. A ideia era ser leal ao nosso homem, pois, mas o stand by your man era mais na onda do aguenta-te com o homem que te saiu na rifa, mesmo que te traia.
Ora vocês, se me têm lido com atenção sabem que desaprovo todo e qualquer comportamento que nos equipare a uma carpete, por iso este stand by your man causa-me engulhos e, como diz a minha avó, gómitos. E gómitos porque tolerar todas as traições de um homem só porque, coitado, é homem e o pénis que vem de origem o impede de forma clara de pensar como deve ser não é comportamento que se aceite. Digo eu, pelo menos.
Vá, eu sei perfeitamente que, como nunca fui casada não sei o que faz falta, os sacrifícios necessários para manter um casamento, mas deixem-me que lhes diga, mesmo assim acho que tenho uma boa ideia. Tolerar chifres gigantescos não é uma coisa que eu considere que deva estar no rol daquilo que constitui uma boa esposa.
Os homens não percebem porque é que nós ficamos tão aborrecidas com traições (sim, porque andarem a trocar flúidos corporais com pessoas alheias ao serviço é quase uma boa acção recomendada aos escuteiros, como ajudar velhinhas a atravessar a rua), não compreendem porque isso corresponde à quebra de votos e promessas que eu, pelo menos, levo muito a sério, e ao jogar da lealdade para o lixo. E a lealdade, aliada à honestidade, deve ser a base de uma relação, ou então não vale a pena.
Nunca gostei de relações desiqulibradas, em que um gosta mais que o outro, em que um pode mais que o outro, em que um manda mais que o outro. Ser leal implica lealdade do outro lado, ser fiel, fidelidade, ser honesto, honestidade. Uma relação em que um faz o que quer e se safa das consequências porque, coitado, já naceu assim e o outro, ou melhor, a outra cala, engole e perdoa é das coisas mais desiquilibrada, mais injustas que pode haver.
De modos que continuo a gostar da música, mas cheguei à conclusão bíblica de que da árvore do conhecimento só brota a desilusão. Enfim. Já se se conseguisse convencer a Tammy Wynette a canta a música sem uns quantos versos seleccionados era outra conversa. Ora leiam:

"sometimes its hard to be a woman
giving all your love to just one man
you'll have bad times
and he'll have good times
doing things you don't understand
but if you love him
please forgive him
even though hes hard to understand
and if you love him, oh be proud of him
'cause after all hes just a man

stand by your man
give him two arms to cling to
and something warm to come to
when the nights are cold and lonely
stand by your man
and show the world you'll love him
keep giving all the love you can
stand by your man

and if you love him
oh be proud of him
'cause after all hes just a man

stand by your man
give him two arms to cling to
and something warm to come to
when the nights are cold and lonely
stand by your man
and show the world you love him
and keep giving all the love you can
stand by your man "

sexta-feira, abril 17, 2009

Sensibilidade e bom senso


Aqui há muitos anos, um dos meus ex disse-me que era uma pena um cérebro tão bom como o meu estar na minha pessoa. Aparentemente o meu cérebro sofisticado e sensível (nas palavras dele), não combinava com o resto de mim. Qualquer coisa na linha do computador última geração no cockpit de um tractor ucraniano. A única razão porque o dito ex ainda vive e eu não vos estou a escrever estas linhas do meu laptop em casa e não de um dos nossos excelentes estabelecimentos prisionais a meio da minha pena por homicídio é o facto de, na altura, eu ser ainda muito novinha, tinha dezoito aninhos na altura, e, por conseguinte, era menos activista que sou agora. Mas esse foi apenas um dos muitos momentos ao longo da minha vida que cimentaram em mim uma convicção sólida como pedra: os homens não têm sensibilidade nenhuma a lidar com as mulheres, o mesmo se passando com o bom senso.
Como é que os homens chegam a adultos sem uma pinga de sensibilidade é fácil de perceber: na nossa sociedade ela é-lhe sugada impiedosamente desde que são pequenos. Podem vir com tretas new age e moderninhas, mas continua a ser verdade no universo masculino que um homem não chora (muito menos dá gritinhos, balhamedeus) , não tem conversas sobre sentimentos seja com quem for e nunca, mas nunca, por nunca dá parte de fraco frente a uma mulher. Isso vai contra o código masculino. Como é que chegam sem bom senso já é mais difícil. Afinal, eles é que é suposto serem os frios e os racionais, não sobrecarregados com hormonas e emoções como nós, mulheres (yeah, right).
A minha mãe chama-me Nossa Senhora dos Aflitos, porque desde que me lembre tenho um ouvido para as minhas amigas com problemas. É portanto fácil de perceber que, para além das minhas experiências, tenho como termos de comparação as de todas as minhas amigas (e são bastantes). A conclusão é sempre a mesma: sensibilidade e bom senso são bens escassos entre a espécie masculina.
Num caso concreto, por exemplo, o marido de uma amiga pediu-lhe o divórcio num sábado (aos gritos), na segunda estava no advogado a querer vender tudo e ficar com a guarda do filho de ambos. Que sensibilidade é essa, de desapossar completamente a mãe do filho sem qualquer contemplação, sem lhe dar sequer tempo para lidar com o golpe inesperado? Mas para além deste caso extremo, as provas da falta de sensibilidade masculina acumulam-se: é a agressão com o peso e a falta de juventude, a falta de solidariedade na gestão de tempo com filhos e tarefas domésticas, a maneira sumária com que nos descartam, a quererem-se ver livres de nós como se fossemos um carro usado.
Como disse no texto anterior, não sabem lidar connosco. Talvez por causa da maneira como o cérebro deles está artilhado, talvez pela cultura masculina que lhes exige serem frios e racionais, mas era de esperar que conseguissem lidar connosco melhor. Com mais não sei se compaixão, se sensibilidade se quê. Talvez devessem ver ou ler algumas das nossas referências culturais, como o livro da Jane Austen que dá título ao texto. Não sei, pode ser que os ajudasse, e a nós também, por arrastamento.

sábado, abril 04, 2009

O efeito Rebecca


Quando li o Rebecca pela primeira vez, pareceu-me um livro terrivelmente romântico. O herói nobre, a heroína sofredora e inocente, a ex malévola, todos os ingredientes ideais para um romance cor-de-rosa que alimentasse os sonhos de uma adolescente impressionável, que não sabia nada da vida. Em releituras posteriores fui mudando de ideias, agora já só o acho um romance terrivelmente terrível. A primeira leitura, feita por uma moralidade a preto-e-branco deu lugar a segundas e terceiras em que as personagens foram ganhando novas complexidades, mais profundidade, de modo que os arquétipos tão bem cortados das personagens deixaram de ter os contornos assim tão certos e imediatos. Porque havia o herói de ser automaticamente nobre, ou a heroína inocente, ou a ex malévola? Aliás, porque razão é eu todas as ex hão-de ser malévolas ? Que raio motiva as pessoas a tornar as ex as bruxas da maçã da Branca de Neve?
É notória a má fama que as ex têm na literatura, a começar logo pela maluquinha do sótão da Jane Eyre, mas a Rebecca serve como arquétipo porque aquilo que no passado era apenas oponente, uma espécie e barreira amorfa, ou uma criatura a lamentar, porque não do juízo todo, é aqui uma vilã completa sem qualquer tipo de qualidade redentora, manipulando o feliz casal até depois da morte. O que, considerando todas as coisas é bastante injusto, ou não?
Para Rebecca ser um livro escrito por uma mulher, poderia ter sido um pouco mais bondoso com as personagens femininas. A protagonista não tem nome até ganhar o do marido, não tem opiniões a não ser as dele, não existe sem ele. A governanta solteirona não poderia pingar mais estereótipos sobre solteironas se o quisesse, sendo amarga, ressentida, fanática. Só uma leitura mais perversa do inteligente Hitchcock lhe colocou um subtexto de homoerotismo e lhe deu um pouco de interesse. A irmã do protagonista é uma espécie de sopeira com título, mostrando aquilo que seria o arquétipo da mulher perfeita: calma, desarranjada, assexuada. Mas Rebecca, bem, Rebecca é a que é pior tratada, não havendo defeito a que não escape: pérfida, materialista, amoral, venal, emocionalmente impotente, cruel, de uma sexualidade refinada, aberta e, sobretudo, livre. É uma desgraça à espera de acontecer, caindo em cima do pobre Max deWinter como uma praga de gafanhotos, deixando só os ramos nus e frágeis da sua estrutura emocional. Ou pelo menos esta é a versão que nos contam, que nos querem fazer acreditar. A questão é o porquê, porquê este overkill? Haveria necessidade de um retrato a cores tão negras? Porquê?
Rebecca revela, e com muita clareza, as nossas neuroses face às ex, e por nossas não falo só das dos homens, das das mulheres também. Que os homens sejam neuróticos é natural, afinal não sabem lidar connosco. Reagem quase sempre como não devem, não conseguem acabar relações com a diplomacia ou a sensibilidade que deus deu a uma osga e sentem-se indignados quando despertam a nossa fúria. O que lhes dá a desculpa perfeita para pintar as ex como vilãs e sentirem-se melhores consigo mesmos. Vêm, é fácil de ver e perceber as suas motivações, é até lógico, previsível e mensurável. Já nós é uma questão completamente diferente. É que vocês vêm, não é só uma mulher de cada vez que os homens não entendem, eles entendem-nos ainda menos em grupo. Não percebem as complexidades das nossas interacções, das intrincadas teias de pesos e influências que estabelecemos.
A mulher média é insegura, certo? Certo. Então imaginem o cenário. O actual namorado deixou para trás uma ex que não compreendeu e com quem não soube lidar, sentindo-se injustiçado. É lógico que vai logo contar à actual que a anterior não prestava , porque, benza-os deus, precisam todos de colinho. Pode dizer pouco, pode dizer muito, mas o que quer que diga vai ser sempre pouco. É verdade que vai validar a existência da actual, que em comparação ao negro da ex ganha aos pontos, mais boazinha, mais compreensiva etc. etc. Mas, e isto é que o nosso homem não percebe, é que as mulheres, a esmagadora maioria das mulheres são inseguras, por isso a sensação de superioridade não vai durar muito. Se a actual é mais nova, inveja na outra a experiência, a sofisticação, se é mais velha, inveja na outra a juventude. A outra acaba por ter sempre o direito de precedência, e se por acaso tem filhos do actual, tem um lugar inalienável e há-de ser uma ameaça a minar a segurança da actual, mesmo que já tenham passado vinte anos. E esta complexidade há-de sempre escapar ao homem médio, que cairá na mesma armadilha uma e outra e outra vez e dar por si com uma colecção de ex que se odeiam mutuamente e o odeiam igualmente e só se uniriam em alguma circunstância na vida se essa incluísse comer-lhe o fígado. E aí seriam todas igualmente calmas, boazinhas e compreensivas.
A mim, para dizer verdade, todo este efeito Rebecca me cansa e entristece. Não cheguei a esta idade isenta de culpas (graças a deus) ou de defeitos (como se vê pela figura em anexo), mas ser pintada como uma psicótica desequilibrada por um ou outro ex com menos amor à pele sempre me pareceu eminentemente injusto. É que, compreendam, sou uma ex absolutamente exemplar: não melgo, não atrapalho, não escrevo, não telefono (e não posso ser responsabilizada se continuam vir aos meus blogs para se aborrecerem, era escusado, mas é problema deles, e facilmente resolvido). Sou uma senhora. O que significa que nunca estou lá para me defender, ou para desfazer minhocas na cabeça das pós-adolescentes complicadas por quem sou trocada rotineiramente. E apesar do meu coração se encher muitas vezes de compaixão por elas , qualquer aviso, qualquer comentário, por mais solidário seria sempre mal interpretado, dando apenas mais consistência aos rumores de que sou uma cabra psicótica e vingativa que existe exclusivamente para lhes fazer uma vida num inferno. O que me aborrece profundamente, pois não me limito a pregar a solidariedade feminina, pratico-a.
Serial mind-fuckers hão-de existir sempre. Como expliquei cima, às vezes não o fazem sequer de propósito, não conseguem evitar. Mas o efeito Rebecca não é inevitável. Antes de mais, há que pensar que ele origina de falta de autoconfiança e inseguranças. Uma mulher resolvida e segura de quem e como é não se deixa intimidar por ex nenhuma, por mais intimidante que esta possa ser. Depois, se acreditam piamente em todas as pequenas coisas que saem da adorável boquinha do vosso amado, estão a pedi-las. Acreditam piamente que a relação anterior foi um pesadelo do principio ao fim ? Só se esta só tiver durado meia-hora. Os homens são comodistas, se são estão mal mudam-se logo para onde estão melhor. Acreditam que a culpa foi só dela? Então as relações só se vivem a um? Só um é que controla, que determina como é vivida? Bullshit. Sejam espertinhas, sim? E deixem as Rebeccas descansadas nas vidas delas. Afinal, estão mortas, ou não? Vão por mim que eu é que sei. Been there, done that, got the t-shirt to prove it. Mesmo.

sexta-feira, março 13, 2009

Pucca, Garu e Schopenhauer


É engraçado que podemos encontrar na vida lições em tudo, até nos desenhos animados. Não, a sério, não fazem ideia do que eu aprendo à volta da minha sobrinha e dos diversos canais infantis que ela prefere. Sei, por exemplo, que o Noddy é um canalha sem nome por andar a brincar com as emoções da ursa Teresa sem se comprometer, mantendo a coisa na linha cobarde da amizade.Sei que a Dora a exploradora é uma versão infantil da Lara Croft e isso é um excelente modelo para as miúdas (ao contrário da galinha tonta da Docinho de Morango). E sei que o Ruca desperta falsas expectativas nas miúdas porque as induz na falsa sensação que os rapazes são amorosos, bem-educados e preocupados com o bem-estar alheio (e das sogras já agora, aquela mãe de namorado é definitivamente ficção). Mas a lição mais interessante (e importante), que mais que sobre o amor, é sobre a vida, é a história de amor não correspondido entre Pucca e Garu.
Pucca ama Garu, que não ama Pucca. Pucca não desiste e persegue Garu. Garu evita-a, quando não foge dela activamente. Pucca força-o e arranca-lhe um beijo. Garu faz um ar horrorizado. no episódio seguinte, voltaram à estaca zero. Se isto as faz lembrar dos padrões de relações presentes ou passadas não é pura coincidência. Reflictam e aprendam as lições.
A lição número um é que a persistência nem sempre compensa, nem é boa ideia. Pucca está constantemente a escorregar, voltando ao ponto de partida cada vez que tenta trepar pela montanha da indiferença de Garu. Logo, às vezes é melhor perguntarmo-nos se o beijo do final do episódio compensa as nódoas negras no rabo de cairmos outra vez precisamente no lugar de onde partimos. Pucca é mimada e caprichosa, por isso perguntem-se a vocês mesmas se a motivação por detrás da persistência não será um defeito.
A lição número dois é a lição da maturidade. Pucca tem dez anos, Garu doze. Se andam a repetir padrões de comportamento de pré-adolescentes, então talvez esteja na altura de crescer.
A lição número três, e mais importante, é a de que o amor é fácil, natural, inevitável e não pode, não deve ser forçado. Shopenhauer compara o amor- à força que atrai homens a mulheres (ou homens a homens e mulheres a mulheres, que eu não sou preconceituosa ) a um tornado, uma coisa muito mais forte que nós, muito difícil de superar. Segundo ele, que tem um pessimismo muitíssimo saudável que ecoa no meu, se a força não está dirigida para nós não podemos levar a mal. Mas podemos-e devemos- seguir em frente, face a outra que esteja na nossa direcção. O amor, diziam os romanos, é como a tosse- não se pode esconder muito tempo. Se do outro lado não há nem um espirrinho miserável... bom, percebem a ideia.
O amor não deve ser uma corrida de obstáculos, ou uma sessão de alpinismo, ou uma missão impossível. Às vezes tudo se reduz simplesmente ao ser possível ou não. Se temos de lutar, arranjar ardis, manobrar tudo à nossa volta para um bocado de atenção de alguém que, feitas todas as contas, não quer estar connosco, mais nos vale a pena deixar de lutar e encontrar alguém que não ache os nossos beijos um nojo ou um sacrifício. E se isto não é uma lição valiosa a inferir pelas nossas crianças, não sei o que será.

terça-feira, março 03, 2009

Orgulho e preconceito



O que têm em comum uma trintona (trintinha, vá) de mau feitio, uma miúda de vinte e poucos, a Keira Knightley e uma escritora que viveu há duzentos anos em comum? Aparentemente, nada. Mas têm. Todas concordam (ou concordariam, se fosse possível responderem todas ao mesmo inquérito) em três pontos essenciais:

a) Orgulho e preconceito é um bom livro;

b) há muito menos Mr. Darcys por aí que aqueles que seria de desejar;

c) a roupa masculina da regência era eminentemente sexy e era capaz de transformar muitos Mr. Absolutely NOT em Mr. Definitely Maybe.
Esta concordância, facilmente verificável, é surpreendente. São gerações diferentes, culturas diferentes, bem, séculos diferentes mesmo. Mas o Orgulho e Preconceito, como diriam as minhas alunas de décimo ano, rula.
Há um motivo para os clássicos serem clássicos, para histórias com séculos, às vezes milénios, continuarem a ser lidas/vistas/recontadas: são aquelas histórias que tocam directamente na psique humana e transcendem épocas e culturas. São normalmente histórias que lidam com os mais básicos dos instintos humanos, como o amor filial no rei Lear, o sonho e o ridículo de D. Quixote e, como é disso que o texto fala, o amor de Darcy (Fitzwilliam para os amigos) e Elizabeth (Lizzie para a matilha de manas).
Que uma história cheia de caças frívolas a noivos ricos e bailes de aldeia tenha sobrevivido com a mesma frescura inicial a duzentos anos e inúmeras gerações de mulheres a viver em sítios diferentes, culturas diferentes, personalidades diferentes só é difícil de perceber se não tivermos em conta primeiro o génio e a finíssima ironia de Jane Austen e depois a intemporalidade dos sentimentos que esta descreve.
Uma discussão recorrente entre o meu grupo de amigas (tão book geeks como eu) sobre qual o melhor herói clássico cessa assim que Darcy é mencionado: Heathcliff tem o sex appeal dos meninos maus mas é bruto e vingativo, Rochester é intenso e apaixonado, mas, bem, fechou a ex no sótão (nunca um lugar confortável para se estar) e com Max de Winter ficamos frustradas por ter a ex que teve e ser assombrado por ela (que também não é uma coisa boa com a qual lidar). Já com Darcy, vemos-lhe os defeitos logo de chofre (o que deveria ser LEI para todos os homens, para saber com o que contamos), mas passa o resto do livro a redimir-se deles.
Acho que um dos motivos que torna este livro intemporal é os obstáculos a superar não virem tanto de fora, mas de dentro. Não é o dinheiro e quezílias de família, como em O monte dos vendavais, não é uma mulher maluca, como na Jane Eyre, não é a obsessão pelo passado, como em Rebecca que os separa, mas sim os defeitos de ambos.
É o orgulho e os julgamentos apressados, baseados em primeiras impressões, os preconceitos e arrogância dos dois que os separa. E a superação dos próprios defeitos que os torna melhores pessoas é que lhes permite mandar para trás das costas expectativas próprias e de terceiros do que é correcto e fazer o que desejam, que é ficar juntos. E ficam juntos como iguais: Darcy não subjuga Elizabeth à sua vontade, nem Elizabeth o reduz a uma papa informe moldável aos seus desejos: mais que amor encontraram um no outro a mais rara das combinações, o respeito e a admiração mútua. Se isto não é o amor perfeito, não sei o que será. E é por isso que a Jane Austen, eu, a minha prima toda pragmática, as minhas alunas de décimo, a Keira Knightley achamos o livro tão bom. Ou acharíamos, se pudéssemos todas responder ao inquérito.
Quanto à roupa masculina regência, sugiro-lhes a belíssima adaptação do livro feita pela BBC há uns anos, com o Colin Firth como Darcy. Vejam e depois digam se não concordam comigo.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Neandertal, S.F.F.



Eu sei que é estranho e custa-me admitir, é uma daquelas coisas que vai contra a própria natureza, mas o facto não pode ser escamoteado: às vezes os homens têm razão: nós não sabemos o que queremos.
Pronto, passámos milénios a civilizar os homens e a lutar pelo nosso lugar, a torná-los mais sensíveis que os brutamontes que nos arrastavam pelos cabelos para a sua caverna. O pior é que depois isso não nos satisfaz e enche-nos dos nossos piores instintos: os homens estão a ficar sensíveis demais. Pelo menos eu acho.
O meu problema com os homens muito sensíveis é simples: com o meu feitio, passo-lhes por cima como um rolo compressor. O que é chato. É que reparem, não gosto de ser cruel com as pessoas, mas não tenho em mim o tacto de refrear o sarcasmo e quando dou por mim já estou a ser má e arrastei os desgraçados para a beira das lágrimas. Se eu acho bom e saudável que os homens dêem vazão às suas emoções, não gosto de saber que fui eu que provoquei a torneirinha. Mas que querem, não tenho pachorra para cenas emocionais. E quando tenho, desviem-se porque realmente não estou em posse das minhas faculdades mentais como deve ser e vai sair bomba. Mas não tornemos o texto sobre mim, será que as mulheres, no geral acham que os homens estão demasiado sensíveis? Ah pois claro.
Esta opinião é mais instintiva e subliminar que consciente: acreditamos que gostamos de homens sensíveis e conversas longas sobre o que cada um sente, mas na prática isso não é bem assim. Se repararem, os protagonistas da chick lit, aquela que toca na psique feminina colectiva ( ou não venderia tão bem) são homens decididos e pouco dados a discussõezinhas do género " acho que devíamos discutir o rumo da nossa relação e a profundidade de sentimentos". São machos Alfa, que tomam decisões e assumem o controlo, arrastando-nos, literal ou figurativamente, para a caverna de onde saíram. São os antípodas dos homens sensíveis. Estou convencida que isto de ser emancipada e liberada acaba por não neutralizar os nossos instintos primitivos de, basicamente, nos rendermos a alguém que tome conta de nós. Instintos esses com que algumas de nós se sentem mais confortáveis que outras. E depois, estes instintos, (mesmo que não de nos deixarmos subjugar) vão de encontro á nossa própria autoestima: consciente e inconscientemente gostamos de ser valorizadas, de saber que valemos o suficiente para sermos disputadas, que somos desejadas (e amadas) o suficiente para nos levarem para a sua vida por todos os meios necessários, incluindo um pouco de força (agora não interpretem isto como desculpa para violência doméstica, porque não é).
Um homem sensível está demasiado centrado no que ele próprio sente para nos mostrar claramente esse desejo e essa vontade. Um homem sensível não percebe que há qualquer coisa como o ser possível ser sensível demais. Conversam connosco até à morte, jogam jogos emocionais connosco até nos darem cabo da nossa paciência e do coração, sem perceberem aquilo que é uma verdade transcendente a séculos e civilizações: às vezes aquilo que queremos, mais, que precisamos, é ser arrastadas até à caverna sem nos deixar lugar a dúvidas, de ser, como a Scarlett, levadas escadas acima e ponto final. Ser neandertal nem sempre é uma coisa má, acreditem.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Mulheres


Gosto muito deste filme de 1939 (agora refeito, com a Meg Ryan e Eva Mendes, é que nem falemos DISSO). E acho que gosto tanto dele não tanto porque se trata de um hino ao feminismo mas sim porque é um retrato bastante exacto daquilo que nós somos. E acreditem que nós só muito raramente somos um hino ao feminismo. Como diz o cartaz do filme, é tudo por causa de homens. E é.
Naquilo que o filme acerta, e acerta em cheio, é o facto de não aparecer um único homem. Apesar de serem o tema constante das conversas e o catalisador de todas as suas acções eles aparecem fora do enquadramento, não visíveis, não presentes. O que é uma boa descrição do estado de coisas. É como se fossem mais um dos nossos objectos, para amar e disputar, para pôr de lado ou manipular, para exibir e usar, estranhamente inanimados.
As mulheres deste filme vão passando de ambiente em ambiente, do quarto para o ginásio, para a esteticista e para a casa de amigas, para as lojas e para as passagens de modelo num universo estanque e redutor concentrando todas as suas energias no uso mais conveniente a dar aos objectos da sua afeição. E se formos bem a ver, movimentos feministas e queimas de soutiens das nossas mães á parte, não é também assim um bocado hoje?
A tradicional esfera feminina é pequena, frustrante e brutal. Somos más umas para as outras, pérfidas. Até eu que sou feminista dos oito costados não resisto, uma vez por outra a uma crueldadezinha, uma farpa certeira em quem me aborrece. Com quem estamos acaba, muitas vezes, por nos definir e por nos reduzir a um denominador comum: a esposa de, a namorada de, a mãe de... É como se começássemos e acabássemos nesse mundo de papelão de relações e estética e nada mais houvesse para além disso.
As revistas femininas deixam-me doente, pelo que raramente as compro. Até as revistas fúteis dos homens como a FHM são mais interessantes que as nossas, que não superam a parvoíce de conselhos de relações e palmadinhas nas costas, a moda e a maquilhagem com uma ou outra treta pseudo-espiritual new age como cura de cristais ou aromaterapia. Aparentemente, não é suposto preocupar-nos com mais, e sabem todos os santinhos a cara que a dona da papelaria faz quando compro a Visão ou o The Economist.
Diz o Dr. Phil (vá, sou gaja o suficiente para lhe ver o programa uma vez por outra) que ensinamos aos outros como tratar-nos. Se concentrarmos todo o nosso tempo, energia e vontade nesse circulozinho tipicamente feminino retratado no filme seremos eternamente tratadas como parvinhas fúteis e descartáveis. E sabem uma coisa? Merecemos. Temos de ser mais, muito mais que meramente mulheres, concentradas no habitual, no lugar-comum do nosso sexo. Temos de nos esforçar por ser seres humanos completos, conscientes de nós e do mundo que nos rodeia. E temos de deixar de tratar os homens menos como um elemento inerte- que domina, mas não participa numa espécie de parceria em pé de igualdade de dois seres conscientes de livre vontade. Porque se não o fizermos só nos resta a indignidade deste mundo fútil, onde aquilo que temos de esperar para o futuro é andar a competir com trapos e kg das outras e a lutar, impiedosamente, pela posse de homens. O que, admitamos, é um bocado morte cerebral.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Michelle
























NÃO é a Laura Bush. Também NÃO é a Hilary. É ela. Com defeitos e forças. E tem a expressão preocupada, apreensiva da minha mãe quando eu ou a minha irmã vivemos um momento importante. Aquele ar de quem torce incondicionalmente por alguém que ama. Só por isso, já gosto dela.

terça-feira, janeiro 27, 2009

Lua Nova


Estava a ler outro dia o Troblogdita e um dos textos dele, mais especificamente este http://troblogdita.blogspot.com/2009/01/agora-o-futuro.html deu-me ideia de escrever sobre este assunto: está a maneira como encaramos o fim das relações relacionada com a etapa da vida em que nos encontramos ou há todo um outro tipo de factores a influir?
A não ser que tenham andado metidos e metidas numa gaveta (o que soa interessante de uma forma ligeiramente claustrofóbica) já devem ter ouvido da tetralogia Twilight. No segundo livro (desculpem o spoiler) o par romântico separa-se e o título, lua nova, é uma referência a uma ausência, à escuridão total que aparece na noite no lugar da lua que deveria estar lá e não está. A narradora fica praticamente devastada, funcionando apenas no mínimo, no piloto automático, mas era como se tivesse sido passada por cima com um rolo compressor, como nos cartoons e tivesse ficado apenas da espessura de uma folha de papel (e a imagética do coyote do Beep Beep dá sempre jeito). É verdade que a rapariguinha tem no livro apenas dezassete (ou dezoito) anos, mas terá sido a idade factor determinante no fenómeno rolo compressor? É capaz.
Quando somos adolescentes, ou emocionalmente novas (o que não é necessariamente a mesma coisa) sentimos tudo muito intensamente, demasiado intensamente até, pode-se argumentar. Os amores são todos gigantescos, as amarguras e as desilusões devastadoras. Quando mais, a não ser na adolescência, achamos que ele é a lua e a sua ausência é uma escuridão de noite sem estrelas (e desculpem-me a piroseira da figura de estilo)? Ninguém, a não ser adolescentes ultras sensíveis pensaria em morrer de amor, ou o Romeu e Julieta terminaria de forma muuuuuuuuuuuuuuuito diferente… Senão vejam a imagética do mestre:

" But soft! What light through yonder window breaks?
It is the East and Juliet is the sun!
Arise fair sun and kill the envious moon.
It is the east, and Juliet is the sun "

E depois no fim, na cena de morte:

“Poison, I see, hath been his timeless end:
O churl! drunk all, and left no friendly drop
To help me after? I will kiss thy lips;
Haply some poison yet doth hang on them,
To make die with a restorative.”

Claro que quando crescemos a coisa muda, e muito, de figura. O que é uma coisa boa. Em vez de morrermos de amor, sobrevivemos-lhe. Com um bocado de sorte conseguimos até ter a atitude saudável do troblogdita e ver as coisas mais em termos de distância, de linhas paralelas de perto, que não se tocam, do que como a Stepenie Meyer (por via do Shakespeare) descreveu, como as noites escuras da lua nova.
O ponto, parece-me, é mais complexo que a idade e a maturidade (falei acima de maturidade emocional, e não por acaso). Falta juntar à equação outro aspecto importante na síndrome Lua Nova: a intensidade. Apesar de eu ser EXTREMAMENTE relutante em sequer ABORDAR a temática dos grandes amores e das almas gémeas, parece-me que a intensidade especifica da relação vai tornar-lhe o fim mais lua nova ou mais rectas paralelas e adeusinho e boa sorte. Mas esta intensidade não pode ser o factor determinante da forma como levamos a vida. Se já leram um ou dois (ou trezentos) dos meus posts sabem o valor que eu dou à racionalidade na nossa vida sentimental. Quer dizer, sejamos práticos, quantas vezes na vida se consegue encarar com desportivismo o sermos passados pelo proverbial rolo compressor, ou levar com a parte de cima de um planalto rochoso como o coyote do beep beep? Eu nunca fiz a estatística, mas calculo que a pessoa média começa a ficar um tantinho nada aborrecida disso lá para a terceira ou quarta vez, não?
Como eu respondi ao troblogdita, dizer adeusinho e boa sorte e agora somos amiguinhos é de uma grandeza civilizacional não acessível a todos os mortais, assim como meditação transcendental ou o décimo den do cinturão negro do Karate. Exige força, determinação e um poder de concentração que a maioria de nós não tem porque nos distraímos facilmente com pequenos detalhes como dah, estamos a ser passados a ferro pelo rolo compressor. Mas é possível lá chegar. Eventualmente. Não sermos para sempre as teenagers new moon que não funcionam. Como diz o êxito easy listening pop: you can get it if you really want it (Jimmy Cliff rules, lol). Keep trying.

sábado, janeiro 24, 2009

Jekyll e Hyde


A história é recorrente, nada original. Já muitas vezes a ouvi da boca de amigas e confidentes, até de conhecidas. Quando nos juntamos não falamos sempre de homens, mas a conversa vai muitas vezes parar ao mistério insondável que são, por vezes, os homens na nossa vida. Contava-me a F. que tinha conhecido um homem e patati patata, estava tudo a correr tudo muito bem e sem aviso nenhum, foi tudo por água abaixo. É que parecia outra pessoa, um estranho completo e hostil que queria apenas afastar-se, e o mais rapidamente possível. Era como se fosse o Dr. Jekyll e, sem aviso, transmutado em Mr. Hyde.
Esta história ecoou bem dentro da minha cabeça; como disse antes, não é nova e até a conheço mais ou menos em primeira mão. Que explicação poderá estar por detrás desta transformação, aparentemente inexplicável? O que levará os homens a ser duas coisas tão diferentes?
Uma coisa é certa: uma droga misteriosa que separa o bem do mal dentro dos homens não é com certeza, apesar da resposta não andar longe. Não é nada por acaso que este livro tenha feito parte do Syllabus de uma disciplina sobre literatura feminista/feminina vitoriana. A cultura masculina é tão repressiva como a feminina, apesar de já o ter sido mais no passado (mas isso também a feminina, porque a malta sempre evolui um bocadinho, não?). Temos, de um lado o Dr. Jeckyll, se quiserem, o perfeito cavalheiro, que toma conta das damas e a leva a abismos de paixão com o seu sex appeal e uma incrível habilidade entre os lençóis. Esta é a imagem quimicamente pura do bem. Do outro lado temos o mal: os bandalhos que fazem chorar as mulheres, que as abandonam à própria sorte etc. Esse será a versão Hyde. E, compreensivelmente nenhum homem deseja ser Hyde e todos se esforçam para ser Jekyll, o que, realisticamente, não é possível.
Ninguém manda naquilo que sente. Não é possível. Aquilo em que mandamos, e por conseguinte podemos controlar é como agimos. E aqui entra a teoria feminista Jeckyll e Hyde. Muitos homens não querem, não estão preparados nem são capazes de manter um relacionamento sério. Mas infelizmente para nós também não estão preparados para nos dizer a verdade. É que ser honestos deixa-os mal vistos. Assim vão fingindo aquilo que não sentem, fazendo promessas que não têm intenções de cumprir e o vapor das suas frustrações vai-se acumulando até rebentar numa explosão Hyde. Ou melhor, a nós parece-nos uma transformação quase sobrenatural de bonzinho em besta, mas na verdade é apenas um revelar daquilo que já existia mas estava escondido.
Homens, fofos, façam-nos um favor: não nos façam favores. Pensem pop dos anos 80 e adiram ao cruel to be kind. É que andar a fingir-se de bonzinhos e que a relação está bem de saúde só vai causar-vos a vós e a nós sofrimento desnecessário. Fazem ideia do destrutivo para o nosso ego que é sentir a voar dos nossos pés? Ah pois.

sábado, janeiro 10, 2009

Intimidade

Quando o assunto chega ao definir de intimidade, veremos que homens e mulheres pensam em coisas diferentes. Feitas as devidas ressalvas para os casos excepcionais, que, aliás, costumam confirmar a regra, as mulheres concebem a intimidade num plano preferencialmente emocional, enquanto que os homens a equacionam num plano físico.
Conhecer uma pessoa, fazer parte da suas intimidade implica, no ponto de vista feminino, saber de detalhes dos gostos e preferência, das opções de vida, ideais, planos futuros. A intimidade física deriva desta, e será tão melhor quanto o for a emocional. Já no caso dos homens, procuram tanto a intimidade física como tentam fugir da emocional. Por um lado, porque intimidade e sexo, para eles, costumam ser uma e a mesma coisa. Por outro, consideram a intimidade emocional uma espécie de prisão, o cortar dos devaneios sexuais com o maior número de mulheres possível, uma espécie de algemas.
Já vi acontecer muitas vezes por aí uma relação ir muito bem e, subitamente, ele vai-se embora como se o perseguisse um enxame de abelhas assassinas. A explicação anda muitas vezes na linha do clássico, "Eu não te mereço", do "és boa demais para mim", mas sobretudo, e muito mais importante , do "as coisas estavam a ficar sérias demais", "a relação estava demasiado intensa" ou " queres mais do que posso dar". E apesar de podermos chamar a estas desculpas cretinice, cobardia ou falta de fibra moral, o nome técnico é medo de intimidade.
Apesar de perceber, em teoria a explicação psicologica inconsciente por detrás destes comportamentos, confesso ter uma certa dificuldade em justificar e aceitar esta posição. A maioria das mulheres percebem que bom sexo é só bom sexo, e que não há forçosamente intimidade nenhuma por detrás dele. Confrontadas com isso, ou procuram aprofundar a relação, de modo a bom sexo se aliar à intimidade emocional, ou desistem para outras paragens porque o homem em questão não vale a pena. No caso dos homens bom sexo é uma boa relação, e a partir do momento em que a mulher com quem estão a procura aprofundar passa a ser altura de partir. Os céus não permitam que alguém lhes conheça os medos e limitações, que se torne íntima ou peça esse anátema da vida de solteiro, a exclusividade.
O filme de Patrice Chéreau , Intimidade, baseado em contos de Hanif Kureishi, levanta uma permissa interessante: se tivermos encontros sexuais com um estranho regularmente, isso passa a ser uma relação? O que diz de nós se preferirmos isso às relações convencionais? Até que ponto seria (será?) compensador este tipo de relacionamento?

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Hermenêutica e semiótica

"O texto é um piquenique onde o autor leva as palavras, e os leitores, o sentido."

Humberto Eco

Não há ninguém melhor em interpretação, ninguém mais versado em hermenêutica e semiótica que as mulheres, apaixonadas ou não. Estou, aliás convencida que o famoso sexto sentido feminino nada mais é que o famoso sexto sentido feminino nada mais é que uma refinada capacidade de interpretação de subtis sentidos nas acções e nos sinais do mundo que nos rodeia. Somos, diga-se de passagem, treinadas para isso desde pequenas, para vermos o padrão nas coisas e nas palavras, o significado de expressões faciais, de gestos, de acções. É suposto sermos empáticas, atentas aquilo que nos rodeia. E se não o somos de pequenas, somos de grandes, no amor, somos enquanto mães a interpretar gestos e necessidades dos nossos bebés, pequenos demais para se exprimir verbalmente.
A nossa capacidade hermenêutica é um imperativo biológico, essencial à continuidade da espécie. Sendo os homens aquilo que são, uns grunhos, se não fosse a nossa capacidade hermenêutica as relações nunca começariam, ou se começassem nunca se desenvolveriam ou perdurariam para além da primitiva forma de comunicação que é o sexo. É a hermenêutica, ou como diz o Carlos Tê na voz dos Clã, a nossa competência para amar, que mantêm a nossa civilização coesa e funcional.
Como nenhum instrumento humano é perfeito, também a hermenêutica está cheia de falhas e armadilhas. É aqui que entram as palavras do Humberto Eco: se o texto (ou enunciado verbal) é um piquenique para onde nós levamos o sentido, então todas as interpretações estarão correctas, certo? Pois não, minhas amigas, e não sabem o prazer que me dá poder usar a natureza masculina para refutar uma teoria de interpretação literária que sempre achei uma treta, nem todas as interpretações estão certas.
As mulheres, sobretudo as apaixonadas, vêm com toda a atenção todos os enunciados orais (conversas de treta), todos os textos (SMS e afins), todos os gestos, pausas e hesitações, para, a partir destes aferir o estado da relação. Constroem, a partir desta interpretação uma teoria do estado das coisas, modificando o seu comportamento para responder às necessidades deste modelo teórico. Infelizmente para elas, nem sempre estão correctas, espalhando-se ao comprido. Lá porque uma coisa é verosímil não significa que seja verdadeira (ora toma, Humberto!).
É, aliás, muito fácil de ver que os próprios homens conhecem esta nossa fraqueza hermenêutica e a exploram, dizendo e fazendo aquilo que os vai conduzir ao efeito desejado, nomeadamente a reboladela no feno, de preferência sem mais complicações. Não se esqueçam que as canções do bandido, se são eficazes, por alguma coisa é.
De qualquer forma, os nossos erros interpretativos nem sempre se devem a sermos manipuladas pelos homens. Muitas vezes é apenas wishful thinking da nossa parte e pura determinação em fazer a realidade caber nos nossos desejos. Se assim não fosse, se fossemos sempre eficazes e correctas não haveria amores não correspondidos nem mal-entendidos trágicos nenhuns. Como já explanei num texto anterior (a teoria KISS), nós temos a mania de complicar e encontrar sentidos e explicações ocultas na realidade. Mas estes delírios interpretativos raramente, senão nunca, dão grande resultado. Ficamos, diga-se de passagem, é com grandes caras de tacho quando percebemos como a nossa liberdade interpretativa nos levou a becos sem saída dos quais só nos livramos recuando sem grande dignidade. Os homens são lamentavelmente literais, sobretudo quando estão muito interessados ou quando não estão interessados de todo.
A solução para o pântano da hermenêutica passa, em conclusão, por controlarmos criteriosamente o grau de interpretação que aplicamos à vida e às relações. Passa por nos lembrarmos que eles aplicam à vida, sempre que possível, a regra do simplex, nem sequer estão emocionalmente equipados para grandes subtilezas hermenêuticas. E passa, sobretudo, por, sempre que possível, ir directamente à fonte. Se parecer bom demais para ser verdade é porque é, e a explicação mais simples costuma ser a verdadeira. E se ainda tiverem dúvidas recusem interpretações, não aceitem mais que tudo devidamente explicado e clarinho da boca deles. Treinem comigo a pergunta: ouve lá, que raios queres dizer com isso?

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Guilty pleasures

Robert Pattinson as Edward Cullen
(aposto que pensavam que era moralmente superior a isto, não pensavam? Pois não sou...)

ah, e a propósito...


também não sou moralmente superior a vibrar com Bryan Adams .

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Gastrossexuais

Um dos adágios que se ouviam antes era que gordura era formosura. Outro, que se conquista um homem pelo estômago. Apesar de não ser verdade ( um coq au vin impecável empalidece face a um corpinho bikini), este antigo adágio ganhou uma interpretação e uma vida novas. Amigas, contemplem esta nova tribo urbana pós-moderna, os gastrossexuais.
O Deus dos gastrossexuais é, como não podia deixar de ser Jamie Oliver, chef extraordinaire e gajo que mesmo assim é muita gajo, sem afectações efeminadas. Para além de adorarem no altar do Naked Chef e de, imagino, preparar pratos de massa verdadeiramente yummy (as receitas do Oliver nunca desapontam), estes homens têm como objectivo máximo seduzir as mulheres através dos seus dotes culinários. Eles, queridas, têm uma forma de souflé e sabem como usá-la (e isto, infelizmente NÃO é uma metáfora vagamente sexual).

Eu até compreendo a necessidade e o acerto dos homens saberem cozinhar. Eles vivem muito mais tempo sozinhos que a geração dos pais deles e nós, por outro lado, estamos longe de ter a educação de prendas domésticas que as nossas mães tinham. Num mundo incerto, homem que é homem e não quer ir ao take-away tem de saber estrelar o seu próprio ovo, fritar o seu próprio bife, cozer a sua própria batata. É justo e razoável que os homens ajudem em casa, nomeadamente a preparar refeições. Como estratégia de sedução é que não sei bem. Comigo, por exemplo, nunca funcionaria, ou pelo menos não a longo prazo.

Se há vantagens óbvias num homem que distinga um banho-maria de uma máquina de lavar, não sei até que ponto quereremos mesmo um homem com veleidades de chef e gastrónomo às soltas na cozinha. Eu, que efectivamente sei e gosto de cozinhar, daria em doida com um homem assim. Territorial como sou com a minha cozinha começaríamos com elogios à capacidade de execução do prato, chegaríamos ao prato principal lívidos e de dentes cerrados e em menos de um fósforo estaríamos a rebolar pelo chão e a esgadanhar-nos um ao outro, e não no bom sentido da coisa. Claro que para mulheres que não sabem dos muitos e variados usos de um passe-vite um homem que se escravize na cozinha e, simplesmente, lhes dê de comer como se fossem umas princesas é irresistível. Eu é que levanto sérias objecções à escravatura, seja ela de que forma seja, preferindo nisto, como em tudo, um equilíbrio das coisas.

Neste mundo moderno, não sei se já repararam, cada vez que surge uma tribo urbana, esta é ou incompreensível, ou irritante. Primeiro, apropriaram-se dos cremes e dos SPA, os metrossexuais, agora apropriaram-se do avental e da cozinha. É inadmissível. E aviso desde já: se se atreverem a desenvolver o seu lado feminino nos saltos altos ou nas camisas de noite de seda viro freira, juro que viro! E que tal desenvolverem uma tribo urbana útil, uma que fizesse falta, uma que fosse a resposta às nossas preces de mulheres modernas na sala e na cozinha? Deixo já aqui em baixo uma dica: